18.9.17

um ato falho

Num artigo d'O Globo sobre a formação de preço do (caro) iPhone X, o economista Samy Dana menciona fatores que poderíamos dividir em "objetivos" e "subjetivos". Grosso modo, os fatores objetivos seriam a soma daquilo que o autor chama de "custo de produção" (matérias primas, energia, instalações, mão de obra) e do investimento em pesquisa e desenvolvimento; e os fatores subjetivos poderiam ser resumidos na "percepção de valor", ou seja, no quanto as pessoas estariam dispostas a pagar por aquele produto.
"Além do custo de produção, na hora de estabelecer os preços as empresas devem considerar o valor da propriedade intelectual, os gastos em pesquisa e desenvolvimento e a percepção de valor — ou seja, quanto as pessoas estão dispostas a pagar. No caso dos aparelhos da Apple, este último item ocupa um grande espaço na equação e é o que faz do iPhone um caso interessante de preço."
Curiosamente, ao analisar a formação de preço de um quadro, Dana parece não levar em conta um fator que, para a indústria, é tão importante: pesquisa e desenvolvimento.
"Se pensarmos pelo custo de produção, um quadro nada mais é do que tela e tinta. Porém, não é esse o fator determinante no preço de uma obra. Contam mais outros fatores, como o preço de outras telas do mesmo artista e de seus contemporâneos, assim como sua reputação e a raridade das obras. No fim das contas, quem mandará na equação é a percepção de valor do comprador — ou seja, o quanto ele está disposto a pagar."

É como se o investimento em "pesquisa e desenvolvimento", referido explicitamente no caso do iPhone, simplesmente não existisse no caso das artes plásticas. Como se não fossem necessários vários anos de esforço, seja para o aprendizado da pintura, seja para a formação de um círculo de amizades que faculte ao artista o acesso ao circuito do Mercado de Arte. Pode acontecer que o artista consiga fazer ambas as coisas? Sim, mas é bastante raro, pois trilhar qualquer dos dois caminhos exige um grande investimento de tempo e dedicação. Não se aprende a fazer arte num dia, e não basta um dia para a formação de uma rede de amigos.

Assim, Dana foi duplamente injusto: com os artistas que se esforçam para fazer arte, e com os artistas que fazem prosperar o milionário Mercado de Arte. Evidentemente, ele não merece ser crucificado por tão pouco: quase um ato falho. Mas, num país como o nosso, onde o homem médio ainda pensa que arte é coisa de vagabundo, trata-se de um ato falho pra lá de significativo.

14.9.17

a coisa mais bem distribuída do mundo

Sou filho dos anos sessenta, durante os quais vivi minha infância, e (talvez erroneamente) atribuo a essa circunstância minha repulsa em relação a qualquer tipo de autoritarismo. É por isso que o único Deus em que eu poderia acreditar é o spinozista, um Deus que produz (dança?) mas não "governa".

No entanto, mesmo quem detesta o autoritarismo é forçado a consentir com o exercício (em diversos níveis) da autoridade; e até os punks deveriam admitir que adoram a polícia quando esta intervém para impedir que sejam assassinados pelos membros de outras tribos (nada) urbanas. Como diria Spinoza, quem é incapaz de compreender precisa obedecer. Sem o uso da autoridade (da coerção), nenhum crime seria punido e pouquíssimas crianças fariam o dever de casa (se é que chegariam a freqüentar uma escola).

Todo o problema, portanto, reside em usar com sabedoria aquela imprescindível dose de autoridade sem a qual seria impossível administrar um campo social.

E é nesse ponto que nós, brasileiros, falhamos sistematicamente. Somos talvez o único povo do mundo (sim, esta frase é um puro golpe de retórica, mas periga conter alguma verdade) capaz de combinar, a um só tempo, o autoritarismo mais jeca e a mais lassa falta de autoridade.

Deixarei que o leitor decida por si mesmo os casos particulares de "autoritarismo jeca" e de "falta de autoridade" que seriam capazes de ilustrar a frase acima.


* * *

Acabou. Esta postagem acabou. As coisas que poderão ser lidas a seguir são apenas anotações à margem, feitas a lápis, em torno do que acabou de ser dito. 


* * *

Vivemos numa democracia e uma simples classificação indicativa seria suficiente para calar qualquer polêmica relativa à exposição "Queermuseu". Essa será, por sinal, a linha de defesa da HBO no episódio da exibição diurna de "A festa da salsicha": a de que a classificação etária foi devidamente estabelecida. Os direitos dos artistas terminam onde começam os direitos dos pais e vice-versa. Nem os artistas têm o direito de propor "qualquer obra" para "qualquer faixa etária", nem os pais têm o direito de impor censura à obra de qualquer artista – desde que este não faça uma apologia ao nazismo, não é mesmo? Isso não é difícil de entender. Infelizmente, o autoritarismo, nestas bandas, é a coisa mais bem distribuída do mundo.

* * *

E por falar em nazismo... Chega a ser cômico: todo mundo resolveu mencionar a exposição de "arte degenerada", realizada sob o regime comandado por Hitler, mas ninguém, ninguém mesmo, parece lembrar-se (ou tem coragem de lembrar-se) das perseguições realizadas pelo realismo socialista. Um bom antídoto ao esquecimento é o sóbrio e comovente Afterimage, testamento cinematográfico do diretor polonês Andrzej Wajda.

* * * 


Se a rede de TV mais poderosa do país pode homenagear traficantes em horário nobre, por que estudantes do Pedro II são passíveis de punição por se referirem ao tema na escola?

* * *

Eu bem que gostaria de saber se aqueles que são tão ferrenhamente contra a proibição da publicidade de cerveja não seriam, por acaso, os mesmos que são a favor da proibição da maconha. Pois a cultura dos estados alterados de consciência é uma só, meus amores.

* * *

Diante da intensificação dos violentos ataques e ameaças às religiões afro-brasileiras, todos deveriam estar urrando de indignação. Como explicar, em meio a uma tagarelice incessante, esse silêncio criminoso? Como? Será que o silêncio se explica... pela própria tagarelice? No me lo puedo creer.

5.9.17

febeapá 2: the libertarians (again!)

Um dos argumentos mais usados na guerra de desinformação a respeito de drogas ilegais cita a maconha como "porta de entrada" para o mundo das drogas. Quem diz isso jamais se deu ao trabalho de consultar as pesquisas oficiais a respeito do consumo de drogas entre os jovens estudantes brasileiros. A "porta de entrada" para os estados alterados de consciência é, na verdade, o álcool.

Uma dessas pessoas desinformadas é Luiz Felipe Pondé. Contrário à proibição da propaganda de álcool nos meios de comunicação e fiel ao princípio que norteia o pensamento das pessoas que não pensam (aplicar universalmente uma regra sem pesar, um a um, os casos particulares), o filósofo da Folha de São Paulo não demonstra a menor vergonha de, em público, desfiar um parágrafo inteiro de falácias.
"Daqui a pouco se proibirá a publicidade de carros (causam acidentes), aviões (caem), batom (dá vontade de beijar a boca das mulheres e isso pode ser anti-higiênico), churrascaria (colesterol), café (causa ansiedade), xampus (os cabelos reais nunca são tão lindos quantos os das propagandas), bolas de futebol (os meninos podem cair e quebrar a perna), livros (existem livros que propõem coisas absurdas), telefonia celular (já se fala em pessoas viciadas em celulares), televisão (crianças podem ver coisas erradas na televisão), computadores (a internet é incontrolável), turismo (pessoas podem pegar infecção intestinal viajando), água (pode estar contaminada), metrô (pode descarrilar), ônibus (capotam)... A lista é cansativa, como tudo que brota da alma dos idiotas do bem quando resolvem salvar o mundo de nós mesmos."
A lista não é somente cansativa: é falaciosa. E a falácia consiste em pintar quem pensa diferente do colunista como um retardado que, apenas porque defende a proibição da propaganda de álcool, seria capaz de defender a proibição da propaganda de absolutamente tudo que existe.

Ninguém poderá dizer que eu não compreendo o ponto de vista "libertário" de Pondé. Eu o compreendo tão bem que escrevi, aqui mesmo, e há não muito tempo, o texto "O formol nosso de cada dia". Mas uma das coisas que me diferenciam do colunista é que eu faço um esforço para pensar cada problema por si mesmo, e faço esse esforço correndo (alegremente) o risco de não ter um "princípio" geral que dirija meu pensamento.

Eu estava programando mais duas postagens para a série "febeapá", uma dirigida contra os conservadores, outra dirigida contra a esquerda. Mas os menores abismos são os mais difíceis de transpor, e eis que estou escrevendo (novamente) para criticar um "libertário".

Vocês acham que nossos estudantes de 11, 12, 13 anos bebem uísque? É claro que não. Eles bebem é cerveja. Por meio da cerveja, eles entendem plenamente o que é um estado alterado da consciência. As outras drogas entrarão na vida deles por mero raciocínio analógico: de um barato a outro. E não é preciso ser o rei do pensamento estratégico para perceber que, no atual contexto educacional brasileiro, esse consumo precoce é bastante problemático.

É claro que quem trabalha num meio de comunicação qualquer jamais sonhará em contrariar seu patrão, que por sua vez jamais aceitaria abrir mão da receita que a glamorosa propaganda de cerveja proporciona. Tudo isso é compreensível. O que me espanta é a impotência e o servilismo daqueles que, se quisessem, poderiam estar pensando (e não aplicando princípios às cegas). Mas é claro que, aqui, eu talvez esteja sendo otimista demais.



30.8.17

O desertor (uma breve análise de texto)

Ninguém chama um canadense que vai morar na Espanha, ou um uruguaio que vai morar na França, de "desertor". Mesmo que nunca mais retornem a seus países de origem, eles serão chamados de "imigrantes".

"Desertor" é um termo pejorativo: diz-se desertor, segundo o Houaiss, do militar que é culpado de deserção, e também do indivíduo que "abandona suas convicções, seu compromisso ou a causa de que era defensor". Sinônimo: trânsfuga.

Mas se é assim, por que a Folha de São Paulo insiste em chamar alguém que não é militar, mas professor universitário, de "desertor"?




Nesse caso, se achássemos que o termo "imigrante" não descreve com exatidão o status do professor Kim no país que o acolheu, teríamos à disposição termos como "fugitivo", "dissidente" ou mesmo "refugiado". Aliás, os termos "fuga" e "fugitivo" foram utilizados na reportagem (uma vez cada), bem como o termo "dissidentes" (também uma única vez).

Mas o repórter deu preferência e destaque aos termos "desertor" e "desertores", que, ao todo, são mencionados cinco vezes (no título e no corpo da matéria). E, ao usar esses termos sem nenhuma parcimônia (a reportagem tem menos de duas páginas de texto), ele demonstra claramente seu alinhamento com o regime norte-coreano, aquele mesmo que se compraz em ameaçar o mundo com uma terceira guerra mundial e (segundo a denúncia do professor Kim) lucra anualmente 3 bilhões de dólares praticando extorsão digital.

Ao que tudo indica, nossos amigos sul-coreanos são um tanto ingênuos: o repórter, que logo no início da matéria dá pistas sobre a dissimulada localização do escritório da ONG fundada pelo professor Kim (que até hoje "diz receber" amáveis presentes de seu país de origem, como facas e machados), viajou a convite do Ministério da Cultura, Esporte e Turismo da Coréia... do Sul.

24.8.17

Do consumo como instrumento de reivindicação política

Há quem pense que apenas uma revolução "francesa", ou seja, sangrenta, seria capaz de sacudir o status quo da política politicalha brasileira.

Grande bobagem.

Certa vez pensei numa solução que, na época, era irrealizável, mas que hoje, na era das redes sociais, me parece um pouco mais plausível.

O que faz o Estado quando quer educar o cidadão? Mexe no seu bolso, aplicando multas.

E o que pode fazer o cidadão para educar o Estado? Mexer no seu bolso, ou melhor, no bolso daqueles grupos que sustentam a economia e, portanto, o Estado e os políticos.

Como? Com depredações? É claro que não. Basta combinar nas redes sociais: enquanto o corrupto "X" ou "Y" estiver no exercício de seu cargo, ninguém, no país inteiro, comprará um único carro. Ou um único refrigerante. Ou ambos. Poderia ser feita uma lista de vários produtos, mais ou menos supérfluos, dos quais (ou de cuja troca) não seria tão difícil assim abrir mão por uma, duas, três semanas.

Essa queda de braço seria invariavelmente ganha pelos cidadãos-consumidores. A pressão dos empresários sobre os políticos seria enorme, e estes se veriam forçados a encontrar rapidamente um meio legal de defenestrar os alvos da "operação".

Obviamente, a eficácia desse tipo de ação dependeria, em proporção direta, da intensidade da indignação popular em face de "X" ou "Y". Mas, naqueles raros casos em que houvesse algo próximo a uma unanimidade, veríamos quem é o rabo e quem é o cachorro.


18.8.17

Nietzsche, Marx e Freud

Tendo Spinoza como precursor, Nietzsche, Marx e Freud questionaram a soberania da consciência. Se quisermos considerar o plano da vida (e não apenas o plano do homem), podemos acrescentar Darwin a essa lista.

Entre eles, o "caso" mais complexo é o de Nietzsche. Feita a ressalva, ponhamos esse pormenor "entre parênteses" e tomemos apenas o que esses pensadores têm em comum: a descoberta de uma dimensão inconsciente. Essa descoberta prolongou-se no estruturalismo, que renovou a lingüística, a antropologia e a psicanálise.

Farei aqui umas poucas perguntas, a título de provocação. Se o neurótico é um joguete de seu inconsciente, "quem" decide ir ao psicanalista ou, ao contrário, decide continuar repetindo seu sintoma?

Se o explorado é um joguete de um determinado modo de produção e de uma determinada estrutura de classes, "quem" decide entrar para o partidão, ou, ao contrário, assumir a defesa da ordem existente?

Se o homem é um produto da aliança das forças reativas com a vontade de nada, "quem" logra produzir a transmutação (aliança das forças ativas e da vontade afirmativa) para superar o homem?

Se, como querem Deleuze e Guattari, o inconsciente é produtivo (e não, como em Freud, uma peça de teatro), "quem" dirige a produção?

O que está em questão aqui é o velho e sempre renovado (mas também sempre questionado) conceito de liberdade. Nada aqui é simples ou fácil, pois é preciso dar um passo à frente (e não um passo atrás, reabilitando a velha consciência soberana). Mas algo me diz que, sem reintroduzir (ainda uma vez) os conceitos de liberdade e de responsabilidade no jogo filosófico, não teremos sequer uma chance de evitar o desastre.

* * *

Dizer que "a sociedade cria monstros" é negar a liberdade dos indivíduos que compõem a sociedade em questão, é subtrair deles qualquer responsabilidade que poderiam ter na produção de si mesmos, é retirar-lhes todos os resquícios de dignidade.

Se esse raciocínio é, por princípio, ruim, suas conseqüências são ainda piores. Afinal, se é "a sociedade" que "cria monstros", então bastará mudar a sociedade para, automaticamente, produzir um novo homem. Não seria essa a essência do totalitarismo? 

Nunca faltarão ideólogos, sejam eles de esquerda, de direita ou do que quiserem, para dizer que as boas regras de seus livrinhos criarão uma nova sociedade, que por sua vez criará um homem novo. Não podemos impedir o surgimento desse tipo de coisa. Mas está em nosso poder deixarmos de ser  retardados que preferem atribuir a outrem a responsabilidade pelo seu próprio retardamento.


4.8.17

Crise política 4: considerações finais?

Numa postagem anterior eu listei algumas sugestões para uma reforma política: parlamentarismo, voto distrital, fim do voto obrigatório, candidaturas independentes, austeridade das campanhas (debate de idéias em vez de espetáculo), criação de fóruns virtuais com participação livre dos cidadãos. Faltou mencionar, entre outras coisas, a volta de uma cláusula de barreira e o fim do foro privilegiado.

O sistema proporcional, que faz com que ilustres desconhecidos, mesmo tendo recebido pouquíssimos votos, sejam eleitos para os órgãos legislativos, tem como único objetivo assegurar o poder das quadrilhas. No fundo, o beneficiário do voto não é o candidato, mas a quadrilha. Como tantas outras coisas neste país, esse sistema foi feito para não dar certo. A não ser, é claro, para os interessados de sempre. O mesmo se aplica ao foro privilegiado.

A situação brasileira é tão grave que às vezes me passam pela cabeça idéias estranhas. Por exemplo, escolas para políticos. Disciplinas? Noções essenciais de economia, direito, administração pública e... política. Ética ou Filosofia? Seria pedir demais. O Brasil não está preparado para tanta sofisticação.

Não estou dizendo algo autoritário do tipo "apenas gente com diploma deveria concorrer". Ao contrário, estou propondo que todos os postulantes a cargos públicos, seja qual for sua formação escolar ou acadêmica, tenham de se submeter a cursos básicos de preparação para o exercício do cargo. Candidatos com diploma de nível superior, ou mesmo pós-graduação, também teriam de fazer o curso. Valeria para todos. Talvez fosse possível abrir algumas exceções: por exemplo, isentar da disciplina de Economia os formados em Economia, e assim por diante.

Assim, a massa de candidatos estaria um pouquinho mais nivelada e preparada para o debate legislativo e para a prática da administração pública. Afinal, se todas as profissões exigem algum tipo de formação, como pode ser que políticos possam legislar e tomar decisões que afetam a vida de milhões sem qualquer tipo de preparação prévia?

Políticos que rejeitassem uma proposta como essa já me pareceriam suspeitos de antemão. Se eles não estiverem dispostos a dar ouvidos a uns poucos professores pelo breve período, digamos, de um ano, não seria legítimo perguntar se eles realmente estariam dispostos, posteriormente, a dar ouvidos aos seus eleitores?

O amigo leitor poderá fazer questão de lembrar-me de que não é preciso cursinho para aprender a conspirar, roubar e mentir, e que, portanto, políticos não precisam aprender coisa nenhuma.

Eu provavelmente responderia que oito anos de inelegibilidade são muito pouco, e que não deveria haver uma segunda chance.

E depois ficaria em silêncio. É cada idéia besta...

22.7.17

Muy amigo

Ainda que com as melhores intenções, o simpático senador (e ex-presidente) do Uruguai José 'Pepe' Mujica acabou de enterrar de vez o futuro político de Lula.

Numa entrevista ao BBC Brasil, Mujica declarou (de forma inteiramente espontânea) o seguinte:
Olha, eu mantenho minha fé no Lula. Eu o conheço há muitos anos. O acusam por um sítio. Uma vez estive no sítio e é muito simples, com uma casinha.
Como dizemos aqui no Brasil, quem tem um amigo desses não precisa de inimigos.


13.7.17

O formol nosso de cada dia

As litografias de uma artista que conheço começaram a apresentar mofo. Seu professor de desenho, aliás um dos maiores artistas brasileiros, recomendou-lhe, do alto de seus 87 anos, um tratamento com formol embebido em papel manteiga ou vegetal. Depois de secas, essas folhas serão colocadas em cima dos trabalhos comprometidos e abafadas com plástico ou num lugar fechado. Problema resolvido.

Só que não. Mesmo em casas especializadas na venda de produtos químicos, a venda de formol é proibida para pessoas físicas, em razão, ao que eu ouvi dizer, da atividade de algumas cabeleireiras malucas que o usam nas cabeças de suas clientes.

E agora? E agora nada. É muito fácil comprar formol na ilegalidade, e tanto é assim que as tais cabeleireiras continuam a trabalhar com ele.

O problema é que, ao invés de concentrar-se o armazenamento da substância, que é realmente perigosa, em alguns poucos pontos de venda profissionais, temos agora centenas ou talvez milhares de vendedores clandestinos que armazenam o produto em suas casas. O risco é enorme, sobretudo para crianças e animais domésticos. Como muitas dessas vendas acontecem online, carteiros e porteiros também passam a correr riscos.

Se a venda fosse simplesmente regulamentada (por exemplo, com a identificação dos compradores), a situação seria outra. Mas não. É preciso proibir. E, com a proibição, surge uma nova oportunidade de negócio.

Assim "cuida" o Estado de seus pobres cidadãos, que, em vez de receberem educação, são mantidos num perpétuo estado de menoridade, sempre sendo protegidos de si mesmos. E a coisa termina assim: ao invés de diminuir-se o risco, faz-se com que ele seja aumentado; aqueles que precisam do produto para fins legítimos caem na clandestinidade; aqueles que o usam para fins ilegítimos não sofrem nenhum óbice em sua atividade; e as obras de arte continuam mofadas, sofrendo danos progressivos, enquanto os artistas não encontram um traficante que lhes venda a substância proibida.

12.7.17

Nem acima, nem abaixo

De acordo com a nota oficial do PT a respeito da condenação de Lula no processo do triplex, "Lula não está acima da lei, tampouco abaixo dela."

Não foi um erro de digitação. A frase também é apresentada em inglês (Lula is not above the law, either below it) e espanhol (Lula no está por encima de la ley, tampoco abajo de ella.)

Se Lula não está acima, mas também não está abaixo da lei, onde está Lula? Estará ele no mesmo plano da lei?

A megalomania do populismo latino-americano nunca pára de me surpreender.


6.7.17

Crise política 3: duas (improváveis) propostas

O parlamentarismo, o voto distrital, o fim do voto obrigatório e as candidaturas independentes são algumas das propostas atuais para uma reforma política no Brasil. O problema é que a deterioração da situação brasileira exige propostas radicalmente inovadoras e, por isso mesmo, pouco convencionais.

A primeira delas seria a erradicação da influência do dinheiro na campanha eleitoral. Transformar a campanha num austero debate de idéias e propostas seria uma forma de despir o rei e toda a sua corte. Já vimos no que dá encarar a política como um espetáculo. As campanhas devem assemelhar-se a reuniões de condomínio, e não a superproduções de Hollywood. Em vez de publicitários vendendo candidatos, teríamos os próprios candidatos vendendo aquilo que interessa: suas idéias e propostas. Qual seria o lugar privilegiado para uma campanha seca como essa? A Internet, claro. Seria chato? Sem dúvida. Mas é exatamente por isso que não há reunião de condomínio (ou eleições) todo dia.

A segunda proposta seria a criação de um grande fórum de debates na Internet onde qualquer cidadão poderia sugerir mudanças na legislação e soluções para problemas da esfera pública. Já existe uma iniciativa semelhante no Senado, mas ela não pode nem mesmo ser comparada a um autêntico fórum de debates. Um fórum daria, para além da representação, voz ao cidadão qualquer, e seria uma bela ferramenta para aprimorar e aprofundar a democracia. Apenas as forças mais ferrenhamente antidemocráticas (à direita e à esquerda) se posicionariam contra uma iniciativa como essa. Estados e municípios poderiam manter seus próprios fóruns; o custo dessas assembléias virtuais seria irrisório.

Terão essas jabuticabas alguma chance de prosperar? Duvido muito. Estamos eternamente condenados ao subdesenvolvimento? Se depender de nossa classe política, sim.

9.6.17

Três fundos de tela pretos para Android

É um tanto surpreendente verificar que poucos desenvolvedores de websites sabem produzir imagens otimizadas, isto é, arquivos de imagem com os menores tamanhos possíveis. É mais fácil encontrar um ministro do TSE com coragem suficiente para votar de acordo com as provas do que um site com imagens otimizadas ao máximo.

Este site sobre o sistema Android, por exemplo, que é informativo e bem desenhado, oferece um papel de parede preto (1920x1080 pixels) em um arquivo de 43.536 bytes. O arquivo é pequeno, sem dúvida, mas o fato é que se pode produzir um arquivo idêntico (igualmente preto e com as mesmas dimensões em pixels) 125 vezes menor.

Como você já sabe, o papel de parede preto, além de bacanudo, economiza bateria, especialmente em celulares mais modernos. E não há nenhuma necessidade de que o tamanho do arquivo seja minúsculo: basta que seja preto e seja salvo em formato PNG. Mas se é possível produzi-lo em escala microscópica... Por que não?

Fiz três fundos de tela pretos de dimensões (em pixels) variadas, que estão disponíveis abaixo. Se um deles servir para o seu celular, é só baixar e usar. Se seu celular usa fundo de tela com dimensões diferentes, use o Paint do Windows (ou um programa melhor, como o paint.net ou o Gimp) para fazer o seu. O arquivo não ficará minúsculo como aqueles que estou oferecendo aqui, mas ficará pequeno o bastante. Repetindo, basta que seja preto e seja salvo em formato PNG.

Clique sobre as imagens e depois salve-as em seu dispositivo.





8.6.17

Ossos do ofício

Governantes não podem ter uma espada de Dâmocles permanentemente suspensa sobre eles, alegou um dos ministros do TSE.

O problema é que isso contradiz a realidade que a própria anedota ilustra. Governantes sempre tiveram uma espada suspensa sobre seus pescoços, e não é mau que continue a ser assim em regimes democráticos.

Neste momento, um dos membros do tribunal está, do alto de seus cabelos brancos, questionando a validade das delações premiadas.

Vou ali fazer um papel de parede para o celular de minha mulher e depois eu volto.


P.S. - Como bem resumiu outro membro há alguns minutos, o que se apresenta no processo é indecoroso e ilegal, mas daí a considerar probatórias as provas e proferir uma condenação, há todo um Brasil de distância. Que outros cuidem disso.

7.6.17

pequenas intervenções (digitais, porém não menos) urbanas +1

6.6.17

pequenas intervenções (digitais, porém não menos) urbanas

5.6.17

Crise política 2: o impasse

Agora que o cerco à operação Lava Jato ganhou contornos oficiais e que a blindagem da corrupção está ganhando novas e coriáceas camadas, é bastante difícil prever até que ponto as quadrilhas no poder serão afetadas. Tudo indica que, a despeito das baixas e até da queda de alguns medalhões, as quadrilhas irão sobreviver, e com elas a velha política da "Nova República". Espero, é claro, estar enganado; mas o esperar, neste caso, exprime mais uma "torcida" do que propriamente uma esperança.

Se não há solução fora da política, e se os encarregados de providenciar soluções (por exemplo, uma reforma política) são os políticos, ou seja, justamente aqueles que precisam desesperadamente que as soluções lhes sejam benfazejas em detrimento do resto da sociedade, estamos, nitidamente, num impasse.

Como sair desse impasse? Pedir que quadrilhas não se comportem como quadrilhas está fora de questão. Assim, é preciso impedi-las de tomar decisões que mantenham seus próprios privilégios. Mas como impedir que políticos conduzam as necessárias reformas sem, com isso, recair em autoritarismos?
 

1.6.17

Crise política 1: o double-bind

Obras superfaturadas e aditivos sem fim, financiamentos fraudulentos, perdões de dívidas e multas de empresas privadas, desvios gigantescos em empresas estatais e fundos de pensão, legislações capciosas elaboradas em causa própria, hermenêuticas casuísticas, negociatas de toda ordem: agora sabemos, se já não sabíamos, como se tem feito política no Brasil.

Diante desse quadro espantoso, é impossível deixar de perguntar: será que as várias quadrilhas que estiveram conduzindo o país desse modo deixariam de cometer justamente o crime perfeito, impossível de ser auditado e investigado, o "crime dos crimes" que garantiria a manutenção dessas mesmas quadrilhas no poder?

Não é teoria da conspiração. É, diante das atuais circunstâncias, uma dúvida mais do que razoável. A rigor, um sistema de votação como o nosso sequer deveria existir. E não existe mesmo: a não ser aqui.

É demasiadamente irônico que, justamente no momento em que aprendemos tanto sobre o funcionamento comezinho da política brasileira, intelectuais e meios de comunicação estejam repetindo incessantemente que não há solução fora da política. É mais ou menos como dizer que precisamos confiar no nosso sistema eleitoral e ao mesmo tempo nos mandarem (sim, mandarem) votar nas máquinas de votação menos confiáveis do mundo. É difícil não chegar à conclusão de que os brasileiros estão sendo vítimas de double-bind.


P.S. Mais de um mês depois da publicação desta postagem, foi publicado na Folha de São Paulo este artigo de Ronaldo Lemos: "Segurança de urna digital acende luz amarela no Brasil". 

27.5.17

groboroba 2

Agro é teco
Agro é prop
Agro entrudo



 

Ver também: Groboroba

24.5.17

Uma brevíssima aula de Brasil



1. Economia

No sistema republicano brasileiro, tudo corre bem quando a baba escorre pela boca de cada publicano e ninguém fica sem o seu. 

2. Política

Em havendo desavença, no entanto, tudo desanda em briga de foice; e sempre aparece alguém para apagar a luz.

3. Direito

A Constituição brasileira é boa, mas apenas em teoria. Quando é preciso usá-la, sempre se muda, en passant, uma coisinha aqui, outra ali.

4. Cultura

Uma vez que a culpa é sempre do outro, nada tenho a fazer por mim mesmo, e não tendo nada a fazer por mim, muito menos terei a fazer pelo outro. Que, por sinal, é sempre o culpado. Da capo.

23.5.17

Este áudio foi editado?

Um teste para leigos. Você é capaz de detectar os cortes mesmo não tendo acesso ao equipamento de gravação?



NOTA: Não sou a favor do governo Temer, que por sinal está com os dias contados. 
Sou contra quem editou o áudio e contra os "gênios" da nossa imprensa que acham que adulterar uma prova é uma bobagem de somenos importância.

O dedo na ferida


Ricardo Molina
(clique para ampliar)

Eu estava disposto a trabalhar um pouco mais para mostrar, neste vídeo, alguns dos trechos do áudio da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer que acredito terem sido editados, mas a iminente análise da Polícia Federal tornou esse esforço não só desnecessário, mas inapropriado. No mais, Ricardo Molina endossou minha análise ao mencionar exatamente o mesmo problema que eu havia detectado em minha primeira postagem sobre o tema. Com isso, encerra-se o que eu tinha a dizer sobre o aspecto técnico da questão.

Mas ainda há muito a dizer sobre os aspectos político e jurídico. Muita gente (que eu não posso qualificar senão como francamente burra) tem dito que "não importa" se o áudio foi editado ou não.

Mas é claro que importa. Pois se o áudio foi editado, não se faz necessário prender apenas os mais de 1.800 bandidos contabilizados nas delações, mas também, e antes de mais nada, os bandidos responsáveis pela adulteração do arquivo, sejam eles quem forem.

Se está difícil entender isso, então será preciso reconhecer que o Brasil acabou.

22.5.17

O áudio de Joesley Batista e Michel Temer

Mostrando simultaneamente o espectro e a forma de onda (audio spectrum and audio waveform), este vídeo permite avaliar visualmente o áudio gravado por Joesley Batista em sua conversa com o presidente Michel Temer:

https://www.youtube.com/watch?v=KzqK98lHDa4

Se possível, veja o vídeo em HD.

Aqui há outro vídeo que fiz para comparar o ataque em alguns trechos da nona sinfonia de Beethoven e da gravação de Joesley Batista:

https://www.youtube.com/watch?v=lW9RF9b1uwo

Por fim, acabei descobrindo que existem (ao menos) duas versões desse áudio circulando na Rede. Uma delas, veiculada pela EBC / Agência Brasil, é a versão MP3 com a qual trabalhei nestes últimos dois dias e que pode ser escutada ou baixada na página da EBC / Agência Brasil:



A outra pode ser obtida num link existente no laudo (em PDF) emitido pelo perito contratado pela Folha de São Paulo:



Aparentemente, esta segunda versão só ficará disponível no endereço acima por mais três dias. O arquivo, que possui extensão WAV, ocasionou algumas dificuldades técnicas sobre as quais não vou me estender aqui, mas pôde ser convertido diretamente para o formato FLAC.

Os dois arquivos, como se pode ver nas imagens do programa iZotope, possuem características de áudio diferentes, ainda que tenham sido fornecidos por fontes supostamente oficiais: o arquivo examinado pelo perito da Folha teria sido encaminhado "a pedido do STF", e o outro foi e continua sendo veiculado pela Agência Brasil, que pertence ao governo.

Não me parece que estejamos diante de (mais) uma tentativa de manipulação, mas eu teria de analisar com mais calma, e comparar, as duas fontes. Seja como for, é estranho que absolutamente ninguém da imprensa tenha descoberto e mencionado essa disparidade de fontes em um áudio cuja autenticidade está, justamente, sendo objeto de disputa.

20.5.17

Uma amostra da edição do áudio na conversa de Temer

Não sou perito em áudio, mas já digitalizei vários LPs (fazendo limpeza "manual" de ruídos) e já editei inúmeras músicas; é uma espécie de hobby.

Assim, não custa nada deixar aqui uma pequena amostra visual da edição do áudio gravado por Joesley Batista. Há dois cortes na imagem abaixo, e o corte na parte central da imagem não deixa margem para dúvidas: o áudio foi editado, e não me parece que um "defeito do equipamento" pudesse produzir esse resultado.¹ Não há duração no ataque; o som entra de maneira totalmente abrupta (linha vertical), o que, a meu ver, é muito insólito. Ainda a meu ver, a edição é grosseira e, cá entre nós, até eu teria feito um trabalho melhor.

Não gosto de Temer, não votei em Temer e não estou defendendo seu governo. Mas também não dá para ficar calado diante de "peritos" capazes de afirmar que a edição do áudio é um detalhe sem importância. Se a questão é para "peritos", me perdoem, mas eu sou mais a minha perícia.


(clique para ampliar)


Fonte do áudio: EBC / Agência Brasil

¹ Nota de 22/05/2017 (texto publicado hoje no jornal O Globo):

"O perito André Morrison, um dos diretores da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, disse que a análise sobre o pen drive é importante, mas não é essencial para a conclusão da perícia que os colegas estão fazendo sobre a autenticidade do áudio. Morrison fala com a autoridade de ex-chefe do setor responsável pela perícia de audiovisual do INC.

- Mesmo sem o gravador (o pen drive) é possível fazer a perícia. O gravador seria importante para dizer se determinado evento acústico (ruídos, falhas nos sons, etc) se devem ou não a características naturais do equipamento. Mas a perícia sobre o gravador não é fundamental - afirmou."



13.5.17

O Windows e os recentes ataques cibernéticos

Duas informações – uma capciosa e outra francamente incorreta – foram veiculadas agora há pouco pelo Jornal Hoje, da TV Globo.

Primeiramente o jornal informou que "sistemas antigos" estão vulneráveis, pois já não recebem atualizações. Faltou esclarecer, no entanto, que "sistemas antigos" são esses. Afinal, o Windows 7 SP1 e o Windows 8.1, que já podem ser considerados "antigos", estão e continuarão recebendo atualizações de segurança até, respectivamente, janeiro de 2020 e janeiro de 2023.

Logo depois, o telejornal "informou" que os sistemas Windows pirateados estão vulneráveis. Eu não recomendo a ninguém o uso de um sistema operacional pirateado, seja por razões legais, seja porque leigos não saberão determinar se seu sistema foi alterado com intenção maliciosa. Feita essa ressalva, é preciso deixar claro que sistemas pirateados recebem atualizações normalmente e, portanto, não estão mais expostos a ameaças do que sistemas legalizados. Se assim não fosse, haveria milhões de máquinas zumbis (desatualizadas) ajudando a espalhar pragas virtuais para máquinas legítimas de administradores relapsos, e a Microsoft estaria dando um tiro no próprio pé.

Em resumo: o ataque cibernético explora falhas do Windows e a Microsoft ficou mal na fita. E o Jornal Hoje, sabe-se lá por que razão, resolveu investir no FUD¹ e atormentar ainda mais os cidadãos. Caiu como uma luva para a Microsoft, pois o ingênuo que assiste ao jornal acreditará que (1) ele precisa migrar já para o Windows 10, uma vez que os sistemas "antigos" estão comprometidos, e (2) que se ele ativar o sistema de forma ilegal, o cracker-papão vai lhe pegar.



¹ FUD (Fear, Uncertainty and Doubt) é um jargão (muito usado na informática) que remete às notícias falsas (ou falseadas) capazes de produzir "medo, incerteza e dúvida" num público-alvo qualquer.

5.5.17

propaganda



A propaganda é a alma do beócio.


30.4.17

Belchior entre livros

Estava eu, certa vez, na Livraria Brasileira (creio que era esse o nome), um sebo dos bons que funcionou durante muito tempo no segundo andar do edifício Avenida Central. Quando enfim levantei dos livros meu olhar, vi que lá estava Belchior fazendo o mesmo que eu: revirando velharias.

Como bom carioca, fingi que não havia visto ninguém e que Como nossos pais e Paralelas não haviam marcado minha adolescência; e, à força de tanto fingimento, acabei esquecendo-me deveras de sua presença.

Mas ficou-me a lembrança, boa lembrança, de um homem reservado que queria dar ouvidos a outros homens.




28.4.17

minorias

Eu sou uma minoria, e mesmo a minoria das minorias, a menor de todas: existe um e apenas um exemplar de mim mesmo.

Se você não pensa e não sente o mesmo a respeito de si próprio, você provavelmente é apenas um caso particular de uma maioria qualquer.


* * *

A rigor, a distinção puramente numérica só existe na matemática.


23.4.17

Sobre um uso da cor na fotografia de Spartacus

Neste fim de semana fizemos aqui em casa uma dobradinha de filmes: na sexta, Trumbo, de 2015, e no sábado, Spartacus, de 1960 (em sua versão restaurada de 2015).

A sessão dupla revelou-se muito proveitosa. Mas, para além das conclusões mais óbvias sobre política e ideologia, a revelação, por assim dizer, ficou mesmo por conta da fotografia de Stanley Kubrick.

Durante uma seqüência filmada em noite americana, Spartacus e Varinia conversam sob uma tenda, e é impossível não notar o contraste entre o interior da barraca (cores quentes) e o exterior (cores frias). Os tons avermelhados e alaranjados que tingem a parte de dentro da tenda (e os dois personagens principais) remetem claramente à intimidade do lar, ao amor e à paixão sexual. Já os tons azulados e acinzentados que pintam o lado de fora, onde as tropas se deslocam, remetem à guerra e à morte. Em dado momento, Spartacus se despede de Varinia e, montando em seu cavalo, passa do vermelho ao azul: do lar acolhedor ao dehors ilimitado, da intimidade ao campo de batalha, da paz à guerra, do amor ao ódio.¹


Kubrick não estava apenas filmando uma bela seqüência, mas também apresentando ao espectador as regras de uma linguagem de cores.² E, num momento decisivo da trama, ele voltaria a usar essas mesmas regras para a obtenção de um efeito emocional ainda maior. Refiro-me ao momento em que Spartacus, traído por seus aliados e assediado pelos romanos, resolve marchar contra Roma. Pode-se dizer que essa marcha suicida revela-se, com todas as suas conseqüências, justamente quanto o herói, banhado por uma luz azulada, volta as costas para o alaranjado interior da barraca (2:26:39). Nesse mero jogo de luzes, percebemos tudo que está em jogo: Spartacus está dando as costas à vida (à sua mulher, grávida de seu filho) e entregando-se a um destino atroz. Há uma inversão: antes, personagens "quentes" sobre um fundo frio, indicando que um excesso de vida iria impor-se e vencer a batalha; depois, o personagem azulado sobre um fundo alaranjado, indicando que ele iria enfrentar forças muito superiores às suas e já estava, de certa forma, morto.³

Como disse anteriormente, foi, para mim, uma genuína revelação. Jamais uma cena me emocionou com tanta intensidade exclusivamente pelo uso da cor. E pensar que esse filme (renegado pelo diretor) foi o primeiro longa colorido de Kubrick, que só voltaria a usar cores em 1968...

É claro que outros membros da equipe podem ter sido responsáveis por detalhes bastante significativos. Por exemplo, a escolha do vermelho para o vestido de Varinia coube a um dos figurinistas? Ou teria sido decidida pelo próprio Kubrick? Seja como for, a revelação afetiva que me tocou neste filme foi, sem sombra de dúvida, uma revelação de luz (qualificada pela cor), e o mago da luz, aqui, chama-se Stanley Kubrick.


NOTAS

1. Note-se o toldo que, convenientemente, impede a incidência da luz do sol e do céu sobre a lente da câmera (solução técnica) e ajuda a criar (por oferecer um teto ao casal) uma sensação de intimidade (solução narrativa). Também vale notar que as sombras no interior da barraca são tão duras quanto as sombras dos soldados, indicando o uso de iluminação artificial (talvez colorida?) muito forte.

2. Sabe-se que Kubrick realizou pessoalmente, embora não a tenha assinado, a fotografia deste filme (salvo nas seqüências iniciais, dirigidas por Anthony Mann).

3. Juntamente com os homens, mulheres e crianças que o acompanhavam.


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16.4.17

Brasil, terra de oportunidades

Em tempos de crise e desemprego, não custa lembrar que o Brasil oferece excelentes oportunidades para quem deseja fazer bons negócios. Vejamos algumas delas.


Sindicatos. A obrigatoriedade da contribuição sindical e a inexistente fiscalização do uso desses recursos faz dos sindicatos um investimento premium. Não é por acaso que, lá fora, se contem os sindicatos às dezenas, ao passo que, aqui, eles são contados aos milhares.

Partidos políticos. Além de ter verba pública garantida no orçamento da União (verba essa que tende a aumentar exponencialmente com o fim das doações empresariais), partidos políticos exercem um particular magnetismo que se traduz numa excepcional capacidade de atrair investimentos privados. Embora estejam permanentemente sujeitos a críticas, os partidos dominam os poderes executivo e legislativo, o que, na prática, faz com que sejam intocáveis.

Igrejas. Aqui a verba pública é garantida pelo não recolhimento de impostos, e a contribuição privada é fiel e generosa. Por contarem com proteção constitucional contra a intolerância religiosa, essas agremiações estão numa posição particularmente favorável para perseguir seus críticos, o que constitui um diferencial positivo deste investimento em relação aos anteriores.

Um leitor me escreveu dizendo que a maconha também é um grande negócio, pois, além de contar com isenção fiscal, tem o monopólio garantido pelo Estado (consumidores só são penalizados se plantarem a droga). A esse leitor eu respondo que seria absurdo comparar uma atividade clandestina, marginal, com as atividades legais e altamente respeitáveis que citei anteriormente. Com mais sindicatos, temos mais empregos e mais proteção aos trabalhadores; com mais partidos políticos, temos mais representatividade democrática; com mais igrejas, estamos nos tornando campeões mundiais de ética e de amor ao próximo.



8.4.17

e tenho raiva de quem sabe


"Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe!"

Desconheço a origem e a idade da frase acima, que ouvi pela primeira vez, ainda adolescente, nos anos 70. Há alguns anos eu a redescobri, e atualmente ela me parece constituir uma das melhores sínteses da cultura brasileira.

O brasileiro médio tem, efetivamente, raiva de quem sabe. Seria tal raiva mera expressão de ressentimento do preguiçoso incompetente, inferiorizado pelo diligente? Seria ela uma reação ao dotorismo, tão arraigado numa sociedade de extração escravocrata? Seria inveja? Seria uma manifestação de orgulho pelo nosso "gênio da improvisação", que substitui, sempre que possível, o saber certo pelo jeitinho? Como, enfim, explicar esta nossa reiterada exaltação da ignorância?

Sejam quais forem as causas do fenômeno, ele não está restrito, como muitos poderiam pensar, às "classes populares". Talvez seja mesmo o contrário: enquanto boa parcela do povão continua valorizando o estudo como meio de "subir na vida", nossos professores universitários são capazes de lançar pérolas como esta:

"Levar seu doutorado muito a sério é signo de baixa formação intelectual." (1)

Deve ser por isso que, em dezembro de 1996, durante a defesa de minha dissertação de mestrado na UFRJ, uma professora aposentada que participava de minha banca fez questão de dizer que meu trabalho estava melhor do que muitas teses de doutorado defendidas ali. É que eu era o bobo que levava sua pequena aventura a sério, enquanto os doutores, sabendo que tudo aquilo era apenas jogo de cena, não despenderam mais do que dois centavos de sua alta formação intelectual com tão irrelevante ninharia.

Mas se "levar muito a sério" um doutorado é "signo de baixa formação intelectual", que dizer de quem leva a sério nossos jornais e... nossos blogues?



(1) Folha de São Paulo, 3 de abril de 2017.

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23.3.17

para quem tiver ouvidos


As palavras estão aí para serem definidas e redefinidas. E quando não "estão aí", nós as inventamos. O mesmo se aplica aos conceitos e a uma infinidade de outras coisas; limito-me, no entanto, a referir-me ao meu próprio campo de atividade.

Os homens, entretanto, acreditam que as palavras os definem. Essa parece ser mesmo uma ilusão fundamental (constitutiva) da humanidade. De definidores (criadores) passamos a definidos: encerrados e delimitados por uma definição ou conceito.

Seria maravilhoso se tivéssemos aqui apenas uma ilusão epistemológica, de interesse puramente teórico. O problema é que essa ilusão tem as mais graves conseqüências práticas.

Se criar, definir e redefinir palavras e conceitos nos torna senhores de nossas vidas, deixar-se delimitar por uma definição ou conceito é tornar-se escravo: ainda que nós mesmos tenhamos inventado a palavra ou conceito que nos define. Por exemplo, os "arianos" definiram-se a si mesmos como tais e nem por isso eram menos escravos.

Mais uma vez: são as palavras e conceitos que devem ser definidos e redefinidos. Não as pessoas.

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