13.8.07

a cultura e a morte - nova série

Eu gostaria de comentar um belo filme de Truffaut, Fahrenheit 451, baseado no livro homônimo de Ray Bradbury. Para quem não viu, aqui vai o aviso: eu vou comentar justamente o final do filme.

Seu argumento é simples e muito bem bolado: numa sociedade localizada num futuro qualquer, os livros foram proibidos porque insinuam dúvidas e angústias, ou seja, porque fazem da vida um problema. Onde quer que livros sejam encontrados, eles são simplesmente queimados, e seus donos são submetidos a uma reeducação.

É um belíssimo filme que reflete belamente a época em que foi feito (1966) e que nem por isso se tornou datado. Ao contrário; além de possuir uma farta dose de intempestivo, ele antecipa muito de nossa própria época de forma assustadora. É um filme extremamente inteligente, e não se poderia esperar outra coisa da dupla Bradbury/Truffaut. A cena em que a esposa de Montag regozija-se por ter dado "todas as respostas certas" (00:19:10) num programa de TV (que bem poderia ter inspirado o criador do Big Brother) é um chute na boca do estômago de qualquer ser pensante.

Os dez minutos finais, porém, são um chute na boca do meu estômago. E sequer adiantaria trocar o ator que recepciona Montag na zona dos homens-livros, com seu rosto de homem culto absolutamente satisfeito consigo mesmo, por Tom Zé e sua genuína inquietação; pois é toda a concepção da coisa, desde a base, que pode ser considerada uma traição à cultura, por paradoxal que isso possa parecer. Sem dúvida é bela a idéia de que num mundo em que os livros fossem proibidos, alguns homens os decorassem para que (eles, os livros) pudessem sobreviver àquela idade das trevas. É uma bela alegoria, e eu recomendo Fahrenheit 451 para qualquer adolescente. Em certa medida é mesmo uma idéia poderosa, um elogio à resistência inteligente frente à estupidez de um poder onipresente e obscurantista. Mas assim que examinamos essa idéia à luz da concepção de cultura que estou tentando pensar aqui, ela se torna pálida e mesmo mortífera.

Não, eu não estou exagerando. Observem bem esses dez minutos finais. Homens e mulheres passeiam para lá e para cá recitando "seus" livros (ou melhor, os livros em que eles se tornaram), mas quase nada se passa entre eles. Não há, por exemplo, uma única cena em que todos se reúnam à volta de uma fogueira e recitem, com evidente prazer e emoção, ao menos suas passagens favoritas. Eles falam entre si, eles se comunicam e mui cordialmente, mas jamais conversam. Ao contrário, eles passeiam para lá e para cá recitando seus livros, indiferentes uns aos outros. Sim, os livros sobreviveram; eles se tornaram homens, assim como os homens se tornaram livros; mas nem os livros nem os homens queimam.

Também não se sugere, em nenhum momento, a idéia de que os próprios livros poderiam se misturar. Os livros, assim como os homens, estão isolados uns dos outros. Tal homem é O Príncipe, tal mulher é A República, e poderíamos apostar que cada palavra de cada livro foi decorada tal qual, como seria de se esperar do rigor de uma cultura européia; mas nenhum daqueles homens se apresenta assim: "Eu sou O Idiota, de Dostoiévski, enxertado com longas passagens do Trópico de Capricórnio e duas frases de Sade."

Pode-se argumentar, e não sem alguma razão, que se o propósito daquela morna comunidade era meramente salvar os livros da destruição, é pueril levantar uma crítica em relação à fidelidade daqueles homens aos livros em que eles se tornaram. Porém aqui é preciso pensar com a radicalidade de um Artaud, ou então desistir de vez de pensar: mas se todos aqueles livros não os livraram de criar uma sociedade que queima livros, será que não valeria a pena deixar que desapareçam de uma vez?

É óbvio que eu não sou a favor da desaparição dos livros; muito pelo contrário, sou a favor de sua multiplicação. Mas não é disso que se trata. Creio que aqui tocamos um ponto essencial do pensamento da Cultura: ainda que esta se beneficie da conservação e acumulação de conhecimento (memória), sua confusão com o conhecimento nele mesmo equivale à sua morte. A Cultura, a ação do homem sobre o homem, depende muito menos do conhecimento do que da capacidade de inventar ou reinventar problemas (pensamento). Em uma palavra, o conhecimento no máximo favorece (ou melhor, tende a favorecer) o pensamento, mas não pode jamais ser confundido com ele. "Muito saber não ensina a pensar", disse Heráclito. E eu posso escrever essa frase em grego, mas me digam, que diferença isso faria?

Se não fosse assim, poderíamos afirmar, em nossa arrogância de homens brancos e civilizados, que uma favelada sequer tem condições para criar seus filhos só porque jamais aprendeu a ler esses mesmo livros que nós colocamos numa espécie de panteão, mas que jamais nos livraram da miséria de nossa própria mesquinhez e impotência para pensar. E no entanto elas criam, em geral, homens muito melhores do que nós, ainda que eles não saibam falar ou escrever dentro das normas da chamada língua culta. E se alguns filhos das favelas são brutais, não podemos nos esquecer de que os nossos filhos queimam índios e batem em prostitutas. A morte da Cultura está em toda parte, mas eu me arriscaria a dizer que essa morte não é engendrada nas favelas, e sim nas Empresas, no Estado, nas Escolas e Academias, enfim, nos lugares pelos quais nós somos os responsáveis. Aliás, permitam-me dizê-lo, lugares pelos quais eles são responsáveis. Nunca fui empresário, governante ou professor.

Evidentemente, a diferença entre conhecimento e pensamento, essencial para o entendimento da Cultura, merece um tópico à parte, e eu já me estendi demais. Voltemos brevemente a Fahrenheit 451. Imaginem um homem daquele mundo que tivesse sua biblioteca queimada e fosse obrigado a ir viver na terra dos homens-livros. E ao ouvir a pergunta: "Que livro você decorou ou gostaria de decorar?", imaginem que ele respondesse algo assim: "Olá, eu sou A Cultura e a Morte, e estou me escrevendo a cada dia." Os homens-livros provavelmente o achariam louco, porém conservariam um silêncio educado, possivelmente acompanhado de um não menos educado sorriso: mas haveria uma frieza mortal naquele sorriso. Pensadores só são bons depois de mortos, quando finalmente podem virar objeto de conhecimento.

2 Comentários:

Blogger Louisie disse...

É... acho que as vezes meu pensamento é romantico demais...
Te disse que meu primeiro contato com esse filme, foram exatamente esses 10 minutos finais, e foram esses 10 minutos que me fizeram ter vontade de ver o restante do filme. Eu achei bonito aquilo, vi a cena como se de alguma forma, cada uma daquelas pessoas quisesse ter a certeza de que aquela obra, que elas tanto amavam, um dia, poderia ser lida novamente. Ou seja, é um amor, uma paixão pela obra, quase, se não, tão grande qto a do seu próprio autor (a meu ver).
Mas confesso que o que você disse aqui, como sempre, me fez pensar. De fato, analizando melhor, consigo re-avaliar aquele momento, e vejo que aquelas pessoa deixaram de pensar, e que suas paixões por aquela obra, paixão tamanha que as fizeram se tornar elas ( as obras), também as alienou. Elas realmente não trocam, não recitam os livros umas as outras, não parecem, embora estivessem em sociedade, não pareciam ter uma convivência social... Sei lá. Acho que o estou repentindo.
Não deixei de achar a idéia bonita, mas no meu caso por exemplo, eu nem sei qual livro escolheria. E vc, dentre esse monte que vc tem aí, saberia? Seria justo para com os outros deixá-los de lado, eleger um só como o mais importante? Essa questão mexeu comigo um pouco.
É isso.

16 de setembro de 2007 22:05  
Blogger Francisco Fuchs disse...

Louisie, você levantou dois pontos que eu considero importantes. O primeiro deles se refere à diferença entre o filme e o livro: neste, como você verá, não existe essa correspondência "um homem = um livro", e portanto a questão da escolha não se coloca.

O segundo ponto é mais importante ainda e eu já me referi a ele anteriormente: trata-se da ambivalência do aspecto "cultual" da cultura. Creio que o "culto" não é algo de inteiramente negativo para a cultura, assim como creio que o "pulo do gato" é justamente ultrapassar o culto e passar ao cultivo (de si e do outro), ou seja, à produção.

Um abraço!

25 de setembro de 2007 21:03  

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