17.1.12

Ricardo Borges, poeta

É bem verdade que tenho amigos poetas, ao menos dois, poetas deveras, entre os alguns ilustres - sem nenhuma ponta de ironia - que conheci, ou desconheci, em mesas de bar ou restaurantes ora consumidos pelo fogo. Quanto a saber se conheço ou não o poeta em questão, é difícil dizer:

Pessoas,
estão sempre ao alcance
e sempre tão irreais.

Para fins burocráticos, sim, é claro que eu o conheço, e posso atestá-lo em três vias. Mas haverá verdade na burocracia? Nesta vida, o gnóti seautón já é um luxo dos mais difíceis de (e)laborar; porém conhecer o outro, bem, isso são veredas muito mais tortuosas. Como disse o filósofo, aliás um filósofo, quem diria, ateu, a idéia que Pedro tem de Paulo não é a idéia de Paulo tal qual ela existe em Deus. Mas o que estou dizendo? Conhecer - ou não - o próprio poeta é um falso problema; o que importa é conhecer a produção desse poeta. E aqui as coisas ficam ligeiramente piores, pois estou tentado a falar de um livro que levou quase quarenta anos para ser escrito a partir de uma leitura que não chegou a me custar uma hora. Desse modo, aplica-se ao livro igualmente, ou talvez desigualmente, tudo o que já disse a respeito de seu autor. Imagina o leitor que minhas mazelas e desmazelos terminam por aí? Nada disso. Como se tudo isso já não bastasse, estou entre os menos qualificados entre os menos qualificados (a repetição é proposital) para falar seja lá o que for a respeito de poesia. É, pois, com total despreparo, mas não (queira o Deus do filósofo ateu) em total desamparo, e no fio do susto de uma primeira leitura vertiginosa, que vou traçar estas linhas. E seja lá o que quiser aquele que seja lá quem quer. Afinal, como disse o poeta em questão,

Inventa a vida
do jeito que
a goza.

Reparem: assoma o lúdico no poema, e deste salta para a própria vida, e ao poema retorna, ao ponto em que já não sabemos onde começam e onde terminam o gozo, o poema e a vida; pois se a vida se inventa do jeito que goza, também o poema, que por sua vez é mais um desses gozos nos quais a vida se inventa... É menos que um haiku, e no entanto, é todo um labirinto; um círculo virtuoso que lembra as mãos de Escher. Mas brincar, ou gozar, ou ainda inventar a vida, talvez não seja tão fácil como parece:

Desisto do meu ego para ser alter.

Claro está: para reconquistar a inocência que inventa, é preciso desarrastar a cangalha do ego. E isso não é brincadeira, ou coisa que se faça num piscar de olhos. E, ao mesmo tempo, é brincadeira, é coisa que se faz num piscar de olhos. Não é por acaso que o Zen desdenha da lógica. É lógico!

Os mapas exatos mentem.
São traçados que se apagam nas marés.
Que sinais nos apontam
o cais do amanhã?

Mas se a função lúdica da poesia (piscadela para o Marcelo) é coisa da maior seriedade, nossas sucessivas, aliás intermináveis reformas ortográficas, são ocasiões de ouro para exercê-la. Notem, porém: é zombaria amistosa, sem maldade, sem derrisão; o poeta zomba de nossos infatigáveis reformistas da letra sem traço de ressentimento, com inocência no olhar, numa atmosfera cosmológica de sonho; pois ele se assenta muito acima, tantas e tantas léguas acima, lá no trono da poesia, lá onde não viceja mágoa em face dos fiéis depositários dos signos, mas sim - num extremo de delicadeza - ternura:

Se estrelas não têm acento,
onde então iremos nos sentar?

É claro que "nem tudo é flores no presente". Há momentos em que a barra pesa, e a realidade parece impor-se como um princípio, sem lugar para floreios e devaneios. Ou estaríamos falando, ao contrário, da arte como de um artifício sedutor, laço que compele a carne apetecida para a crueza de espasmos sem delicadezas?

A ilusão da arte,
a tentação da máscara.
Tudo a encobrir as armadilhas
montadas na selva
de pele e ossos.

Ou estaríamos falando de ambas as coisas, já que o autor, a certa altura, confessa-se

meio mamute, meio gentleman,

ou seja, refinado o bastante para urdir esse primor de ambigüidade, mas também suficientemente take a walk on the wild side para fazer dessa trama incorporal a rede implacável que captura a presa? Tudo isso são apenas conjecturas, é claro; e a melhor das conjecturas não vale um único olhar de bronze face ao que se faz - ao que se continua fazendo, século após século - com a vida tanta que há lá fora. Entre esses olhares, gostaria de mostrar este, tão belo, tão certeiro:

As fábricas não param:
mãe, soldado, família e cruz
são produzidos incessantemente,
em séries eternas e sem detalhes,
sem peculiaridades.
As fábricas não param:
coisas disformes saem do produzidouro
onde tudo nasce e morre desiluminado.
Vez ou outra um inesperado fogo foge
pelas ventas de um gesto fugidio
e cessa.
As fábricas não param:
competem com inventiva morbidez
pelos feudos do que há de vida ainda,
em nós.

Aqui sim, há uma certa amargura, um certo cansaço em relação à eterna reaparição daquilo que não retorna, das aparências de realidade que se multiplicam sem nunca atingir o Ser: o homem, pequeno, médio ou superior, pouco importa, desiluminado e desiluminante, a grande, a única objeção ao eterno retorno, a serpente na garganta de Zaratustra. E que não me venham falar do "sistema"; "sistema" é cu de rola! O que existe são escravos e tiranos, uns dependentes dos outros, uns encaixados nos outros como numa engrenagem ou linha de produção: as tantas "fábricas".

Há sempre alguém vivo
querendo apagar uma estrela,
mas a luz que é nossa guia
não cessa nunca
e numa noite apenas podemos iluminar
todos os caminhos que não nos deixam trilhar.
Infeliz daquele
que quer todos os fogos na mão
e distribuir como dádivas
aos que não sabem
ser a luz de seus destinos.

É claro que muitos têm suas receitas, seus "mapas exatos" para mudar o mundo. Estão todos, claro está, condenados ao fracasso. Sim, é possível mudar o mundo. Qualquer adolescente sabe disso, embora não saiba como. Depois o adolescente cresce e continua sem saber como, e aí acaba desistindo e vai ser "alguém na vida". Ou então ele vai pulando de um "mapa exato" para outro. Não faz muita diferença: é tudo fracasso, fracasso real, fracasso da vitalidade. Mas apesar das vidas quebradas, das almas estilhaçadas, remoendo seus fantasmas e abstrações, há algo maior do que tudo, maior até mesmo do que a esperança (que, para Spinoza, ainda é um sentimento de escravos). Se estivermos dispostos a abandonar todos os "mapas exatos", se estivermos dispostos a desistir do ego (uma simples imagem) e investir naquilo que realmente conta, naquilo que realmente faz a diferença, tudo pode mudar num piscar de olhos.

A idéia é boa: refazer o mundo
a partir de coisa nenhuma.
É como se o próprio mundo fosse
um tijolo
e de barro em barro
fôssemos esculpindo novos
caminhos e casas.
Lugares bons e seguros por onde andar,
tetos serenos e aconchego num
colchão de plumas.

Minha própria tarefa é dar um novo nome ao que realmente conta. Ao menos um nome. Que outros dêem outros nomes. Um dia, com alguma sorte, os nomes serão tantos que já não poderemos ignorar a realidade que está por trás deles. Ou a realidade que pode ser inventada a partir deles: nós mesmos. Passo a citar Henry Miller: "A meu ver, os artistas, os cientistas, os filósofos parecem estar muito ocupados polindo lentes. Tudo isso são vastos preparativos em vista de um acontecimento que jamais se produziu. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia, todos nós perceberemos claramente a extraordinária beleza deste mundo..."

Que dizer depois disso?

Só o silêncio
não é insalubre.
De resto,
o deserto das línguas envenena
os genomas e o etérico.

Aqui, sou obviamente forçado a discordar do poeta. Continuamos a repetir o velho provérbio segundo o qual a palavra é de prata, e o silêncio, de ouro. Quem nos garante, entretanto, que a prata é menos valiosa do que o ouro? Talvez seja apenas uma questão de convenção, de humanas convenções. Eu, por exemplo, aprecio mais o brilho suave e despretensioso da prata do que o fulgor soberbo do ouro. Já usei prata. Ouro? Nem que fosse rei. Mas a severidade do poeta é compreensível. A língua torna-se, com efeito, um deserto quanto submetida à tirania das designações e das manifestações, e isso se estende, claro, às significações. Ela se torna um deserto quando tagarelamos sem cessar acerca das coisas e suas utilidades, ou acerca dos transientes orgânicos do corpo: que fome, que dor de cabeça, que vontade de cagar. Certamente há, ou pode haver, cem mil desertos numa única palavra. Quem lê tanta notícia? Mas lá onde cresce o perigo, cresce também aquilo que salva, e é justamente pelas línguas que podemos produzir a velocidade absoluta dos conceitos, essas entidades-luz mais velozes que a própria luz; e é nas línguas, ainda que não somente nelas, que mora a poesia; e é pelas línguas, embora não somente por elas, que podemos tocar aqueles que uma física banal nos (des)ensina serem "outros", mas que serão eternamente outra versão de nós mesmos, diferentemente torcidos ou retorcidos nas dobras do tempo.

Acontecer fantasticamente na diferença
é questão dos gênios.
Por sentirem que não estão sozinhos
concebem do Divino
os cantares do amanhã.




Parabéns, Ricardo.


Ah, sim:

Nome do poeta: Ricardo Borges
Nome do livro: Inventário do nada

À venda na livraria da Editora da UFF.
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