30.4.15

Por que o autoritarismo populista quer proteger o povo do conhecimento?

Os progressistas são uns amores: preferem um povo de operários a um povo de pensadores.

Os conservadores também são uns amores: querem, entre outras coisas, desinformar os consumidores. 

Vejam esta pérola do PL 4148/2008, do deputado Luis Carlos Heinze (PP/RS):
"Entendemos que a indicação da espécie doadora do gene não traz benefício ao consumidor, uma vez que de difícil compreensão (nomes científicos), contrariando, desse modo, o disposto nos artigos 6º e 31 do Código de Defesa do Consumidor, que exige o fornecimento ao consumidor de informações claras e que não o levem a erro ou falso entendimento."
A tese acima não se sustenta nem mesmo se aceitarmos sua duvidosa premissa (a de que nomes científicos são de "difícil compreensão").

Afinal, há um abismo entre exigir "clareza na informação" e exigir que essa mesma informação seja de "fácil compreensão". Confundir o "difícil" e o "obscuro" (na passagem da premissa à conclusão) é, claramente, um procedimento falacioso.

Em outras palavras: mesmo que eu fosse capaz de explicar física quântica como um anjo (fornecendo, portanto, somente "informações claras") eu não conseguiria fazer da física quântica uma matéria de "fácil compreensão". Uma coisa nada tem a ver com a outra.

Por outro lado, o que será mais produtivo para educar um povo: colocá-lo à prova com informações que ele talvez seja forçado a pesquisar, ou poupá-lo a priori, dele escamoteando tudo que imaginamos que não será capaz de compreender?

Por fim, será que um deputado que tão facilmente renuncia à lógica em nome da retórica está realmente capacitado para avaliar a competência cognitiva dos consumidores brasileiros? 

* * *

Amanhã, 1º de maio, farei uma postagem especial sobre um tema caro ao trabalhador intelectual: os direitos autorais. É uma idéia capaz de transformar (para melhor) a legislação sobre esse tema em todo o mundo. O que não  quer dizer, obviamente, que isso irá acontecer...

* * * 

Que tal aproveitar o feriado de manhã para fazer um pequeno exercício de lógica? Leia a matéria FHC e a maconha, publicada hoje na Folha de São Paulo, e mostre por que ela é inteiramente falaciosa. Eu mesmo farei esse exercício e o publicarei aqui em dois ou três dias.


8.4.15

As bijuterias envenenadas (parte 4)


ADENDO

Esta série estava prevista para apenas três postagens, mas o fato é que eu acabei deixando de assinalar, na terceira parte, um ponto adicional que considero relevante.

Como vimos anteriormente, a Anvisa afirma que:
"A população do Brasil e também a de todo o mundo convive com o cádmio, que está naturalmente presente em jazidas na natureza e na queima dos combustíveis fósseis (...) A presença do cádmio nestas bijuterias, associada ao cádmio já existente de forma natural no ambiente, amplia a possibilidade de risco à saúde".
A presença de cádmio no ambiente por intermédio da queima de combustíveis fósseis (que é uma atividade eminentemente humana) foi enfaticamente caracterizada pela Anvisa como natural. Mas não é esse ponto, embora controverso, que me interessa. O ponto que me interessa é precisamente aquele que ninguém ousaria colocar em discussão, ou seja, aquele que está (ou parece estar) bem fundamentado de um ponto de vista estritamente lógico.

Esse ponto "indiscutível" é formulado pela Anvisa quando esta afirma que "a população do Brasil... convive com o cádmio, que está naturalmente presente em jazidas na natureza". Ora, é evidente que o cádmio presente em jazidas pode (e deve) ser considerado como "já existente de forma natural no ambiente". E esse seria um dos fatores de risco que, de acordo com a Anvisa, seria "ampliado" pela presença de cádmio nas bijuterias chinesas.

O problema é que as reservas de cádmio brasileiras são ínfimas. De acordo com o relatório oficial mais recente (Anuário Mineral Brasileiro de 2010) do Departamento Nacional de Produção Mineral (17), elas não passam de 610 toneladas:


Ainda de acordo com o Anuário Mineral Brasileiro de 2010, a exportação de cádmio no Brasil no ano de 2009 foi igual a zero (Tabela 1.6.5), a produção bruta de cádmio foi igual a zero (Tabela 1.2.1), e a importação total de cádmio (incluindo bens primários, semimanufaturados, manufaturados e compostos químicos), no mesmo ano, totalizou apenas 531 toneladas (Tabela 1.6.6).

Porém há mais. Não apenas as reservas de cádmio brasileiras são ínfimas, mas elas estão localizadas exclusivamente num único lugar: o município de Paracatu, em Minas Gerais (Tabela 3.1.1).

Se alguém chegou a achar que as conclusões que tirei na terceira parte desta série foram "duras demais" com a Anvisa, é hora de reconsiderar. Elas foram até brandas demais. Relembremos o texto já citado:
"A população do Brasil e também a de todo o mundo convive com o cádmio, que está naturalmente presente em jazidas na natureza e na queima dos combustíveis fósseis".
Pois bem: existe apenas uma jazida de cádmio no Brasil, e não me parece que essa única jazida num município mineiro que faz divisa com Goiás ofereça maiores riscos para a totalidade da "população do Brasil". Não há outra conclusão possível: os riscos "naturais" oferecidos pelo cádmio "nativo" foram maximizados justamente para que os riscos do cádmio importado nas bijuterias chinesas fossem minimizados.

Façamos algumas contas. A única jazida de cádmio brasileira possui uma reserva indicada de 610 toneladas. No ano de 2009, o Brasil importou um total de 531 toneladas de cádmio, ao passo que, entre 2009 e 2013, importamos da China 29.000 toneladas de bijuterias. Como essas bijuterias podem (de acordo com os testes realizados) conter entre 32,6 e 39,2% de cádmio, teremos importado, nesses 5 anos, algo entre 9.454 e  11.368 toneladas de cádmio que, depois de terem passado pela pele (e boca) de crianças e adolescentes, irão para o lixo comum sem nenhuma espécie de cuidado especial.

Vejamos esses números numa tabela (médias estimadas):

Como se pode ver, a quantidade de cádmio importada em bijuterias corresponde, numa média anual estimada, a uma quantidade 3,56 maior do que a quantidade de cádmio importada oficialmente; ou, na pior das hipóteses, a uma quantidade 4,28 vezes maior.

Em resumo, a Anvisa menciona nossas "jazidas" (que na verdade são uma só, e muito modesta) e a "queima de combustíveis fósseis" (que na verdade ocorre no mundo inteiro) como fatores que deveriam nos tranqüilizar quanto à entrada das bijuterias chinesas em nosso país. É uma falácia monumental: não é porque eu já corro um determinado risco que devo tomar à ligeira riscos adicionais; por exemplo, o fato de alguém beber não lhe dá uma desculpa para começar a fumar.

Mas porque os efeitos de um metal pesado como o cádmio no organismo são cumulativos, a falácia fica ainda pior. Se eu já corro algum risco por causa do cádmio "nativo", tanto mais importante se torna evitar qualquer contato adicional com a substância.

Ou seja, não há o que refletir. Ao constatar a chegada de uma carga de 16 toneladas de bijuterias cheias de cádmio (ou seja, de lixo tóxico), a única decisão sensata seria fazer um recall da mercadoria (ou seja, mandá-la de volta aos seus fabricantes na China) e proibir imediatamente a chegada de qualquer carga semelhante. Assim agiria qualquer órgão de fiscalização preocupado com a saúde dos cidadãos e com a saúde ambiental do país. Em vez disso, a Anvisa disse que não havia "risco iminente e nem agudo"...

Caro leitor: no dia em que um governo der mais importância à ideologia, ou às relações comerciais com este ou aquele país, do que ao desenvolvimento cerebral de seu filho ou aos riscos que você corre de ter um câncer, esteja certo de que você está sendo governado por criminosos. É simples assim.


FONTES

(17) Anuário Mineral Brasileiro 2010 (Departamento Nacional de Produção Mineral / Ministério das Minas e Energia)


6.4.15

As bijuterias envenenadas (parte 3)


3. A reação da Anvisa
"A carga de bijuterias retidas no Porto do Rio de Janeiro, oriundas da China, e que têm presença do metal pesado cádmio em sua composição, não representam (sic) risco iminente e nem agudo aos usuários destes produtos." (12)
Faz sentido comparar o risco de intoxicação por metais pesados ao risco de explosão de um barril de pólvora? O risco de explosão é iminente, e o risco de intoxicação é persistente. O risco de explosão é agudo, e o risco de intoxicação, crônico. A explosão se manifesta num instante e mata ou mutila instantaneamente; a intoxicação é muitas vezes subclínica (13), pode levar anos ou mesmo décadas para manifestar-se, e mata ou incapacita lentamente. Assim, dizer que as bijuterias com cádmio "não representam risco iminente e nem agudo" equivale apenas a dizer que elas são muito diferentes de um barril de pólvora. Se esse tipo de argumento possuísse algum valor, a maconha teria de ser liberada imediatamente, e o álcool, proibido... Em resumo, riscos de "explosão" e de "intoxicação" são riscos igualmente graves que, entretanto, se manifestam de maneiras inteiramente diferentes.

Basta uma leitura rápida da nota da Anvisa para revelar sua ambigüidade fundamental ou, se quisermos, o padrão "morde e assopra" que a caracteriza. Primeiro a Anvisa assopra:
"A população do Brasil e também a de todo o mundo convive com o cádmio, que está naturalmente presente em jazidas na natureza e na queima dos combustíveis fósseis". (12)
É verdade. Todos nós convivemos, em maior ou menor grau, com o cádmio, o chumbo, o mercúrio e tantos outros metais pesados. Estará a Anvisa sugerindo que, já que é assim, o melhor é relaxar e gozar? Sim e não. Sob pena de ficar desmoralizada ad æternum perante a valorosa comunidade científica brasileira (14), a Anvisa não podia simplesmente dizer que o cádmio e os seres humanos estão naturalmente "juntos e misturados", e que as coisas "são assim mesmo". Assim, era preciso "morder" um pouquinho:
"A presença do cádmio nestas bijuterias, associada ao cádmio já existente de forma natural no ambiente, amplia a possibilidade de risco à saúde". (12)
Note-se, porém, que a Anvisa "assopra" mesmo quando "morde". Ao dizer que o cádmio existe "de forma natural no ambiente", a Anvisa sugere que a contaminação por cádmio é "natural" e, portanto, "inevitável". Percebe-se de imediato o que se esconde nessa falácia: é como se o cádmio importado nas bijuterias não fosse capaz de contaminar ninguém que já não estivesse irremediavelmente contaminado; como se ele fosse, sim, capaz de "ampliar" os riscos, mas jamais de produzi-los diretamente. De acordo com a Anvisa, o cádmio "importado" só constitui um fator de risco porque é adicionado ao cádmio "nativo"; considerado em si mesmo, ele é estatisticamente insignificante.

Para derrubar a falácia da Anvisa (e para caracterizar a liberação da carga apreendida como uma péssima decisão), basta que uma única criança chupe ou morda regularmente (ou engula) uma dessas peças de bijuteria com elevados níveis de cádmio, comprometendo irremediavelmente seu desenvolvimento cerebral.

Essas considerações são tanto mais importantes na medida em que os riscos advindos dos metais pesados não se restringem, como quer a Anvisa, aos usuários das peças. Todas essas bijuterias baratas terão (e, em muitos casos, bastante rapidamente) o mesmo destino: o lixo comum. Estamos falando aqui da contaminação de rios, lagoas, lençóis d'água, plantações e assim por diante. Estamos falando da importação (entre 2009 e 2013) de nove mil toneladas de cádmio ou mais. Basta compreender a tragédia ambiental que a China está exportando para compreender que este outro argumento da Anvisa também é falacioso:
"O risco à saúde se dá principalmente pela ingestão ou pela inalação do cádmio; nas peças analisadas, a presença do cádmio está restrita a camada interna do produto. Acima dela há mais duas camadas de outros materiais". (12)
Ou seja, a Anvisa raciocina como se bijuterias baratas, muitas vezes vendidas a centavos de dólar, (a) jamais descascassem e (b) jamais fossem jogadas no lixo. Tal como as mocinhas e os políticos, ela pouco se importa com as criancinhas, e trata o risco de danos individuais como remoto; não satisfeita, ela ainda consegue a proeza de tratar o risco de danos ambientais como inexistente.

Estarei eu de má vontade com a Anvisa? Terei eu transformado a saudável dialética de argumentos "a favor" e "contra" numa artificial ambigüidade "morde e assopra"? Não creio. Vejamos meus dois últimos argumentos. Um deles é de simples ordem factual:
"Estados Unidos e Europa não realizaram recall para bijuterias com a presença de cádmio (...) Considerando que não há risco iminente e nem agudo à saúde, não há, nesse momento, necessidade de realização de recall". (12)
A primeira afirmação é simplesmente mentirosa. Basta ler o documento publicado pelo National Center for Biotechnology Information (15) ou, mais prosaicamente ainda, basta fazer uma busca no Google para verificar que, nesse caso, a Anvisa está faltando com a verdade. Essa mentira foi inventada exclusivamente para reforçar a segunda afirmação; e esta, por sua vez, pode ser traduzida, como já vimos, deste modo: "uma vez que bijuterias com alto teor de cádmio não são barris de pólvora, não precisam ser devolvidas às fábricas ou aos países de origem."

Tudo é um tanto confuso e difícil de entender. Por que Dirceu Barbano, então diretor da Anvisa –  tão severo e cuidadoso ao lidar com o canabidiol – foi tão benevolente com uma substância tóxica e ambientalmente perigosa como o cádmio? Por que a avaliação da Anvisa diverge tão radicalmente da avaliação do Inmetro? (16) Por que um órgão de alta responsabilidade como a Anvisa baseou sua questionável decisão em mentiras e falácias? Enfim: por que uma carga irregular, altamente tóxica e ambientalmente perigosa (que pertencia, ainda por cima, a sonegadores de impostos) não foi imediatamente devolvida ao seu país de origem?

Para esclarecer definitivamente esse mistério, façamos uma simples experiência mental: o que teria acontecido se as bijuterias fossem provenientes dos Estados Unidos ou da Europa? Não estaríamos berrando aos quatro ventos que os imperialistas estavam envenenando nossas crianças para se livrarem de seu lixo tóxico? Não teríamos devolvido imediatamente, indignados, toda a carga de cádmio ao seu país de origem? Não teríamos proibido rapidamente esse tipo de importação?

Sim, é precisamente isso que teríamos feito. E com toda razão: nesse tipo de matéria, não há (ou não deveria haver) espaço para quaisquer considerações secundárias. A única operação aceitável, aqui, é a tautologia: lixo tóxico é lixo tóxico e deve ser imediatamente devolvido, venha ele de onde vier.

Conclusão: se não foi isso que aconteceu, é porque as afinidades ideológicas falaram mais alto do que os mais altos interesses das pessoas que aqui vivem. Corolário: invariavelmente, a ideologia é o prenúncio do horror. Seja ela de direita ou de esquerda.

São ou não são todos, sem exceção, "criminosos de guerra"?


FONTES

(12) Nota conjunta da Anvisa e Senacon sobre cádmio em bijuterias da China (Anvisa / Senacon, 22/11/2013)
(13) Intoxicação subclínica por metais pesados (Tsutomu Higashi)
(14) Método detecta metais tóxicos em joias, piercings e bijuterias (Unicamp)
(15) Cadmium confusion: Do Consumers Need Protection? (National Center for Biotechnology Information) => Clique aqui para baixar a versão em PDF
(16) Cádmio e Chumbo em Bijuterias e Joias - Inmetro (PDF)

As bijuterias envenenadas (parte 2)


A reação brasileira


Diante do caso exposto na primeira parte desta postagem, qual foi a reação brasileira?

Depende. Pode-se mencionar ao menos três reações diferentes.

1. A reação das consumidoras

Primeiramente, é preciso falar de quem sustenta todo esse comércio de bijuterias tóxicas provenientes da China: as consumidoras, é claro. Não é preciso visitar a Saara (no Rio) ou a 25 de março (em Sampa) para conhecê-las. Há um exército delas escrevendo em blogues, vendendo produtos no Facebook ou em páginas de comércio online e postando vídeos em canais do YouTube. Elas usam como senha a palavra comprinhas, e seus interesses se baseiam num tripé: roupas, maquiagem e acessórios, entre os quais se incluem as bijuterias. Todas as mercadorias são chinesas e quase todas são provenientes de um único site. As roupas são baratas, de mau gosto e de má qualidade. As maquiagens são todas falsas, ainda que as palavras "falsificação" e "contrafação" tenham sido banidas do vocabulário dessas moças (e substituídas pelo eufemismo "réplica".) Quanto às bijuterias, bem, destas nós já sabemos alguma coisa. Deixarei aqui uma sugestão de pesquisa caso o leitor deseje conhecer um pouco desse universo bizarro.

Mas atenção! Com raras exceções, elas não são mocinhas pobres ou de periferia; todas têm acesso a informação (e a cartões de crédito internacionais), mas ainda assim ignoram, voluntariamente ou não, o problema dos metais pesados nas bijuterias. Tampouco parecem estar preocupadas com os produtos químicos que possam estar presentes em suas maquiagens "réplicas". Elas querem comprar, comprar barato e comprar muito; e, acima de tudo, querem fazer propaganda de suas compras. Aparentemente, é tudo um grande negócio. Algumas são simplesmente meninas sem noção sonhando com a celebridade (e o comércio) online. Outras parecem saber muito bem o que estão fazendo, e são, como diria meu amigo Mário, criminosas de guerra. Outras ainda se assemelham, em seu desespero mal disfarçado, a "MAVs" dos vendedores chineses. Nenhuma delas parece se importar com o fato de que crianças pequenas irão acabar usando aquelas maquiagens e bijuterias. E quem se importa?

2. A reação dos políticos

Os políticos são os últimos homens do mundo a se importar com criancinhas (que não sejam deles), mas certamente sabem farejar temas de fácil digestão para alavancar suas carreiras políticas. Ao menos dois deles propuseram (imediatamente após a denúncia do Fantástico) projetos de lei regulamentando a questão do cádmio. Um deles imitou a legislação européia, outro imitou a americana. Os dois projetos aparecem juntos e misturados no projeto de Lei 6786/2013, que copia trechos inteiros da reportagem do Fantástico mencionada anteriormente (e que são, por sinal, os trechos mais bem redigidos do documento).

O PL 6786/2013 já foi aprovado na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio da Câmara dos Deputados. Não deixa de ser uma boa notícia. Levando-se em conta que as legislações européia, canadense e americana sobre o tema são relativamente recentes (tendo surgido entre 2007 e 2011), não estamos tão atrasados assim.

Mas há quem reclame. Um texto (contemporâneo à denúncia do Fantástico) escrito em um site autoproclamado The Global Jewelry Information Website (11) diz textualmente que
"O estranho de tudo isto é que o problema somente agora aparece no Brasil. Na verdade, é muito difícil alcançar níveis tão baixos de cádmio. Mesmo nas joias fabricadas no Brasil. E não é um problema do fabricante de joias, mas do fabricante do metal."
Notem que dois problemas distintos surgem nesse texto. Em primeiro lugar, ele afirma que os fabricantes de metal no Brasil talvez não sejam capazes de fornecer metais com a pureza desejada e consignada em lei. Se isso for verdade, é preocupante. Em segundo lugar, o texto sugere que o problema (ou melhor, que a discussão do problema) apareceu no Brasil com um considerável atraso. O próprio título da matéria (só agora...) sugere que o problema já era bem conhecido pelos representantes da classe joalheira.

Mas não é preciso ser joalheiro para perceber que teria sido possível iniciar bem antes a discussão de um problema tão sério. Se estivéssemos mais atentos ao cenário internacional, o problema poderia ter sido levantado já a partir das primeiras notícias a respeito do que estava ocorrendo no mundo desenvolvido, e portanto já em 2010 ou mesmo antes. Descobrir o problema por acaso, numa fiscalização da Receita Federal que nada tinha a ver com questões de saúde pública, é certamente vergonhoso.

Mas será que só precisávamos ter prestado um pouquinho mais de atenção ao que acontecia lá fora? Ou será que a descoberta casual do problema é parte integrante da ordem das coisas aqui no Brasil? Ainda resta falar de uma dentre as três reações mencionadas no início deste texto. É a reação mais interessante e será discutida no terceiro e último texto da série.


FONTES

(11) Só agora no Brasil foram descobertas bijoux contaminadas com cádmio da China (CREBI)

As bijuterias envenenadas (parte 1)


Um resumo do caso

Em novembro de 2013 a imprensa brasileira divulgou uma denúncia grave: 16 toneladas de bijuterias apreendidas pela Receita Federal no porto do Rio de Janeiro apresentavam "níveis altíssimos" de um metal pesado, extremamente tóxico, chamado cádmio.

Até onde eu pude descobrir em minha pesquisa, a primeira fonte a mencionar o assunto foi uma chamada para o programa "Fantástico" (1). Três dias depois, em 17 de novembro de 2013, a matéria completa foi veiculada na TV Globo e na página do "Fantástico" (2).

Façamos um resumo das informações básicas publicadas por essa fonte:

(a) O cádmio pode ser absorvido pela pele e, mesmo em quantidades muito pequenas, é altamente prejudicial à saúde.
(b) Nos Estados Unidos, a proporção máxima de cádmio permitida em bijuterias é de 0,03%.
(c) Na União Européia, essa proporção cai para 0,01%.
(d) As bijuterias (brincos, anéis, colares, pulseiras, etc.) foram apreendidas pela Receita por razões meramente fiscais (suspeita de que o valor declarado era menor do que o valor real).
(e) Como precisava determinar o valor das peças, a Receita mandou testá-las e descobriu que continham cádmio numa proporção que variava entre 32,6 e 39,2%.
(f) A Receita Federal consultou o Ibama e a Anvisa.
(g) O Ibama informou que o cádmio não requer licença de importação; "o controle, segundo o Ibama, seria competência da Anvisa."
(h) A Anvisa informou que "bijuterias, joias e assemelhados não estão sujeitos à vigilância sanitária."
(i) Assim, "a Receita Federal será obrigada a permitir a entrada no país dessas 16 toneladas de carga perigosa", cabendo-lhe apenas "cobrar o imposto devido sobre o valor da mercadoria."
(j) Apenas nos últimos cinco anos (ou seja, entre entre 2009 e 2013), "o Brasil importou 29 mil toneladas de bijuterias chinesas."

Em entrevista concedida ao programa Sem Censura (3), a professora de toxicologia da UFRJ Nancy Barbi afirmou (ou ao menos sugeriu) que o uso do cádmio em bijuterias por fabricantes chineses faria parte de uma estratégia deliberada para descartar lixo tóxico. Em outras palavras, os chineses estariam aliviando um sério problema ambiental ao exportar, sob forma de bijuterias, milhares de toneladas de um metal pesado que não se degrada no meio ambiente. E, de quebra, eles não estariam gastando um tostão para resolver seu problema; estariam, ao contrário, ganhando dinheiro.

Ora, se a professora Nancy Barbi estiver correta, não se trata de uma simples iniciativa de diminuição de custos por parte dos fabricantes chineses. Mas para que essa exportação de cádmio em bijuterias possa ser caracterizada como uma estratégia deliberada de limpeza ambiental, será preciso que o próprio Estado chinês esteja fornecendo essa matéria-prima, sem nenhum custo ou a preços muito baixos, aos fabricantes locais. É uma tese perfeitamente plausível, porém difícil de ser provada (ou mesmo investigada); e por mais verossímil que seja, não se pode negar que ela possui tintas de teoria conspiratória.

É claro que eu gostaria de saber por que a China está exportando cádmio. Será uma política de Estado? Será simplesmente ganância privada de fabricantes sem escrúpulos? Ou talvez uma combinação das duas coisas? Tudo o que sei (até aqui) é que a China possui graves problemas ambientais e que boa parte desses problemas se deve aos metais pesados (5), (6), (7). Por outro lado, sei que ela exporta cádmio sob forma de bijuterias e que a presença de cádmio em bijuterias vem causando preocupação até em países mais desenvolvidos e com uma legislação mais avançada do que a nossa (8), (9), (10). Por fim, sei que o cádmio não é, em nenhuma hipótese, um metal requerido para a fabricação de bijuterias. Juntas, todas essas circunstâncias acabam despertando suspeitas e é natural supor, como fez a professora Nancy Barbi, que se trate de uma política deliberada.

No entanto, saber por que diabos a China exporta cádmio escondido em bijuterias é muito menos importante do que saber o que nós fizemos (e faremos) a respeito. Esse será o objeto da segunda parte desta postagem.


FONTES

(1) Teste mostra alto nível de cádmio em bijuterias vindas da China (14/11/2013)
(2) Laudo alerta para alta concentração de substância tóxica em bijuterias (17/11/2013)
(3) Depoimento de Nancy Barbi (professora de toxicologia da UFRJ)
(4) Cádmio e Chumbo em Bijuterias e Joias - Inmetro
(5) A contaminação por metais pesados na China - Parte 1 (He Guangwei / Yale)
(6) A contaminação por metais pesados na China - Parte 2 (He Guangwei / Yale)
(7) Rice Tainted With Cadmium Is Discovered in Southern China (New York Times)
(8) Wal-Mart Still Selling Cadmium-Tainted Jewelry (Associated Press)
(9) Cadmium In Jewelry: Federal Regulators Failed To Protect Children From Cancer-Causing Metals (The Huffington Post)
(10) Toxic jewelry from China sold online (Czech News Agency / Prague Post)


1.4.15

O petróleo é nosso!

Nosso? 

Primeiro de abril, tolinho/a!

"Nosso" petróleo agora é chinês.

E a Petrobras é da casta dominante.

Aquela que não paga nem o carro, nem a gasolina.
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