12.7.09

Da utilidade do animais

Já leram essa crônica de Drummond? Um primor. Aqui está o atalho para o arquivo PDF.

(Vegans eufóricos adoram. Para estes, resta escrever "Da utilidade das plantas".)


28.5.09

— E o casamento?
— Ele é ateu, mãe.
— Ah, sim... Gente que estuda muito é assim mesmo. Problema, não vejo. Amigado com fé casado é!

A avó foi prudentemente poupada das convicções do noivo. A tia torceu o nariz. Noelma, a empregada do pai, perguntou onde ia ser a cerimônia.

— Não vai ter cerimônia, Nonô. Ele é ateu.
Nonô, muito prática, respondeu:
— Ué! Casa na igreja dele!

19.5.09

a cultura e a morte (fim)

Na verdade não é o fim, mas o começo, ou ainda o início do começo. O ensaio terá provavelmente esse mesmo nome, a cultura e a morte, mas está sendo escrito offline e bem devagar.

O texto que se segue é o prefácio - a princípio já sob sua forma definitiva. Ele entra de sola e promete muito; nada, no entanto, que eu não possa cumprir. Foram as minhas pesquisas sobre o risco que (não me perguntem como) me levaram ao tema da cultura, e desse modo é possível dizer que a coisa toda já está fermentando há redondos dez anos. Por falar nisso, que instituição é essa na qual é impossível ficar dez anos remoendo um tema? Além de pensar, ainda temos que pensar rápido? Esse tipo de produtividade me parece uma coisa boa para automóveis, celulares e todas essas coisinhas produzidas nas linhas de montagem. É bastante provável que hoje eu tivesse vergonha de voltar à Academia.

Lembrem-se, este é apenas o prefácio. Entrar de sola parece-me uma boa estratégia, algo como pegar o leitor pelo gasganete, mas é evidente que depois o tom será outro. O pensamento é feito de desacelerações e acelerações, suspensões e precipitações. E agora chega, senão eu vou acabar escrevendo o prefácio do prefácio.


A cultura e a morte (prefácio)

Não é preciso ser genial para perceber que, apesar de todas as conquistas realizadas pelo homem, algo de essencial perdeu-se pelo caminho. Reunimos todas as condições necessárias para fazer da vida algo de intenso, e mesmo sublime, porém tudo o que conseguimos foi fazer dela algo pequeno, miserável e sem sentido. Ao invés de nos esforçarmos para resolver nossos verdadeiros problemas, não cessamos de sufocar a nós mesmos e aos demais com falsos problemas de toda ordem. Ao invés de viver e deixar viver, ou melhor ainda, ao invés de viver e de intensificar a vida ao nosso redor, dedicamo-nos com todas as nossas forças a limitar as nossas próprias possibilidades e as de outrem. Poderíamos viver como deuses, porém somos os mais sofredores dos animais.

O que fizemos (e o que deixamos de fazer) para chegar a esse ponto? Os diagnósticos se multiplicam, e com eles os profetas de uma nova ordem política, moral ou religiosa; porém toda novidade, aqui, já nasceu velha demais, e parece não haver alternativa entre mergulhar no cinismo ou nos apegar a esses restos de passado como náufragos abraçados a velhas tábuas. Estamos tão desorientados que nem mesmo sabemos por onde começar. E não se trata de falta de informação ou de conhecimento; pois ainda que nossa ignorância seja imensa, nunca a informação e o próprio conhecimento foram tão fartos e minuciosos como em nossa época. Mesmo assim, temos uma enorme dificuldade para enxergar o óbvio. Tal como o ar que respiramos, o óbvio nos cerca por todos os lados e nos permite viver, porém não nos damos conta de sua existência a não ser quando ele nos falta. A diferença é que sabemos imediatamente quando o ar nos falta, ao passo que não temos a menor pista acerca do que nos falta e cuja ausência sufoca nossa vida nas sociedades modernas.

Assim, este ensaio é dedicado ao óbvio, ou pelo menos ao óbvio que diz respeito ao fenômeno humano e à vida em sociedade. Sua ambição não é pequena; ele se quer capaz, à força de mostrar o óbvio, de suscitar novas possibilidades de vida. No entanto, não há nele nenhuma panacéia: nenhuma fórmula mágica, nenhuma palavra de ordem (ou de consolo), nenhuma sabedoria transcendental, nenhuma utopia, nenhuma doutrina moral ou religiosa, nenhuma nova e revolucionária proposta de organização social. E é bom que seja assim, pois já tivemos todas essas coisas em número suficiente, porém nenhuma delas - para dizer o mínimo - jamais nos impediu de mutilar e amesquinhar a vida. Mas saber de antemão que este ensaio não se prestará a ser brandido nas esquinas por pregadores de qualquer espécie é, com efeito, minha única satisfação ao escrevê-lo; de resto, o que eu sinto é vergonha. Dizer o óbvio é sempre, em alguma medida, vergonhoso. E se me for permitido sonhar algum futuro para este livro, meu desejo é que ele produza seus efeitos e desapareça; e que os homens do futuro, caso venham a tomar conhecimento dele, se perguntem como pudemos chegar a esse ponto, ao ponto de esquecer o óbvio e de forçar alguém a dizê-lo com todas as letras.

4.5.09

intop

2.4.09

se

Se eu me achasse, não seria

se eu fosse - não retornaria.

1.4.09

who cares

Eu aprendi português (se é que posso dizer tal coisa) quando criança, ou seja, quando as regras me eram solenemente impostas. E a nova reforma ortográfica aconteceu num momento da minha vida em que tenho dificuldades para aceitar novas regras (já que eu mesmo, sempre que é possível, produzo as minhas).

Assim, a partir desta data, e em protesto contra as novas regras, passarei a escrever exclusivamente em inglês. Who cares anyway.

4.3.09

justice







(publicado originalmente em triagem)

22.2.09

divagações carnavalescas

É penoso conviver com um chefe que não faz o que você manda.


3.12.08

(click to enlarge / clique para ampliar)

Eu adorava andar de bicicleta, mesmo que apenas por alguns metros, nessa borda de pedra. Mas o homem não suporta conviver com o risco. Ele vai cercando tudo que encontra, e depois pergunta-se porque adoeceu. Flagrante da construção da cerca metálica na orla da Praia das Flexas, Niterói. Custo da obra: dois milhões.

21.11.08

pátria
patrão
patrimônio
patranha

antipasseatas

Pois é, o termo não existia, ao menos no sentido que quero dar-lhe; tive que inventá-lo. E já que o brasileiro médio leva tudo na galhofa, talvez não fosse má idéia passar da invenção da palavra à invenção da coisa.

Por exemplo, não temos disposição para ir às ruas exigir um projeto de educação pública de qualidade (começando pelos locais onde a população negra e parda é, estatisticamente, majoritária: isso é que seria uma "ação afirmativa" inteligente.) Seria "chato". Seria "sério" demais - e nem mesmo seria heróico como em tempos idos. Qualquer desculpa, até o sol ou a chuva, seria suficiente para escafedermo-nos.

Diante desse quadro, por que não organizar antipasseatas? Ainda tomando a educação como exemplo, poderíamos ir às ruas para clamar pelo fim das escolas públicas e pela transformação dos prédios em bordéis - onde as prostitutas se vestiriam de colegiais, é claro. Ao menos seria divertido: todo mundo antiprotestando e anti-reivindicando numa enorme e carnavalesca antipasseata cujas palavras de ordem poderiam ser: "fechem os livros e abram as pernas!", ou então: "menos professoras e mais putas!", ou ainda: "educação de cu é rola!".

Quero crer que nossos governantes perceberiam a ironia mordaz dessas manifestações. E se não percebessem, bem, nunca é tarde para voltar a estudar.

11.11.08


Não é preciso ir à China para ver a língua portuguesa ser maltratada. Por vezes, até quem deveria zelar por ela o faz: como esses que resolveram subtrair da palavra "idéia" o acento que já se pendurava ali antes do primeiro vagido de Platão. E é bastante comum vermos em cartazes de rua as mais bizarras sevícias à língua de Camões; a coisa já rendeu (e continua rendendo) muitos momentos de humor e eu até a acho divertida.

Mas eu não me sentiria à vontade publicando aqui a imagem de um desses erros colhidos em humildes barraquinhas de cachorro-quente. Afinal, se as pessoas que ali vendem seu pão de cada dia não manejam bem a nossa língua e não demonstram a menor preocupação com tais floreios, quem entre nós seria capaz de culpá-los? O que nós lhes demos para nos arrogar o direito de fazer semelhantes exigências? Essa espécie de zombaria me soa vã, preconceituosa e elitista. É o tipo de comportamento que se pode esperar de um entrevistador de TV, mas não de um pensador.

Mas e quando o erro estala no seio da burguesia - dessa mesma burguesia que, apesar de ter estudado em boas escolas, jamais se preocupou com a qualidade da educação oferecida ao pessoal do cachorro-quente? Que argumento eles poderiam invocar para obter nossa complacência? Nenhum. Tudo o que lhes resta é tentar pagar na mesma moeda e procurar erros em nossos escritos. Provavelmente encontrarão; mas terão que procurar bastante, e além disso sempre teremos na ponta da língua a resposta que eles merecem: nós escrevemos milhares de palavras, ao passo que eles conseguem errar feio redigindo uma simples lista.

A foto acima estava na minha cabeça há pelo menos dois anos, mas só agora pude realizá-la. Ela foi tirada no térreo do Plaza Shopping, em Niterói.

E já que o assunto é esse, não custa deixar aqui uma última tirada: se você não percebe que a nossa língua é mais maltratada do que uma personagem de Sade (só que publicamente, o que é ainda mais perverso), é porque você mesmo a maltrata!

16.10.08

teclado

5.9.08

coração

3.9.08

a cultura e a morte - nova série (10)

1. O grau máximo da diferença

Entre todas as perguntas terríveis que se pode formular para si mesmo, há uma que se apresenta, possivelmente, como a mais terrível de todas: aquilo que eu faço é aquilo que apenas eu poderia fazer? Se eu faço algo que muitos, senão todos, poderiam fazer, não passo de uma peça facilmente intercambiável nas engrenagens da máquina social, e vejo-me condenado a uma existência de animal de rebanho. Se, por outro lado, eu faço algo que poucos poderiam fazer, ou se faço algo "melhor do que a média", pouca coisa muda; não deixo de ser, por isso, um animal de rebanho; continuo sendo intercambiável, ainda que com um pouco mais de dificuldade, e minha única distinção é a de ter me tornado, por assim dizer, uma cabeça premiada, gado de valor. Se um único homem puder fazer em meu lugar aquilo que eu faço, é porque eu ainda não descobri aquilo que apenas eu posso fazer. Evidentemente, a resposta a essa pergunta fatal - o que somente eu poderia fazer? - não pode ser abstrata ou genérica, e se confunde concretamente com a invenção de realidade da qual sou capaz aqui e agora; realidade essa na qual eu terei que envolver ou implicar a mim mesmo num grau extremo. Em outros termos, essa pergunta me confronta diretamente com os problemas da criação e da diferença: qual é o grau máximo de diferença de que sou capaz?

2. A cultura e a diferença

A cultura, ação do homem sobre o homem para produzir o homem (e, quem sabe, o além-do-homem), só visa produzir animais de rebanho quando é apropriada ou conduzida por forças reativas que a mutilam e desfiguram. Tomado a partir de uma perspectiva ativa, o movimento da cultura se confunde com um devir-revolucionário cuja tarefa é a de criar criadores. Nesse sentido, a pergunta "o que somente eu poderia fazer?" não é um mandamento, uma lei, um preceito moral, mas tão somente um estimulante da própria cultura, tal como o chá e o café são estimulantes do corpo. Aqui a "pergunta fatal" deixa de apresentar-se sob seu aspecto mais "terrível" - quase uma maldição que evidencia a que ponto somos substituíveis - e passa a mostrar-se sob uma forma mais benigna: como um desafio, ao menos para aqueles que souberem lhe dar ouvidos.

Por fim, note-se de passagem que, desde o início, eu coloquei o problema em termos de ação: o que está em questão é aquilo que eu faço, aquilo que eu crio, aquilo que eu produzo. Juntamente com as mercadorias e serviços que anuncia, a publicidade vende a idéia de que um homem pode distinguir-se por aquilo que consome. Basta examinar essa idéia por um momento para compreender que é impossível abordar o tema da cultura sem ao mesmo tempo abordar o tema da morte da cultura.

31.8.08

Eu enchi sua taça
e ela, a minha.

E o que os olhos vêem
é o que os olhos podem ver:
duas taças cheias
e nada mais.

8.8.08

Tomar estes tantos oitos
deitá-los, mimá-los, beijar-lhes as pálpebras
torná-los infinitos.

31.7.08

Gabriel Tarde

13.7.08

quem sou eu?

Quem faz a pergunta "quem sou eu?" em busca de um significado qualquer já está derrotado de antemão. Não existe resposta a essa pergunta senão no terreno da ficção, do embuste, da má-fé. Partimos como orgulhosos guerreiros em busca do autoconhecimento e terminamos como Narciso, contemplando uma imagem, uma simples imagem, e não é por acaso que terminamos nos afogando nela. A quem nos pergunta "quem é você?" devemos responder: "eu sou minhas forças, minhas idéias, meus afetos, e sobretudo os investimentos concretos de tudo isso num campo social não menos concreto (desejo). Tudo isso muda e se reconfigura o tempo inteiro e portanto não pode ser encerrado numa imagem ou numa definição." É claro que, se não tivermos paciência suficiente, poderemos responder: "eu sou um cheiro de cravo nos cabelos da noite", ou então "eu sou a trigésima quinta nervura na asa esquerda daquela mosca que acaba de morrer".

Nós sempre teremos os problemas que merecemos de acordo com os nossos investimentos de desejo num campo social (por meio dos quais produzimos a nós mesmos e aos demais). É por isso que eu creio que o conceito de autopoiese é bem mais decisivo do que o de autoconhecimento. No limite, não há nada a conhecer, tudo está por ser produzido.

Para acabar com o narcisismo de Barton

O filme mais genial dos irmãos Cohen, Barton Fink, é de uma sutileza assustadora. Barton é o escritor que deseja dar voz ao "homem comum". Suas falas sobre a escrita e a criação, ao longo de todo o filme, são admiráveis; porém, ao mesmo tempo, vamos nos dando conta de que o seu "homem comum" não passa uma abstração inventada para seu próprio gozo intelectual. E é dolorosamente cômico perceber que Barton discursa exaltadamente a respeito do "homem comum" para seu vizinho de quarto (que ele supõe ser um homem comum) sem lhe dar ouvidos por um momento sequer. Com alguma sorte concluiremos, ao terminar o filme, que o "homem comum" simplesmente não existe, que ele não passa de uma abstração ou de um ser de razão: tal como as idéias de equilíbrio, igualdade e tantas outras. E esta parece, de fato, ser a nossa sorte: passar de uma abstração a outra, de uma generalidade a outra, sem jamais tocar nos verdadeiros problemas. Chegar a tocar uma idéia (ou problema) é como misturar nosso corpo a outro num delírio de desejo. Mas nós não pensamos, apenas nos masturbamos com nossas pobres abstrações.


Adendo

Eu diria que Barton Fink é um dos filmes mais importantes já realizados. Não conheço outro que trabalhe essa temática e sobretudo com tanta propriedade. Barton não é um mau sujeito. Ele está cheio de boas intenções e realmente acredita no que faz. Mas ele está ligado apenas em suas próprias abstrações, e ao mesmo tempo desligado da vida. É o mal típico do intelectual, seja qual for sua formação (sim, filósofos também). Na verdade, todos nós somos, em alguma medida, intelectuais. Todos nós. É por isso que não podemos nos contentar com pouco e ficar no meio do caminho. Pensar pode ser algo vital, inteiramente conectado à vida e à vida das pessoas. Você já leu "O teatro e a cultura", introdução ao livro "O teatro e seu duplo", de Artaud? Aquilo não vale apenas para o teatro, mas para o pensamento em geral. Inclusive para a filosofia.

10.7.08

a pureza e a inocência

por Michel Tournier

A pureza de um corpo químico é um estado absolutamente contranatura que só pode ser obtido por procedimentos que implicam violência. O caso mais simples é o da água. O que é a água pura? Ela pode ser uma água desembaraçada, por ebulição ou filtragem, das bactérias e vírus que ela continha. Trata-se de uma pureza biológica. Mas se aquilo que se busca é a pureza química, serão realizadas distilações sucessivas - a água corre num alambique prolongado por uma serpentina resfriada - para eliminar os sais e os traços de metais. Mede-se a pureza da água tratada desse modo pela sua resistência a deixar passar uma corrente elétrica, pois a água só é condutora graças aos sais minerais que contém.

Essa água "pura" age sobre os organismos vivos como um veneno violento. Quando ela é ingerida por um organismo, os humores e todos os sais minerais veiculados pelo sangue irão precipitar-se para ela, posto que ela lhes dá a oportunidade de se diluírem mais. Esse fenômeno é utilizado para livrar os diabéticos das uréias, ácidos úricos e outras toxinas que se concentram no seu sangue, uma vez que seus rins já não as filtram. Mas essa diálise, necessária nesses casos patológicos, torna-se catastrófica nos indivíduos cujas taxas plasmáticas de sais são normais. Assistir-se-á a uma fuga do cálcio e do potássio sangüíneos que pode acarretar a morte. Com efeito, o coração só bate graças a uma corrente elétrica sustentada por um equilíbrio cálcio-potássio no sangue. A absorção de água "pura" pode provocar também hemorragias estomacais, intestinais ou cutâneas.

Esses males físicos da pureza ainda não são nada se comparados aos crimes inumeráveis que sua idéia obsessiva provocou na história. O homem cavalgado pelo demônio da pureza semeia a morte e a ruína em torno de si. Purificação religiosa, depuração política, salvaguarda da pureza da raça, busca anticarnal de um estado angélico, todas essas aberrações desembocam em massacres e infelicidades inumeráveis. É preciso lembrar que o fogo - "pur" em grego - é o símbolo das fogueiras, da guerra e do inferno. (*)

Por oposição à pureza, a inocência parece ser sua inversão benéfica. Inocente é o animal, a criancinha e o débil mental. Sobre eles, o mal não tem poder. O homem adulto e razoável pode fixar-se como um ideal um estado que é o de sua primeira infância prolongada e preservada. A inocência é amor espontâneo do ser, sim à vida, aceitação sorridente dos alimentos celestes e terrestres, ignorância da alternativa infernal pureza-impureza. Certos santos, como São Francisco de Assis, parecem viver nesse estado em que a simplicidade animal se conjuga com a transparência divina.

Porém trata-se de um improvável milagre. No romance de Dostoiévski, O Idiota (1868-1869), o príncipe Míchkin, devorado por uma piedade devastadora, revela-se incapaz de amar uma mulher, de resistir às agressões do mundo exterior e finalmente de viver. Ele é fulminado pela epilepsia.

(*) Em francês, "pur" quer dizer puro. Curiosamente, as duas palavras são pronunciadas da mesma forma: "pír". (N.T.)

Michel Tournier, "La pureté et l'innocence", IN Le miroir des idées, Paris, Mercure de France, 1994, pp. 171-174. Tradução minha.


triagem, 06/02/2006

30.6.08

prece hodierna

Ah, homem!

Leva daqui tua lição decorada.
Leva daqui teu misticismo de cabeceira.
Leva daqui tua presunção de funcionário.
Leva daqui teu aparato de registro.
Leva daqui tuas ricas rimas.
Leva daqui teus óculos embaçados.

Leva-te daqui, homem,
e não me traga outro em teu lugar.

28.6.08

a guerra dos nomes

Certa vez os substantivos formaram um exército para dominar o mundo. Se o mundo era um deles, pensaram, nada mais justo que pertencesse a eles. Depois seria a vez do universo.

Os adjetivos foram chamados para engrossar a tropa. No dia combinado, montaram nas costas dos substantivos e partiram para a guerra. O verbo ser, confuso pelas querelas seculares, juntou-se a eles. O pronome eu, cheio de si, também.

Mas os verbos sem espessura cortavam como lâminas e venceram facilmente a batalha.

25.6.08

No princípio era o verbo.
No meio são os verbos.
No fim, verbo será.

13.6.08

made in japan

meu nome é


...mas você pode me chamar de

2.6.08

ditos populares (série B358XL-1)

Belesa não põe meza.

23.5.08

philip glaass

outras sementes

O dia de hoje marca uma pequena revolução na maneira pela qual a justiça brasileira encara o problema das drogas. Trata-se de uma decisão de três magistrados da 6ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

No início do mês eu escrevi uma nota sobre a proibição das passeatas a favor da legalização da maconha. Não demorou para que o orkut suprimisse o atalho (para este blogue) que eu mantinha no meu perfil. Posteriormente, no entanto, a OAB se manifestou publicamente de uma maneira condizente com os argumentos que exponho nessa nota.

Foi um alento. É muito bom saber, depois da minha recente decepção com os juízes que proibiram as passeatas, que existem juízes que pensam. Nem vou entrar em detalhes sobre a decisão do dia de hoje. Leia diretamente a matéria publicada n'O Estado de São Paulo.

20.5.08

seis bagatelas

Para Joice

Embora a brevidade dessas peças seja um argumento persuasivo a seu favor, ela mesma requer, por outro lado, uma justificativa.

Considere quanta moderação é requerida para expressar-se tão brevemente. Você pode dilatar cada olhadela num poema, cada olhar num romance. Mas expressar um romance num único gesto, um júbilo num suspiro - tal concentração apenas pode estar presente em proporção direta à ausência de autopiedade.

Estas peças só serão entendidas por aqueles que compartilham uma fé, a de que a música pode dizer coisas que só podem ser expressas pela música.

Estas peças são capazes de encarar as críticas com tão pouco quanto esta - ou qualquer - crença.

Se a fé remove montanhas, a descrença pode negar sua existência. E a fé é impotente contra tal impotência.

Sabe o músico tocar estas peças, sabe o ouvinte recebê-las? Podem músicos e ouvintes cheios de fé deixar de render-se uns ao outros?

Porém o que devemos fazer com os pagãos? Fogo e espada podem diminuir seu número; apenas crentes precisam ser senhores de si.

Possa este silêncio soar para eles.

Arnold Schoenberg: Prefácio às Seis Bagatelas para quarteto de cordas, op. 9, de Anton Webern, IN Neue Wiener Schule - Lassale Quartet (traduzido do alemão para o inglês por Eugene Hartzell), Deutsche Grammophon, 1971 (1987), p. 306-307. Tradução minha.

17.5.08

arqueologia do futuro

série objetos

2008 D.C.
Brasil - chaves de repartição pública



(clique na imagem para ampliá-la)
(click to enlarge)

15.5.08

Firefox dentro do Firefox dentro do...


Quer reproduzir o truque? Coloque este código na barra de endereços:

chrome://browser/content/browser.xul

Absolutamente inútil, mas divertido. =/


crédito: SunBeam’s Cave

4.5.08

a semente da serpente

A melhor sociedade será portanto aquela que isenta a potência de pensar do dever de obedecer, e guarda-se em seu próprio interesse de submetê-la à regra do Estado, que só vale para as ações. Enquanto o pensamento é livre, portanto vital, nada é comprometido; quando ele deixa de sê-lo, todas as outras opressões são possíveis, e já realizadas, toda ação torna-se culpável, toda vida ameaçada.

Gilles Deleuze

Eu quero crer que a palavra de ordem das passeatas a favor da legalização da maconha, marcadas para hoje em todo o país, não é "fumem maconha" ou "maconha é um barato".

Pelo que pude entender, as passeatas pretendem questionar a proibição do uso e do comércio de maconha no Brasil. Não é a maconha que está em questão, mas a lei que a proíbe.

Assim, os magistrados que invocam a lei que proíbe a apologia às drogas para proibir passeatas que pretendem colocar em discussão a lei que criminaliza a maconha cometem um erro de princípio tão pueril que eu me pergunto como é que puderam chegar a uma posição de tão alta responsabilidade. Sinto arrepios ao pensar que minhas ações podem vir a ser julgadas por gente que manifesta uma falta de discernimento tão flagrante.

O próximo passo, pelo que vejo, será proibir qualquer manifestação a favor da legalização do aborto por alegada apologia ao assassinato. Ou proibir qualquer manifestação a favor de um pedido de impeachment por alegado desacato à autoridade.

29.4.08

Umas amam as picas retas,
outras amam os picaretas.
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