21.6.19

VAR de condão

1. Instrumento audiovisual, operado por magos com poderes ilimitados, capaz de transformar praticamente qualquer coisa em outra inteiramente diferente. De "VAR", acrônimo de Vamos Arranjar o Resultado, e "condão".
Ex.: Mestre Júnior disse ontem que o VAR de condão operou a seleção japonesa.

Piores momentos (ainda o futebol)

O Japão foi convidado, juntamente com o Catar, para participar da Copa América.

Mas foi convidado apenas como coadjuvante, e perder para o Japão não faz parte do script. Assim, se o time latino-americano estiver perdendo, será preciso que o VAR entre em ação. Não é preciso esperar muito; qualquer coisa serve. Você chutou o pé do adversário? Perfeito! Marcaremos pênalti a seu favor. Depois, quando chegar a vez de marcar um pênalti contra o time da casa, bastará deixar o jogo correr.

O jogo de ontem, Uruguai 2 x 2 Japão, foi exemplar, pois expôs o modus operandi do VAR. Por exemplo, se for preciso marcar um pênalti, serão seguidos os seguintes passos:

1. O VAR obriga o juiz do jogo a rever o lance.

2. Se houver um ângulo de filmagem favorável à interpretação desejada, ele será (2.1) mostrado no fim da análise e (2.2) repetido à exaustão. Assim, por mais absurdo que seja o lance, o juiz de campo saberá que existe ao menos um ângulo de filmagem (no caso do jogo de ontem, precisamente aquele em que não se percebe o que realmente aconteceu) para sustentar sua decisão, isto é, a decisão do VAR.

No mais, nos lances que beneficiariam o outro lado, basta fingir que não aconteceram. Ou anulá-los, caso o árbitro tenha sido inocente o bastante para marcá-los. Tudo é possível para quem tem o VAR (esse brinquedinho inebriante!) nas mãos.

A propósito, não vi o jogo. Fui alertado sobre mais um VAR em ação e vi um compacto de 5 minutos com os... melhores momentos?


16.6.19

Meu último jogo de futebol

Os donos do futebol estão confiantes no produto que têm em mãos. O futebol movimenta uma fortuna, dos ingressos à venda de jogadores, dos direitos de imagem às bolsas de apostas.

Como eu disse quando da introdução do VAR na Copa de 2018, a manipulação de resultados, sobretudo em jogos internacionais, ganhou um novo patamar: uma espécie de última instância praticamente anônima, pois os árbitros de vídeo jamais dão as caras, dentro de campo e mesmo fora dele.

O jogo Austrália 3 x 2 Brasil (realizado em 13 de junho) foi exemplar. O terceiro gol australiano, corretamente anulado pela árbitra, foi validado por insistência do VAR. A jogadora australiana impedida era a única jogadora adversária na área do Brasil, subiu para disputar a bola com as duas zagueiras brasileiras, e mesmo assim os árbitros do VAR conseguiram convencer a árbitra do jogo que a australiana não havia "participado do lance".

Depois os árbitros do VAR decidiram ignorar um pênalti claro a favor do Brasil, e desta vez sequer convocaram a árbitra de campo para rever a jogada. Os meios de comunicação que consultei não fazem nenhuma referência ao lance. É como se jamais houvesse existido.

Não estou dizendo que o Brasil merecia vencer o jogo, até porque não merecia. Eu ficaria contente com um empate, e não lamentaria uma derrota digna. Mas o que testemunhei me fez tomar uma decisão radical: nunca mais irei perder meu tempo com futebol. A não ser, quem sabe, jogando: desde que não haja VAR, é claro.

A declaração de Cristiane (que não fez nenhuma referência à arbitragem) na entrevista após o jogo foi profissional e exemplar. O segundo gol do Brasil foi um dos mais belos que já vi. Você viu? Tamires deu uma caneta na adversária e um passe em profundidade para Debinha, que fez um cruzamento preciso para Cristiane, que cabeceou com consciência no cantinho do gol. São momentos como esse que fazem a coisa toda valer a pena.

O problema é que, no meu caso, o desconforto ético já superou (em muito) o prazer estético. Em duas horas dá para fazer muita coisa produtiva: ler, escrever, conversar, assistir a um bom filme e todos os eteceteras do mundo. Talvez você ainda tenha muito tempo pela frente, mas meu estoque de horas está se esgotando e eu resolvi não perder mais tempo assistindo a espetáculos que me trazem mais tristeza do que alegria. Conseguirei cumprir minha determinação? Veremos. Já passei no primeiro teste: troquei a estréia do Brasil na Copa América por dois episódios da extraordinária série Chernobyl. Você viu?


8.6.19

Baranek Wielkanocny

Há exatos 25 anos, comecei a escrever contos e a fazer experiências (algo semelhante à música) em teclados eletrônicos. Não sendo escritor e muito menos músico, pesavam sobre mim todas as deficiências formais de quem não domina sua arte; mas eu punha naquelas experimentações, obviamente, toda a minha alma. Elas tinham como pano de fundo uma decisão metodológica que não ousei revelar ao meu orientador, e sequer a mim mesmo. É que eu iria abordar o tema da criação artística em Bergson (é o terceiro capítulo de minha dissertação), e inconscientemente percebi que não estaria sendo suficientemente honesto ao abordar um tema a respeito do qual meu conhecimento se resumia a umas tantas teorias estéticas. Eu queria, tanto quanto possível, enxergar de dentro o tema a respeito do qual iria dissertar, e para isso eu tinha de fazer da criação não apenas um problema teórico, mas também prático.

Hoje, 25 anos depois, minha amiga Júlia Moura Lopes publicou o oitavo número da Revista Athena, e nela um pequeno conto que escrevi há pouco mais de um mês. Está tão fresco que já revisei uma ou duas palavrinhas, mas nada além disso, em relação à versão ora publicada.

O conto chama-se Baranek Wielkanocny e tem ao menos uma virtude: é bem curto.


5.6.19

detalhes tão pequenos de nós bois

Ontem o Flamengo (clube de maior torcida do Brasil) venceu o Corinthians (segunda maior torcida do Brasil) em pleno Maracanã (estádio que já foi o maior do mundo, que foi palco do milésimo gol de Pelé e que sediou duas finais de Copa do Mundo). Não era um mero amistoso; valia vaga num campeonato de âmbito nacional (Copa do Brasil). E a vitória do mais querido foi decretada por um gol, um único gol (de Rodrigo Caio) que decidiu o jogo e selou a classificação dos cariocas.

O problema é que esse único e decisivo gol não foi marcado "de cabeça", tal como foi noticiado (em mais de uma matéria) no jornal O Globo.

Há alguma lição a tirar de um fato (aparentemente) tão sem importância?

Engana-se quem pensa que o futebol é o esporte mais popular no Brasil. Nosso esporte-mor, paixão e mania de nosso povo, é a fofoca. Somos realmente bons em contar aquilo que não vimos e falar daquilo que só conhecemos por ouvir dizer. Um pequeno passo adiante, não mais, e já estamos a noticiar o que nunca soubemos e a escrever sobre o que jamais estudamos.

O brasileiro já não se define por um simples jeitinho. Ele é... criativo.


23.5.19

Desafio contracultural 750ABX52

Ultimamente, certas similaridades têm me espantado muito mais do que as desde sempre esperadas diferenças. É dentro desse espírito que proponho ao leitor ou leitora este desafio. Você consegue adivinhar os autores dos trechos abaixo?

Role a página para saber as respostas.

O que eu observo é que o mesmo princípio pedagógico vale para todas as disciplinas. A idéia geral do ensino é passar ao aluno um certo grupo de certezas que ele nunca mais virá a questionar. E eu não vejo a menor utilidade disso, porque quase tudo, em ciência, pode ser colocado em dúvida. Praticamente tudo.

Quando um grupo de pessoas pernósticas e incompetentes, chamadas professores, ensina a um indivíduo sem gosto e vocação, uma série de noções tolas ou, no máximo, discutíveis, consegue formar, no fim de uma dezena de anos, essa coisa ao mesmo tempo ridícula e monstruosa que se chama um homem culto.

































Respostas: Olavo de Carvalho e Millôr Fernandes.

E agora? Você saberia dizer quem é o autor do primeiro texto e quem é o autor do segundo?

8.5.19

Acima de todos

Somada às recentes decisões concernentes à liberdade de expressão e às decisões econômicas que envolvem a diminuição de receitas ou o aumento de despesas públicas, a rumorosa licitação de acepipes e beberetes faustosos parece indicar que a possibilidade de desmoralização (ou mesmo inviabilização) do atual governo é a menor das preocupações do STF.

É uma formidável demonstração de poder. Os ministros sabem que as ofensas reiteradamente vociferadas pelas redes sociais não têm nenhuma importância. E sabem, sobretudo, que o ônus de uma hipotética ruptura institucional recairia justamente sobre o atual governo e voltaria contra ele (em definitivo) a opinião pública internacional.

Não é uma situação confortável para o cidadão comum, que já tem angústias e problemas que bastem. Mas se é que fazer graça com coisas tão sérias possui algum poder consolador, vale a pena notar que a realidade já se encarregou de dar aval à metade mais excelsa do slogan do governo atual: pois o Brasil pode até não estar acima de tudo, mas o Supremo está, sem nenhuma dúvida, acima de todos.

29.4.19

uma era de ouro

Certa vez, numa conversa com Lydio Bandeira de Mello (a quem estou devendo uma visita), eu disse que estamos vivendo, num âmbito global, uma era de ouro.

Ou seja, se pensamos que o presente é ruim, é porque ainda não vimos (ou previmos) o futuro. Ainda gozamos de uma relativa liberdade, inclusive no que diz respeito à mais importante entre as liberdades, a de expressão; nossos oceanos ainda não são imensos depósitos de lixo quase sem vida; ainda existem abelhas, florestas e reservas de água doce; os conflitos ainda são localizados e não se tornaram guerras de grandes proporções; ainda não testemunhamos ataques atômicos, químicos ou biológicos que fariam os genocídios do século XX parecer simples ensaios; a democracia liberal não foi inteiramente substituída por ditaduras populistas ou teocráticas, e ainda subsiste em alguns países; o controle total da sociedade por meio da tecnologia ainda está tomando forma; quase todos os países ainda compartilham uma única Internet; e ainda não nos tornamos (todos) inteiramente estúpidos e insensíveis, embora caminhemos para isso a passos largos.

Assim, apesar de todos os enormes problemas, alguns deles não mencionados acima, ainda há tempo para cantarmos what a wonderful world; sem esquecer, entretanto, que grandes privilégios trazem consigo grandes responsabilidades.

27.4.19

A pobre da Filosofia

Haveria algo de divertido e irônico no recente anúncio do corte de verbas nas áreas de Filosofia e Sociologia? Certamente que sim.

Em primeiríssimo lugar, diverte-me ver a Filosofia, que nasceu há milhares de anos, ser equiparada a uma disciplina como a Sociologia, que nasceu ontem (isto é, no final do século XIX) com Gabriel Tarde e Émile Durkheim.

Me diverte que ataquem justamente a Filosofia, pois, hoje, ela não tem poder algum, mesmo nos grandes centros de produção de conhecimento, e menos poder ainda num país como o nosso.

Me diverte ver a Filosofia, que é justamente o campo onde se estuda uma disciplina chamada Ética, ser desvalorizada num dos países mais corruptos do mundo.

Me diverte pensar que, ao menos na minha época, a presença do marxismo numa pós-graduação de Filosofia (UFRJ) era praticamente nula. E duvido que isso tenha mudado tanto assim. Filosofia é um universo muito vasto, de modo que existe lugar para o marxismo na Filosofia, mas jamais se poderá fazer da Filosofia um apêndice do marxismo (a não ser, é claro, num regime totalitário ou numa cabecinha muito limitada).

Me diverte (e me diverte imensamente) pensar que os mesmos que acusam as universidades de forjar imbecis em série sejam os mesmos que defendem a idéia de liberdade e de responsabilidade individual. Afinal, somos livres e responsáveis ou somos produzidos pelo "sistema" como sardinhas em lata? Fico com a impressão de que esse pessoal mal sabe do que está falando.

Me diverte pensar que alguém possa chutar o que seria um dos três pés de uma civilização que diz defender.

Só não me diverte pensar que os mais pobres terão ainda mais dificuldades para estudar Filosofia. Mas, como diria o filósofo, no Brasil pobre só se fode.

19.4.19

Confrontation: Badiou versus Finkielkraut


Este é, por enquanto, o meu livro do ano, tanto mais surpreendente nestes tempos em que os confrontos não conduzem ao diálogo, mas a sórdidos jogos de poder. Realmente esclarecedor.

Hoje (dia 19 de abril) haverá um confronto semelhante: Slavoj Zizek versus Jordan Peterson. Ainda não conheço o trabalho de Peterson e só conheço Zizek a partir de uns poucos textos, mas se a conversa render apenas metade do que rendeu o debate entre Badiou e Finkielkraut, terá valido a pena. Espero que liberem o material o quanto antes, pois não pretendo pagar apenas para assistir online...

update (20.04.2019)

O debate será oficialmente liberado no YouTube dentro de um mês, mas já estão circulando cópias não autorizadas do vídeo na plataforma. Peterson não fez justiça ao pensamento marxista, sobretudo quando mencionou as relações entre Homem e Natureza; de resto, fez as inevitáveis críticas que se espera de alguém que prefaciou um livro de Solzhenitsyn e disse coisas bastante sensatas.

Zizek, por sua vez, pareceu-me fazer críticas ao capitalismo muito mais inteligentes e nuançadas do que as de Badiou no seu debate com Finkielkraut. Apesar da dificuldade para entender o inglês macarrônico de Zizek, fica a impressão de que ele estava muito mais à vontade, o que acabou passando a impressão (errônea ou não) de que ele estava mais bem preparado, seja lá o que isso signifique.

O debate entre Badiou e Finkielkraut (curiosamente ignorado nesta matéria do jornal O Globo) foi centrado em temas atuais e específicos, o que faz dele um vigoroso estímulo ao pensamento. Já o debate entre Peterson e Zizek, centrado num tema demasiadamente geral, valeu mais pela mútua boa vontade entre os dois acadêmicos e pelos surpreendentes pontos de contato apresentados, inclusive na crítica ao politicamente correto.

Impossível terminar esta nota sem mencionar a exposição de Zizek sobre a tese de Brian Andre Victoria (Zen and Japanese Militarism). Afinal, a crítica ao que há de terrível numa tal tese só pode conduzir ao estabelecimento da responsabilidade individual como um conceito-chave incontornável. Eu até me arriscaria a dizer que esse é o centro que esquerda e direita não podem desprezar jamais.

15.4.19

Notre-Dame de Paris

Hoje, em Paris, a catedral mais famosa do mundo foi parcialmente consumida por um incêndio.

Choram crentes e ateus.

No Brasil, arde a liberdade de imprensa.

14.4.19

Surface web, Deep web e Dark web

A confusão a respeito desses temas é tão espantosa, e vem sido fomentada na mídia por nomes tão respeitáveis, que por um momento somos tentados a acreditar que tudo não passa de uma imensa campanha de desinformação.

Não creio. Em primeiro lugar, não vejo nenhum motivo plausível para a existência de uma conspiração como essa. Em segundo lugar, não vejo nenhuma razão pela qual profissionais respeitadíssimos arriscariam suas duramente estabelecidas reputações escrevendo artigos que qualquer (qualquer é mera força de expressão, bem entendido) estudante de informática poderia refutar com ótimos argumentos.

Não. A confusão é conceitual e vem se arrastando desde 2001, quando a locução deep web teria sido cunhada. E não, destrinchar esse arredio animal não é uma tarefa que "qualquer" estudante seria capaz de realizar. Por sorte, um brasileiro de apenas 20 anos chamado Natanael Antonioli, que administra o site Fábrica de Noobs e um canal homônimo no YouTube, soube trabalhar o conceito à perfeição e ganhou minha bênção filosófica. Não é que a bênção de um filósofo valha alguma coisa nos dias de hoje, mas... você entendeu.

"Desmistificando: Deep Web" é o vídeo mais recente que Antonioli produziu sobre o tema. Há muitos outros sobre o mesmo tema e sobre muitos outros temas, tudo muito bem organizado e com farto material de estudo compartilhado gratuitamente.

Não percam. O moleque é bom.


5.4.19

A diferença conceitual entre rememorar e comemorar

Lá pelos anos 90, se não me falha a memória, uma simpática escritora brasileira cujo nome não cometerei a indelicadeza de revelar disse, no programa televisivo Sem censura, que a palavra "comemorar" reunia os vocábulos "comer, morar".

Foi um choque, já que a escritora não estava descrevendo uma vista puramente poética (que seria inteiramente aceitável), mas uma suposta (e fantasiosa) etimologia da palavra.

Lembrei-me desse fato hoje, ao ler, num jornal de circulação nacional, o texto de um jornalista muito conhecido que escreveu o seguinte: a etimologia não distingue a palavra "rememorar" da palavra "comemorar".

Pode ser. O problema é que ninguém leva em conta a etimologia, por exemplo, ao chamar alguém de idiota. Conhecer a origem de uma palavra e sua etimologia é sempre (ou quase sempre) esclarecedor, como vimos na análise da origem da palavra "chiclete"; mas usar  esse conhecimento para engessar a língua e dar curso a mal disfarçadas sanhas inquisitoriais é coisa completamente distinta.

Para mim, que por acaso escrevi sobre o tema da rememoração no primeiro capítulo de minha dissertação, a coisa toda é, do ponto de vista conceitual, que não coincide necessariamente com o ponto de vista etimológico, extremamente simples.

Rememorar é um ato psicológico. Comemorar (tal como cooperar) é um ato social.

* * *
E é só isso. De minha parte, nada a comemorar.


25.3.19

A origem da palavra "chiclete"

Segundo uma das lendas urbanas difundidas na Internet, a palavra "chiclete" deriva da marca comercial "Chiclets". O processo de formação do nome (metonímia) teria sido o mesmo que, no Brasil, deu à fotocópia ou cópia reprográfica o nome de "xerox" e à lâmina de barbear o nome de "gilete".

The evening world. New York, July 12, 1905, Evening Edition, Image 11
(Fonte: The Library of Congress)

Por causa dessa lenda urbana, muita gente acredita que a única designação "correta" da coisa seria goma de mascar. A lenda difundiu-se e já foi até publicada em livro. O problema é que, como veremos, a palavra "chiclete" deriva da palavra náuatle tziktli.

A fonte dessa informação é o livro Historia general de las cosas de Nueva España, de Bernardino de Sahagún, publicado pela primeira vez em 1590. Na língua dos astecas, tziktli (espanhol chicle) significa "coisa grudenta". A goma de mascar era amplamente utilizada na sociedade asteca e, muito provavelmente, nas sociedades que a antecederam. Entre os astecas, apenas as moças solteiras podiam marcar chicletes. As mulheres casadas, as viúvas e os homens não podiam mascá-los, ao menos em público; em privado, porém, os chicletes eram mascados livremente. Esse tabu, que, curiosamente, permaneceu vivo durante séculos, deriva do fato que o chiclete (já naquele tempo) era usado para mascarar o mau hálito, sendo associado às mulheres públicas, ou seja, à prostituição.(1)

Percebe-se que há um abismo de diferença entre a formação das palavras xerox, gilete e chiclete. O substantivo comum "gilete" deriva do nome próprio de seu inventor, o americano King Camp Gillette. As palavras "xerox" e "xerografia" foram forjadas a partir do grego antigo – ξηρός (seco), γραφή (escrita) – e remetem, portanto, a uma época na qual (provavelmente) ninguém sequer sonhava em fabricar máquinas fotocopiadoras. Nesses dois casos houve, sem sobra de dúvida, derivação por metonímia: a marca comercial tornou-se substantivo comum (xerox, gilete) e verbo (xerocar).

Adams California Fruit Chewing Gum ad painted from a photograph of Ruth Roland.
Page 84 of the September 1919 Shadowlands. (Fonte: Wikipedia)

A palavra Chiclets, por sua vez, teve origem num substantivo comum, o espanhol chicle. Thomas Adams, fundador da American Chicle Company (grifo meu), só conheceu o chiclete porque trabalhou como secretário de um político mexicano que costumava mascar uma goma natural, talvez a mesmíssima goma usada pelos astecas. Esse político, que se chamava Antonio López de Santa Anna, tentou ele mesmo, embora sem sucesso, comercializar o chicle em larga escala.

Assim, apenas é possível dizer que a palavra "chiclete" formou-se a partir da marca comercial "Chiclets" se virarmos as costas a várias (muitas) centenas de anos de história. Se é certo dizer que foi graças ao americano Thomas Adams que começamos a mascar chicletes (e a usar a palavra chiclete), é historicamente incorreto ignorar que o chiclete é uma invenção de antigas civilizações mesoamericanas e que a palavra Chiclets deriva do espanhol chicle, que deriva, por sua vez, do náuatle tziktli. Não, não foram os americanos que inventaram o chiclete; eles não inventaram nem a coisa, nem a palavra; e não, não há razão para dar à palavra "chiclete" um tratamento diferente daquele recebido pela palavra "chocolate", outra invenção da civilização mesoamericana que se espalhou pelo mundo inteiro com seu nome original apenas ligeiramente modificado.


(1) SAHAGÚN, Fray Bernardino de. El México Antiguo (Edición de Jose Luis Martinez). Caracas, Ayacucho, 1981, p. 113.


18.3.19

Welcome to the machine


Em 25 anos na capital, Marcello morou em alguns dos melhores endereços da cidade, como a Asa Sul. Introvertido, nunca foi de fazer amigos. Em depoimentos à polícia, alegou ter sofrido bullying na escola e, desde cedo, odiar mulheres. Detestava ser derrotado em qualquer brincadeira para uma oponente do gênero feminino. De pele branca, também nunca gostou de negros, LGBTs, nordestinos e políticos e militantes de esquerda.


Nunca um órgão de imprensa sério publicaria: "Nordestino, Fulano nunca gostou de LGBT's." Afinal, se Fulano é homofóbico, isso nada tem a ver com sua condição de nordestino.

Do mesmo modo, um jornalista sério jamais escreveria: "Gay, Beltrano nunca gostou de negros". Afinal, se Beltrano é racista, isso nada tem a ver com sua condição de LGBT.

Mais um exemplo? O que vocês diriam se lessem: "De pele negra, Sicrano nunca gostou de judeus"? Não ficariam imediatamente indignados, e não apenas com o desprezível anti-semitismo de Sicrano, mas com a odiosa alusão à cor de sua pele?

O mesmo não se aplica, infelizmente, aos chamados "brancos". Nesse caso, a cor da pele é mencionada, passando a valer como um princípio explicativo. O sujeito não é homofóbico, racista e sexista porque tem vários parafusos a menos, mas porque é branco. É precisamente isso que a redação do texto citado sugere. "De pele branca, também nunca gostou..."

Haverá algum propósito nessa manifestação pública de racismo? Não creio. Haverá alguma justificativa jornalística? Também não, pois o leitor já conhecia a cor da pele do indivíduo, que aparece na foto que ilustra a matéria.

Não há propósito nem justificativa, mas sempre haverá conseqüências. É muito difícil mensurar o ódio que uma manifestação de racismo publicada em um grande meio de comunicação é capaz de criar. E que razão teríamos para brincar com essas coisas, ainda mais num momento como este?

Esse é o tipo de manifestação que se espera ver numa rede social racista, misógina e homofóbica como a que foi criada pelo cidadão brasiliense que foi objeto da matéria. Vê-la publicada no site do Correio Braziliense, que, se não me equivoco, é o jornal mais importante da capital do país, dá uma dimensão verdadeiramente nacional à terrível mensagem que acreditávamos estar confinada à Dark web:

"A máquina de ódio continua a operar."


15.3.19

Pode-se dizer que, em última instância, estamos todos circulando em torno de um ralo?

Há coisas que eu não entendo no Brasil.

Se são onze os ministros do STF e sete os ministros do TSE, é claro que estes últimos possuem, considerados individualmente, maior poder decisório. Dito de outro modo, um voto entre sete é mais decisivo do que um voto entre onze. No limite, se a decisão coubesse a apenas um ministro, este decidiria sozinho, ou seja, monocraticamente.

Assim, como três dos sete ministros que compõem o TSE são escolhidos entre os onze que compõem o STF, o ministro do STF que vota por um incremento de competência do TSE está, automaticamente, votando pelo incremento de seu próprio poder.

Quando o poder executivo faz algo semelhante a isso, dá uma confusão dos diabos.

23.2.19

Uma aula fortuita

de interpretação de texto, de história, de jornalismo, de política e de ética (esqueci alguma coisa?)

Compare o texto publicado às 13:58h com o texto publicado às 14:10h e tire suas próprias conclusões.

A propósito: o texto retirado na segunda versão foi republicado às 15:23h, porém no finalzinho da notícia, que acabou ganhando mais algumas aspas.

13.2.19

Muses go home



Alguém, numa rede social, achou que "musa" é sinônimo de "miss". Não é divertido? O tuiteiro, coitado, julgou e condenou, do alto de sua sabedoria televisiva, o CNPq; e o que mais poderia ele ter feito, se é uma venezuelana esplêndida que lhe chacoalha o cérebro em nervosas sinapses quando a palavra "musa" se apresenta aos seus sentidos?

A seguir, porém, acontece o inesperado: um importante veículo jornalístico do Rio de Janeiro repercute a ignorância do rapaz e publica uma irrelevância baseada num equívoco como... notícia.

Aqui já começamos a perder a vontade de rir. Precisávamos de mais essa dose de deseducação?

Por fim, veio a resposta do próprio CNPq, que, por algum motivo, manteve-se na defensiva e eximiu-se de explicar o que é uma musa. Podia ter esclarecido, para o bem de todos, que "musa" é uma coisa, e "miss", outra. Podia ter educado, mas omitiu-se. Sim, houve uma discretíssima referência à "fonte de inspiração" no texto divulgado pelo CNPq, mas quem tira algum benefício desse excesso de elegância? Custava explicar?

Agora é tarde. Embora nada tenham contra as moças dos concursos de beleza, as musas, ultrajadas por haverem sido confundidas dessa maneira, irão nos abandonar, para nosso azar, à nossa própria sorte.


2.2.19

circenses

Hoje o Brasil deu ao mundo um exemplo de produtividade.

Tínhamos apenas 81 senadores, porém logramos produzir 82 votos.

As nações se perguntam como conseguimos essas coisas.

Mas os senadores não se fizeram de rogados.

Para elevar ainda mais a produtividade, foram votar novamente.

Quem sabe não conseguiam 90 votos ou mais?

Então um deles disse que a brincadeira estava acabada

porque ele não queria mais brincar.

A brincadeira continuou, é claro.

O circo não interrompe o espetáculo por causa de um palhaço ou dois.

29.1.19

Um alerta sobre hipotireoidismo e levotiroxina (hormônio da tireóide)

RESUMO: Jamais guarde a levotiroxina na geladeira

Certa vez, num comentário a um vídeo do YouTube, uma mulher disse ter melhorado muito ao trocar a levotiroxina fabricada no laboratório "A" pela fabricada no laboratório "B".

O comentário chamou-me a atenção, já que eu estava pesquisando o assunto justamente porque havia experimentado uma significativa melhora ao passar a tomar o hormônio desse mesmo laboratório "B".

Numa das respostas a esse comentário, um usuário desbancou a moça dizendo que aquela afirmação era anticientífica, pois se ela estava tomando a mesma dose da mesma substância, não poderia haver diferença alguma, devendo o resultado obtido explicar-se pelo efeito placebo.

É o tipo de afirmação (ela sim, anticientífica) que demonstra que a educação brasileira é um fiasco, e se você não percebeu isso de imediato, convido-o a examinar as palavras do rapaz e a descobrir por si mesmo o tamanho da bobagem dita por ele. Mas não é sobre isso que eu quero falar aqui.

Afinal, por que eu estava me sentindo muito melhor ao usar o hormônio do laboratório "B"? Um efeito placebo era altamente improvável, já que eu havia simplesmente ganho uma amostra grátis do remédio (casualmente ofertada, aliás, pelo meu cardiologista) e que minha expectativa de obter uma diferença qualquer no tratamento a partir dessa troca de laboratórios era zero.

Quem solucionou esse problema para mim foi meu endocrinologista, Dr. Leônidas Di Piero Novais.

Até então eu estava guardando o hormônio, que é muito sensível a variações de temperatura, dentro da geladeira, e isso estava reduzindo sua eficácia em mais ou menos um terço. Como estávamos no inverno e eu não vi, naquela circunstância, necessidade de guardar a amostra grátis do laboratório "B" na geladeira, o remédio se manteve íntegro e fez muito mais efeito.

É o tipo de erro ao qual podemos ser induzidos facilmente, já que usamos refrigeradores precisamente para conservar por mais tempo as características dos alimentos, pois sabemos que o calor acelera as reações químicas que degradam os nutrientes... No caso da levotiroxina, porém, obteremos o efeito inverso, atrapalhando bastante o tratamento. Por óbvio, também devemos evitar o armazenamento do hormônio em lugares aquecidos (como eletrodomésticos). Há quem guarde seus remédios em cima da geladeira, o que é inteiramente desaconselhável.

Fiz uma rápida pesquisa e não achei nada a respeito desse tema na Internet lusófona, o que me animou a registrar aqui o precioso esclarecimento do Dr. Leônidas.

Como o problema abordado aqui diz respeito às condições de armazenamento do remédio, não há razão para mencionar nomes de laboratórios. Por outro lado, seria de interesse público saber como se dá o armazenamento da levotiroxina nas farmácias, mas num país disfuncional como o nosso sempre haverá grandes desastres para nos distrair dos pequenos. De todo modo, espero que esta nota ao menos sirva de alerta para outros pacientes que dependem do uso da levotiroxina.

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16.1.19

a uma pedra no meio do caminho

Muitos brasileiros desaprenderam (ou jamais chegaram a aprender) em que situações deve-se usar a preposição "a" e a forma verbal "há". Mesmo em jornais dos mais expressivos, outrora assombrados por escritores, a troca de um vocábulo pelo outro, entre outros erros primários, é vexatoriamente corriqueira.

Quem viveu a longa era em que esse erro era inexistente (e não viveu numa caverna analógica nestes últimos dez anos) sabe que a responsabilidade é da Microsoft, pois o péssimo corretor gramatical do então onipresente Microsoft Word 2007 (e possivelmente de outras versões do programa) induz a esse e a vários outros erros gramaticais. Deveríamos até considerar o pagamento de uma compensação (talvez a doação de livros para bibliotecas?) pelos prejuízos generalizados que a ferramenta mal feita causou à educação do país.

Passado, entretanto, o período inicial de indignação contra as malditas corporações, acabaremos nos dando conta de que jamais teríamos sido ludibriados pelo maligno corretor gramatical se tivéssemos feito nosso dever de casa e aprendido o raio do Português corretamente. Nesse caso, teríamos desligado o incorretor, ou o teríamos usado de forma crítica, ou teríamos ainda trocado de processador de textos. Eu mesmo me diverti muito tirando prints de vários erros bárbaros sugeridos pelo Word 2007 na época em que traduzi As Leis Sociais. Portanto, de nada adiantará aplicar a (merecida) multa na corporação malvada se não fizermos, ao mesmo tempo, nosso mea culpa.

Quais serão as conseqüências sociais e políticas dessa regressão generalizada na compreensão e no uso correto da língua portuguesa? Que será dos brasileiros, expostos o tempo todo às palavras de ordem de partidos e religiões, porém incapazes de acompanhar discursos um pouco mais complexos que lhes permitiriam ampliar sua compreensão das coisas?

Apenas constatar o fato (de que os brasileiros lêem e escrevem cada vez pior) e tornar a criticar a "qualidade do ensino" não vai nos tirar do buraco em que estamos nos metendo. Já sabemos que falhamos miseravelmente; saberemos inventar caminhos para reverter a situação?


7.11.18

um raro acontecimento

Em janeiro de 1941, Bergson chamou um padre católico para oficiar sua extrema-unção e, embora fosse judeu, foi atendido. Em outras circunstâncias, ele já teria se convertido ao catolicismo há tempos; mas isso era absolutamente impensável justamente numa época em que seu povo estava sendo perseguido com crescente ferocidade.

Não sou judeu nem católico, mas ateu: talvez a minoria mais universalmente desprezada. Mesmo os chamados "progressistas", aparentemente tão ciosos dos direitos das minorias, são capazes de usar o ateísmo como peça de acusação.

Eu poderia facilmente declarar-me teísta invocando, por exemplo, o Deus de Spinoza, natura naturante. Mas isso, a meu ver, seria hipocrisia. O Deus dos filósofos e o Deus das religiões são tão diferentes que, ao sugerir que acredito em Deus, eu estaria, a rigor, enganando as pessoas que desconhecem essa diferença. Seria fácil, seria cômodo, seria hipócrita. Ao contrário do que as pessoas imaginam, ateus podem ser extremamente rigorosos em questões éticas e são capazes de colocar, se necessário, uma decisão ética acima de seus interesses mais elementares. Assim, mais do que por uma convicção sem nuanças, é por solidariedade com a mais desprezada das minorias que me declaro ateu.

* * *

Sempre fui estúpido demais, ou iluminado demais, ou ambos, para sentir qualquer tipo de preconceito. Meus colegas de escola me zoaram porque a primeira garota que beijei (tínhamos 11 anos) era "a filha da lavadeira". Aquilo, para mim, mal fazia sentido. Pensem bem: o que vocês esperariam de um menino que, aos 9 anos de idade, via na TV monges budistas ateando fogo ao próprio corpo enquanto cuidava da mãe com câncer terminal? Vocês esperariam que ele se importasse com a classe social da namoradinha? Com a cor de sua pele? Com diferenças de gênero, religião ou comportamento sexual? Àquela altura, se diferença havia, era entre minha mãe, cuja dor só a morfina aplacava, e aqueles monges que arderam até a morte sem mover um músculo.

* * *

Compreende-se que alguém com esse histórico tenha estabelecido para si mesmo, mais ou menos confusamente, a meta de descobrir o sentido da vida. Posteriormente compreendi que "descobrir" não era um termo preciso, pois era necessário muito mais do que isso, era necessário inventar, por minha própria conta, o sentido da vida: mais ou menos como alguém que reinventa a roda.

* * *

Não sei se o leitor consegue avaliar a intensidade com que a fala de Haddad me embrulhou o estômago. Eu só não abordei esse tema antes das eleições porque meus leitores poderiam concluir que eu estava apoiando o outro candidato, e eu não estava. Mas o fato é que a reação do "democrata" Haddad, aliás doutor em Filosofia, o "mais tucano dos petistas", veio colocar uma última (e pesada) pedra sobre um tema que já me fazia refletir há algum tempo. 

 Clique para ampliar. Fonte: Daniel Weterman (O Estado de São Paulo)

Há quem diga que nossos "progressistas" não estão e jamais estiveram de fato preocupados com as pessoas que dizem defender, e que eles seqüestraram pautas perfeitamente legítimas (como, por exemplo, os direitos das minorias) e as puseram a serviço de um projeto de poder. Com efeito, isso explicaria a arrogância de Haddad e a incrível facilidade com que ele foi capaz de fomentar preconceito religioso dentro de uma igreja quando isso lhe pareceu politicamente vantajoso.

Seja como for, eu, que me declaro ateu e já fui xingado de "iluminista" (outra minoria?) dentro de uma Universidade, sou, evidentemente, favorável à defesa dos direitos de minorias, etnias, mulheres e desfavorecidos. Mas a verdade é que essas pautas (legítimas, repito) acabaram monopolizando a vida acadêmica nas áreas de humanas, e a Universidade acabou tornando-se um lugar tóxico e totalmente hostil ao debate pluralista.

O mecanismo de conversão é simples: constrangimento moral. Se você não adere integralmente à "causa", se você insinua que também é preciso dar atenção a outros problemas (como, por exemplo, o estúpido problema do sentido da vida), então você só pode ser racista, sexista, fascista, homofóbico. Não havia isso na minha época de estudante. Era um tempo em que você podia escrever um trabalho sobre Nietzsche para um professor marxista e ganhar nota 10.

Não estou defendendo aqui nada semelhante a um controle ideológico da Universidade. Não estou defendendo controle algum. Não estou propondo a troca de um livro sagrado por outro. Leandro Konder, o professor a quem me referi no parágrafo anterior, não me deu nota 10 porque alguma regra o obrigava. Ele o fez porque era digno e porque respeitava o livre debate de idéias. Isso acabou. Hoje, brutalidade e cinismo se enfrentam abertamente; e o barulho incessante (de lado a lado) termina por arruinar o silêncio que permitiria esse raro acontecimento que é pensar.


31.10.18

postagem aleatória XS0891

30.10.18

Uma última palavra sobre a Folha de São Paulo

Antes que algum iluminado estabeleça uma relação entre minhas recentes críticas à Folha e as críticas do presidente eleito ao mesmo jornal, não custa esclarecer que:

(1) Eu costumo criticar bobagens urdidas no executivo, no legislativo e no judiciário, e não vejo razão para não criticar bobagens que leio na imprensa.

(2) Boa parte de minhas críticas à imprensa sempre se dirigiu à Folha (ou aos seus colunistas) porque é o jornal que mais leio e o único de que sou assinante.

(3) Sei ler um jornal e o notório viés político da Folha nunca me incomodou (a não ser, claro, quando assumia um viés explicitamente antidemocrático). Por incrível que pareça, o que acabou acendendo um sinal de alerta foi a sistematicidade com que o jornal "esconde" o clube de futebol mais querido do Brasil. Por várias vezes, fui forçado a pesquisar o jornal para achar uma matéria sobre uma vitória do Flamengo, clube que só aparece na página de resultados quando não vence.

Posso entender que um jornal combata um líder político que detesta. Mas há obviamente algo muito errado num jornal capaz de comportar-se desse modo com o clube de maior torcida do Brasil e, possivelmente, do mundo. Afinal, aqui o problema deixa de ser político e torna-se eminentemente ético. Sei muito bem que sempre foi difícil achar um jornal guiado por pautas, e não por agendas; mas nunca vi, num grande jornal, uma agenda tão esdrúxula quanto essa, e que me deixasse tão desconfiado acerca da suposta "grandeza" de um veículo de comunicação.


P.S.: Não, eu não cancelei minha assinatura da Folha nem estou exortando ninguém a fazê-lo. Uma imprensa meia-boca é sempre muito melhor do que imprensa nenhuma. Bolsonaro sequer foi empossado e já está dando uma de petista.

25.10.18

Pink que te quero pink


Duas horas de show e um telão enorme

que não mostrava Manuel Bandeira

ou Manoel de Barros,

ou Spinoza

ou Nietzsche,

porém

frases e mais frases de Donald Trump

chovendo no molhado da repetição do mesmo dementado que já se viu na TV.



Independentemente de suas convicções políticas, que nem estou pondo em questão,

Roger Waters deveria estudar um pouco.

A borboleta é uma cor que voa

bem mais lindamente que seus porcos.

22.10.18

Por que a Folha de São Paulo esconde o Flamengo?


Já comentei esse tema aqui no blogue e continuei reunindo, ao longo dos anos, algumas provas de que a Folha de São Paulo, deliberadamente, "esconde" o Flamengo sempre que pode. Agora, porém, a coisa ficou tão escancarada que eu não posso deixar de comentar, por uma última vez, esse assunto.

Quem está acompanhando, mesmo que de longe, como eu, o campeonato brasileiro, sabe que o Flamengo subiu ontem para a segunda posição, estando dois pontos acima do terceiro colocado, o Internacional. E o título da matéria da Folha de São Paulo diz que o Palmeiras ampliou a vantagem... sobre o Internacional?

Notem que a manchete não é falsa. Desinformar não é (necessariamente) divulgar inverdades. De fato, o Palmeiras ampliou a vantagem sobre o Internacional, assim como ampliou a vantagem sobre o Flamengo e, enfim, sobre todos os demais clubes que disputam o campeonato. Mas quem está em segundo lugar é o Flamengo e, por óbvio, é o Flamengo que deveria ter sido mencionado na manchete.

O corpo da matéria, como não podia deixar de ser, menciona (duas vezes) que o Flamengo é que está em segundo lugar, mas só sabe disso quem lê a matéria. Quem apenas passou os olhos pelo título foi desinformado e deve estar até agora pensando que Palmeiras e Internacional estão liderando o campeonato. E a verdade é que, mesmo que ganhe o difícil jogo de hoje contra o Santos, o Internacional ficará apenas um ponto à frente do Flamengo.

A conclusão é ineludível. A Folha de São Paulo, de forma deliberada e sistemática, faz o máximo para ocultar de suas manchetes o Flamengo e tudo que diz respeito ao clube. Há uma única exceção a essa regra: quando há uma notícia negativa sobre o clube, como uma derrota, o Flamengo subitamente ganha destaque nas manchetes.

Se eu realmente acompanhasse futebol e lesse a seção de esportes da Folha com assiduidade, seria capaz de escrever um livro inteiro sobre o assunto. Jamais escreverei esse livro, mas deixarei aqui a dica. O tema daria um "estudo de caso" interessantíssimo, pois não apenas diz respeito ao clube mais querido do Brasil, mas também ao provincianismo, à parcialidade e, enfim, à má-fé de um dos mais importantes jornais brasileiros. Já imagino até o título da dissertação: "Varrendo as massas para debaixo do tapete: um caso de desinformação deliberada na imprensa brasileira".



NOTA: Internacional e Santos empataram e, apesar da torcida da Folha (último parágrafo do texto), o Flamengo continua, como ontem, em segundo lugar no Campeonato Brasileiro.

NOTA 2 (27/10/2018): Cinco dias depois, o Internacional tem um jogo a mais (31) do que o Flamengo (30) e até empatou em número de pontos (58), mas, ainda assim, o Flamengo continua na frente com uma vitória a mais e 7 gols de vantagem no saldo. Ao que parece, os fatos resolveram aplicar uma surra descomunal na torcida da Folha.

NOTA 3 (03/11/2018): Duas semanas inteiras se passaram e todos os clubes mencionados continuam ocupando as mesmas posições na tabela. Que chato, não?


18.10.18

O cara da Folha pediu e eu, alegremente, dei (ou: da filosofia como arte de aborrecer a tolice)


Como ensinou Bergson, liberdade não é um mero escolher entre opções previamente definidas. É claro que o voto, esse pequeno naco de liberdade que lhe concedem, pode ser, para o homem das ruas, tudo que ele tem para exprimir sua vontade política. Assim, se é preciso afirmar que é enganoso reduzir a compreensão do conceito de liberdade à simples "liberdade de escolha" entre opções determinadas de antemão, é preciso afirmar também, e ao mesmo tempo, que a liberdade de escolha (materializada no voto de todos os cidadãos) é um dos fundamentos do regime democrático.

No segundo turno de uma eleição presidencial, embora sejam dois os candidatos, não tenho apenas duas opções. Em linguagem filosófica, o terceiro excluído vale para o resultado das eleições, mas não para o meu voto; pois está em meu poder recusar os dois candidatos e não votar em nenhum. Vale lembrar que, num segundo turno, votos brancos e nulos não favorecem ou prejudicam nenhuma candidatura, pois não são levados em conta.

Não fosse trágico, seria cômico observar a sanha acusatória de alguns articulistas da imprensa brasileira contra os eleitores que anulam o voto. Estes são acusados de compactuarem, entre outras coisas, com a destruição do meio ambiente e com a tortura.

Essa aisance em lançar mão de chantagem (tortura?) moral é, por si mesma, reveladora.

Não quero compactuar com a tortura. Não quero compactuar com o crime organizado. Não quero compactuar com seja lá o que for, e a anulação do meu voto exprime precisamente essa recusa. Negar-me esse direito equivale a privar-me da já minúscula parcela de liberdade que me cabe numa eleição. O que haveria de mais autoritário que isso? Como poderia acusar-me de um defeito moral alguém que de antemão nega minha liberdade? Não posso ser forçado a escolher uma das duas opções e ainda imaginar-me minimamente livre. Se assim fosse, deveríamos dizer livre o homem a quem demos o direito de escolha entre ser fuzilado com uma venda nos olhos ou sem ela.

Não consigo impedir-me de sentir, num momento como este, um imenso orgulho de ter dedicado a Henri Bergson uma boa parte de minha juventude: justamente um filósofo odiado tanto pela esquerda (que o acusava de "místico" e "espiritualista") quanto pelo conservadorismo (a Igreja Católica incluiu, já em 1914, suas principais obras no Index Librorum Prohibitorum.) Não custa lembrar que Bergson esteve "do lado certo da História" quando foi preciso e numa situação em que havia, de fato, um lado certo da História.(1)

Aproveito para lembrar que a neutralidade partidária e o voto nulo de um eleitor são coisas bem diferentes. Um partido só tem a ganhar com a neutralidade. O eleitor, ao contrário, arrisca-se a ser odiado pelos dois lados, a ser tachado de omisso e até a ser perseguido em seu local de trabalho. Não estou em cima do muro, como alguns partidos políticos; estou, na verdade, acima do muro. Se os dois lados da disputa são chamados (e com razão) de autoritários, é porque eles trabalham por um fechamento; ao passo que eu, como filósofo, trabalho por uma abertura. Não vou dar meu aval a gente que defende, conforme o caso, a tortura ou a apropriação de um país por um partido político. Mas se as urnas decidiram que é isso que temos para hoje, então façam suas campanhas, defendam suas idéias e tentem, por favor, não matarem uns aos outros. Mas tampouco neguem a ínfima margem de liberdade que me resta, pois, ao fazê-lo, vocês estarão negando a própria democracia.

E isso, claro, é coisa de fascista.




(1) SOULEZ, Philippe. Bergson politique. Paris, PUF, 1989.

9.10.18

rumo ao futuro 2

Estou há dias esperando a repercussão da matéria The Big Hack na imprensa brasileira. Ainda não vi absolutamente nada.

A reportagem, publicada pela Bloomberg Businessweek no dia 4 de outubro, revela que a Supermicro (Super Micro Computer Inc.), uma gigantesca fabricante de placas-mãe para servidores, introduziu um minúsculo chip em placas fornecidas para o mundo todo e que teriam ido parar, por exemplo, nos servidores da Amazon e da Apple. Menores do que a ponta de um lápis, esses chips são capazes de baixar código executável e de "preparar o sistema operacional do dispositivo para aceitar esse novo código".(1)



Note, na ilustração acima, que o chip sequer tem a aparência de um chip, e apresenta-se, por assim dizer, disfarçado de conector (como aquele usado no BIOS). Todos os envolvidos negam as informações, mas há uma investigação sigilosa em curso e 17 fontes anônimas teriam confirmado tudo.

Os detalhes dessa notícia são tão graves e escabrosos que eu vou parar por aqui: detesto sensacionalismo, sobretudo quando baseado (ainda) em especulações. Mas a imprensa brasileira, que ganha para informar, decidiu fazer a egípcia.

Compreende-se; um ataque via hardware dessas proporções é uma notícia desagradável para os defensores das urnas eletrônicas.

Não, os chineses não estão manipulando nossas urnas e, muito provavelmente, ninguém está. Mas, entre o cinismo de uns e a paranóia de outros, há espaço suficiente para uma reflexão coletiva bem urdida e uma correção de rumo para as futuras eleições. Se realmente queremos ser uma das maiores democracias do mundo, temos de avaliar exaustivamente essa escolha em particular.



(1) The Big Hack: How China Used a Tiny Chip to Infiltrate U.S. Companies

 

6.10.18

um simples comentário

Postei um comentário ao texto "Gastronomia brasileira reflete um país tosco", publicado por Marcos Nogueira, em que este se queixa da falta de educação generalizada do paladar do brasileiro. Cito um trecho:
"O brasileiro vive na ilusão de que é um abençoado, mais sagaz e criativo do que os outros povos. Em seu mundinho paralelo, essa esperteza lhe basta para queimar etapas. Estudo? Pesquisa? Não, a fé nos levará à vitória. Haja autoconfiança."
Meu comentário não apareceu na página porque foi submetido à moderação da Folha de São Paulo:
Sabemos ler o texto alheio, ou seja, ler o outro e compreendê-lo? Sabemos detectar o texto mal escrito, ou diferenciar o bem escrito do simplesmente correto? Sabemos analisar uma pintura ou uma foto? Não conhecemos nem mesmo os nossos sentimentos, dos quais derivam nossas ações. Bem-vindo à realidade, amigo. Quem não produz a si mesmo (por exemplo, quem não cozinha sua própria comida e não inventa suas próprias idéias) está condenado a vagar como um fantasma, a mendigar amor, a dar ouvidos a idiotas e a comer porcaria. Um forte abraço.



Atualização (08/10/2018, 22:40): O texto acabou não sendo publicado, mas na Folha isso acontece bastante. Enfim, era só um comentário...

5.10.18

A Hidra de Lerna contra a Mula sem Cabeça

Posso estar errado, mas continuo achando, quatro anos depois, que Marina Silva teria feito um bom governo (certamente não seria o desastre que foi o governo Dilma II). E eu posso estar, mais do que errado, delirando, mas vejo em Marina Silva muitas das qualidades que vejo em Fernando Gabeira.

Noves fora, Gabeira é o político brasileiro que eu mais admiro. Foi às últimas conseqüências na juventude, envelheceu com sabedoria e teve coragem para revelar uma verdade desagradável sobre nossos democratas. Entendeu que o binômio totalitarismo/democracia é muito mais importante do que o cansativo direita/esquerda. E, como se tudo isso não bastasse, é o político que tem a filha mais bacana.
* * *

Meu cérebro tem dois hemisférios, esquerdo e direito, mas fica bem no centro de minha cabeça.

* * *
Desta feita, o centro derreteu. Querem me empurrar goela abaixo um dos mais formidáveis encontros mitológicos das modernas democracias. Como diria Bartleby, I would prefer not to.


3.10.18

rumo ao futuro

Tornou-se mais fácil ameaçar os habitantes das comunidades mais vulneráveis de todo o país, sobretudo em áreas dominadas pelo crime organizado. Na época do voto manual, apenas os mais ingênuos acreditariam que o crime conseguiria identificá-los por meio de garranchos num pedaço de papel; agora, com a urna eletrônica, é muito mais fácil fazê-los acreditar que seus votos poderiam ser rastreados e descobertos.

Enquanto na Alemanha as urnas eletrônicas foram declaradas inconstitucionais, aqui é a impressão do voto que é tida como inconstitucional.

Eu compreendo que o TSE defenda o sistema atual com unhas e dentes e compreendo que seus textos se assemelhem a campanhas publicitárias. Administrar sistemas informáticos é muito mais divertido do que ficar contando uma inimaginável quantidade de papéis. É preciso admitir que as urnas eletrônicas são mais modernas e excitantes do que o sistema manual. Só não servem para a democracia, como explicou com suprema simplicidade o Tribunal Constitucional Federal alemão; mas, aqui, quem se importa?

Não estou dizendo isso para apoiar as teses do candidato A ou B. Não estou pensando no próximo governo, mas nos próximos 100 anos. E estou, claro, aproveitando que ainda é possível mencionar o tema. Em breve (talvez 10 anos?), qualquer declaração que ponha em dúvida a lisura do processo eleitoral será considerada (vejam só) um atentado à Democracia e à Segurança Nacional.

O Brasil pode não ser o "país do futuro", mas está se tornando o grande laboratório das sociedades de controle do futuro. Não conheço outro país do mundo, ou ao menos nenhum país com a importância do Brasil, em que a tecnologia e o autoritarismo estejam a ponto de fazer um encontro tão promissor.

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