23.3.17

para quem tiver ouvidos


As palavras estão aí para serem definidas e redefinidas. E quando não "estão aí", nós as inventamos. O mesmo se aplica aos conceitos e a uma infinidade de outras coisas; limito-me, no entanto, a referir-me ao meu próprio campo de atividade.

Os homens, entretanto, acreditam que as palavras os definem. Essa parece ser mesmo uma ilusão fundamental (constitutiva) da humanidade. De definidores (criadores) passamos a definidos: encerrados e delimitados por uma definição ou conceito.

Seria maravilhoso se tivéssemos aqui apenas uma ilusão epistemológica, de interesse puramente teórico. O problema é que essa ilusão tem as mais graves conseqüências práticas.

Se criar, definir e redefinir palavras e conceitos nos torna senhores de nossas vidas, deixar-se delimitar por uma definição ou conceito é tornar-se escravo: ainda que nós mesmos tenhamos inventado a palavra ou conceito que nos define. Por exemplo, os "arianos" definiram-se a si mesmos como tais e nem por isso eram menos escravos.

Mais uma vez: são as palavras e conceitos que devem ser definidos e redefinidos. Não as pessoas.

17.3.17

groboroba

Agro é tech
Agro é pop
Agrobo

9.3.17

pseudíssimo

A democracia vem acumulando derrotas nos últimos tempos entre nós, e torna-se mais precária a cada revelação sobre a corrupção epidêmica que parece não poupar ninguém. A cada nova desmoralização de políticos e política, a nossa democracia apanha mais um pouco. Há quem diga que o fato de ainda estar de pé, mesmo que só formalmente, é um bom sinal: em outros tempos, ela já estaria na lona, e a alternativa estaria nas ruas. Mas a surra continua. Como nas lutas de boxe em que só um lado apanha, sem defesa, sem reação possível — e o pior, sem torcida — não é um espetáculo bonito.
Luis Fernando Veríssimo (O Globo,  09/03/2017)


Revelar a corrupção precariza a democracia?

A "revelação sobre a corrupção endêmica" não seria, ao contrário, prova de que se tornou impossível acobertar a corrupção ou, para usar o célebre clichê, varrê-la para debaixo do tapete?

O funcionamento de órgãos de fiscalização capazes de investigar e punir a corrupção não seria, ao contrário, uma prova de força de nossa incipiente democracia? Ou estaríamos melhor arranjados se uma casta qualquer pudesse, em nome da democracia, agir como bem entendesse, sem nenhum tipo de freio institucional?

É a denúncia que desmoraliza os políticos? Ou aquilo que os desmoraliza são seus próprios atos?

Se apenas um dos lados apanha, e esse lado é a democracia, então o outro lado, o que bate (justiça, polícia, ministério público), deve ser considerado... antidemocrático?



P.S.: Embora fosse minha intenção citar o autor, acabei trocando o termo "epidêmica" (presente no texto original) pelo termo "endêmica". Pelo que talvez valha como ato falho, fica como está. (13:12)


28.2.17

barbarians with a coat of varnish

Raramente perco meu tempo assistindo ao Oscar, e também teria ignorado solenemente a cerimônia de 2017 se não fosse pela histórica trapalhada da PwC.

Foi um festival de horrores. Do alto de seus 79 anos, Warren Beatty foi publicamente acusado de mentiroso por uma pirralha histérica e teve o cartão de melhor filme rudemente arrancado de sua mão por um produtor visivelmente frustrado que resolveu assumir seu lugar e anunciar o verdadeiro vencedor.

Jamais assistirei a La La Land. O filme fará companhia a ET, outro que fiz questão de jamais ver. Curiosamente, há gente (ou coisa parecida com gente) voando nos dois filmes; em ambos, no entanto, os vôos são de mentirinha.

24.2.17

vaidade

Tudo no vaidoso é reflexo; contido pela própria imagem, ele não transborda.

22.2.17

não existe pecado do lado de lá do prefácio

Plágio é a subtração de idéias (sic) de determinado autor sem citação.
Alexandre de Moraes, futuro ministro do STF

Não é isso que está escrito na lei brasileira de direitos autorais, e o Dr. Alexandre de Moraes sabe muito bem disso.
Não houve subtração de idéias de autor e houve citação da obra [na bibliografia]... É uma obra onde a expressão intelectual do autor (um grande autor em outras obras) se dá somente no prefácio. A coletânea é de decisões que, assim como outras decisões da suprema corte do tribunal constitucional alemão, foram analisadas e discutidas.
Alexandre de Moraes, futuro ministro do STF

Mas se o plágio jamais é plágio de idéias; se textos (quaisquer que sejam, de poemas e decisões jurídicas a listas de lavanderia) são expressões intelectuais de seus respectivos autores; se o uso acadêmico do texto de outrem requer citação; e se bibliografia e notas são coisas distintas, percebe-se que o Dr. Alexandre de Moraes teria se saído muito melhor se houvesse admitido que cometeu um simples e perdoável erro de omissão ao qual todos nós estamos sujeitos: ainda que mentisse.

Mas quem se importa com essas coisas, não é mesmo?


18.2.17

haiku do analfa



Onde a 
fumaça
afogo


4.2.17

ass yes


Hackers sempre trabalham com sistemas programáveis, mas nem sempre esses sistemas são computadores. Flagrante de um hack numa famosa loja de decoração do Rio de Janeiro. Hacker: anônimo. Foto: Mariana.


3.2.17

duas doses de vodka direto do congelador

"Como somos egoístas em pensar que temos algum valor perante o universo. Não somos nem poeira de estrelas. Constatar isso me fez entender melhor o valor da vida."

1. O universo não está, jamais esteve e jamais estará preocupado em medir nosso valor.

2. Faz sentido comparar o valor da parte e o valor do todo?

3. O valor das coisas consiste em sua grandeza física? Uma montanha "vale" mais do que uma bactéria?

4. Qual é o tamanho (e o valor) de uma idéia?

5. A Filosofia não é o melhor caminho para descobrir uma nova estrela, e a Astronomia não é o melhor caminho para descobrir o valor (e o sentido) da vida.


Adendo:

6. Como poderia algo sem nenhum valor entender o valor da vida?

Adendo 2:

7. Não custa lembrar que montanhas e estrelas são fenômenos de massa, ao passo que a bactéria é capaz de produzir a si mesma.

8. Há muitas maneiras de reduzir a vida a um valor de nada. Nesses jogos o filósofo não aposta.


25.1.17

simetria bilateral

Trump foi eleito, e Dilma reeleita, por gente que nada percebe de Economia.

Ambos são adeptos dos fatos alternativos.

Estou curioso: quão longe irá esta listinha de similaridades?


20.1.17

La mentalité primitive strikes again

«En effet, il n'y a pas de hasard : l'idée de l'accident ne vient même pas à l'esprit des indigènes, tandis que l'idée de maléfice leur est au contraire toujours présente.»

E de repente você descobre que está, sim, ficando velho: mas não paranóico.

É uma ótima sensação, pois, ao contrário da chuva, sua saúde mental não caiu do céu: foi uma conquista sua.

6.1.17

Folha de São Paulo hackeada




Eu flagrei a "façanha" às 5 da manhã, mas pode ter começado bem antes disso. Passei um tempo investigando se o meu PC estava comprometido (por exemplo, com uma linha de redirecionamento no arquivo HOSTS). Em seguida, fiz um pequeno filme capturando a tela.

Todo mundo está fazendo a mesmíssima piada: tentamos dar uma olhada no hardcore político da Folha e terminamos nos deparando com inocentes cenas de sexo...

A coisa durou bastante. Há registros do hack realizados pouco antes do meio-dia.


P.S. - A rigor, a Folha não foi hackeada: a ação ocorreu nos servidores de DNS. Mas como isso é um detalhe técnico cuja compreensão exige algum conhecimento de como funciona a Internet, e como o alvo dos hackers foi, efetivamente, a Folha de São Paulo, vale o escrito.

8.12.16

deitado eternamente

Enquanto o resto do mundo discute o big data, os governantes brasileiros dão mostras de serem incapazes de cruzar duas variáveis.

Temos o direito de duvidar que a aposentadoria precoce dos professores produza um ensino melhor; mas seria sandice afirmar que esse benefício concedido aos professores não seja precisamente isso – um benefício – e, portanto, um estímulo a mais para aqueles que cogitam seguir a carreira do magistério.

O desinteresse dos jovens pelo magistério não vem de hoje e já se tornou crônico no Brasil. De acordo com os dados mais recentes, o nível de interesse dos estudantes já teria chegado a zero

A situação econômica do país leva a supor que os professores não terão grandes reajustes de salários nos próximos anos. Subjetivamente, a situação é ainda pior: pois se os bombeiros ganham mal, mas gozam de grande prestígio na sociedade, os professores do ensino médio e fundamental ganham pouco e são, ao mesmo tempo, socialmente desprestigiados. Sequer temos professores suficientes. Apenas 33% dos professores de ciências possuem graduação na área, e isso acaba se refletindo no desempenho dos alunos.



Fonte: PISA

Pois bem. É nesse contexto que o governo Temer pretende igualar as regras de aposentadoria dos professores às dos demais trabalhadores, tornando a carreira de professor ainda menos atraente. Nessa toada, não é preciso ser um mago do big data para prever que (infelizmente) o Brasil não vai dar certo: basta cruzar umas poucas variáveis.



1. Nenhum jovem quer virar professor no Brasil. Folha de São Paulo, 7/12/2016.

4.12.16

cultura e política (xB27a)

Esqueça (ou, filosoficamente, ponha entre parênteses) seus sentimentos em relação aos personagens que irei mencionar e faça um esforço para compreender o que eu vou dizer. É bastante simples, não é nada complicado.

Lula foi a Cuba prestar suas últimas homenagens a Fidel Castro e disse o seguinte: "Estou triste, porque se foi o maior homem do século 20".¹

Insisto: pouco importa a suposta veracidade ou falsidade dessa declaração. Pouco importa sua opinião a respeito de Lula, de Cuba ou de Fidel. É em outro nível que devemos buscar aquilo que (a meu ver) realmente interessa.

Um século é tempo suficiente para que muitos "grandes homens" se produzam. Durante o século passado, um deles formulou a teoria da relatividade; outros, a física quântica; outro descobriu a penicilina; outro, a estrutura em dupla hélice do ADN; e mesmo que nos limitássemos a citar "grandes homens" (e mulheres) da ciência e da tecnologia, faltaria ainda mencionar um bom punhado de grandes filósofos e de grandes artistas. Todos fizeram de suas vidas um dom, uma dádiva, tornando a vida da humanidade mais rica, mais intensa, mais digna de ser vivida; e, por vezes, eles salvaram diretamente as vidas de milhões, como no caso da penicilina.

Esse é o plano da Cultura: homens que tocam suas vidas de todos os dias, plantando e colhendo, amassando o pão, escrevendo equações e partituras. Nesse plano, pode até mesmo soar artificial a divisão entre "grandes" e "pequenos": pois sem equações e partituras a vida mal valerá a pena, mas sem pão não haverá equações ou partituras.

Para Lula, no entanto, o "maior" homem do século XX foi um dos seus: um político.



1. Em Cuba, Lula diz que Fidel foi o 'maior homem do século 20'. Folha de São Paulo, 3/12/2016.


9.11.16

refeição na trincheira (repost)

Otto Dix - Mahzeit in der sappe (1924)

(clique para ampliar)

13.10.16

às vezes, menos é menos

Limito-me a indicar a leitura de dois artigos recentemente publicados na Folha de São Paulo.

Contardo Calligaris - Na maioria dos casos, o estudante começa a estudar só na pós-graduação
Demétrio Magnoli - PT sofreu derrota na urna, mas introduziu Zeitgeist que segue

Excepcionalmente, vou fornecer um link provisório para um arquivo PDF contendo os dois artigos:

https://1fichier.com/?ip8gsak3y4


2.9.16

O senador imaginário

Nenhum senador foi suficientemente brilhante para perceber, no calor do momento, o único argumento efetivamente matador, aquele que seria fatal ao conchavo que dividiu em duas a votação do impeachment.

O que aconteceria se Dilma se livrasse da perda do mandato (primeira votação), mas fosse declarada inabilitada por oito anos (segunda votação)? Passaríamos a ter, no cargo de chefe máximo do executivo, alguém que foi declarado inapto para exercer uma função pública? Seríamos motivo de chacota no mundo inteiro, ou, como diriam os uruguaios, no universo inteiro. Assim, em hipótese alguma poderíamos correr o risco de fazer duas votações.

Essa foi a sacada de quem estende do riscado. Se as penas são autônomas... É claro que, après coup, tudo fica muito mais fácil. Mas a verdade é que nos falta um senador brilhante.

* * *
Até onde eu pude entender, "destaques" são rotineiramente realizados no decorrer dos trabalhos legislativos e dizem respeito às proposições. Mas na sessão do dia 31 o destaque incidiu sobre o próprio texto da Constituição. A coisa foi tão feia, mas tão feia, que até o Jô Soares ficou indignado.

* * *
Segundo Roberto Ribeiro, consultor legislativo do Senado, o assunto é "bastante polêmico" por conta da redação do dispositivo constitucional, que é "dúbia".

Se ao excelentíssimo consultor for oferecido um pão com ovo, ele dificilmente aceitará que seja contrariada sua expectativa de encontrar, dentro do pão, um ovo. Mas quando o assunto é "perda do cargo com inabilitação", tudo fica dúbio, é claro...
* * *
No fim das contas, os mesmos políticos entregaram a cabeça de Dilma numa bandeja não querem nada além de se safar das investigações. Dá-me um foro privilegiado e eu te darei as estrelas.

31.8.16

Dura lex, sed lex?

Art. 52. Compete privativamente ao Senado Federal: I - processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República nos crimes de responsabilidade, bem como (...)

Parágrafo único. Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como Presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis.
Dura lex, sed lex.

A não ser, é claro, no Brasil. A lei é até bastante clara, bem redigida, mas... e daí?

Houve até um lindinho alegando que a continuação do julgamento de Collor, mesmo após sua renúncia, foi uma admissão de que a pena de inabilitação seria "acessória" em face à perda do mandato. Ora, não teria sido precisamente o contrário? Collor, ao renunciar ao mandato no meio de seu julgamento, é que queria separar (artificialmente) as penas às quais estaria sujeito: renunciando, ele perderia o mandato, mas não a habilitação a candidatar-se a um cargo público. Ao prosseguir com a votação do impeachment, o senado não estava se decidindo a votar um tópico em separado, mas, ao contrário, rejeitando uma separação artificiosa e ilegítima tentada pelo então Presidente.

Eu só não entendi por que não foi pedido um segundo destaque, referente a este trecho: "sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis". Se esse segundo destaque fosse votado em favor de Dilma Rousseff, ela não apenas poderia ocupar cargos públicos, mas estaria livre de todas as conseqüências judiciais de seus atos na presidência. Não seria o máximo?

No Brasil, dura lex, sed lex só vale para a senzala.


31.7.16

febeapá 1: the libertarians

O pensamento, dizia Henri Bergson, deve adequar-se ao seu objeto como uma roupa feita sob medida. Inimigo das idéias prontas (prêt-à-porter), Bergson exigia, para cada novo objeto de estudo, um renovado esforço de pensamento.

Por exemplo, se tomarmos como objeto de análise a repressão ao doping no esporte, compará-la com a "guerra às drogas" não é um bom ponto de partida. E criticá-la em nome da autonomia do paciente perante seu médico tampouco é um bom ponto de chegada.

Não é a primeira vez que Hélio Schwartsman critica, na Folha de São Paulo, a proibição do doping no esporte.(1) Também não é a primeira vez que ele menciona o livro Testosterone Dreams, de John Hoberman.

Não é que os argumentos libertários (no sentido norte-americano do termo) do colunista sejam ruins neles mesmos. O problema é que, aplicados ao objeto em questão, eles acabam contradizendo a si mesmos. E isso não é pouca coisa, especialmente se considerarmos que Hélio Schwartsman acusa os argumentos a favor da proibição de estarem amparados em "bases frágeis".

Quando um paciente diz ao seu médico que, por temer os efeitos colaterais do tratamento, ele não tomará um determinado remédio, ou o tomará em dosagens menores, é preciso respeitar sua decisão.

E se um indivíduo decide beber até morrer, podemos oferecer-lhe ajuda e tentar demovê-lo de sua decisão, mas não podemos impedi-lo.

No caso do doping, entretanto, as coisas se passam de maneira totalmente diferente. É também em nome da liberdade que Hélio Schwartsman defende o direito daqueles que querem fazer uso de substâncias proibidas no esporte. O problema é que, nesse caso, a liberdade (autonomia) de uns implicaria necessariamente o constrangimento (a perda de autonomia) de outros. Defender o direito daqueles que querem drogar-se para melhorar seu desempenho numa competição implica em subtrair dos demais competidores (que queiram permanecer competitivos) o direito de não usar drogas.

Por fim, desse equívoco lógico acaba derivando um deslize ético. Diz o autor:
No fundo, o movimento antidoping se assenta mais num sentimento moralista, que busca uma suposta pureza no esporte, do que em bases racionais.
Vemos que Hélio Schwartsman descreve seus adversários como pessoas que, incapazes de apresentar argumentos, defendem sua causa com base num mero "sentimento moralista". Esse recurso é uma espécie de doping argumentativo destinado a constranger o leitor: se você não aceita minhas razões, é porque você não passa de um conservador irracional em busca de uma ilusória pureza...(2)

Esta é a primeira postagem da série Febeapá. Estão previstas ao menos mais duas. Go, Usain Bolt!


__________

(1) Hélio Schwartsman. Veto a doping tem bases frágeis. Folha de São Paulo, 27/07/2016.
(2) Mais ou menos como o General Ripper do filme de Stanley Kubrick: Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964.


17.7.16

tempos modernos

A história da humanidade é uma história de luta por valores, pelo processo de dar significado à vida e ter hegemonia e controle sobre esse significado. E a chance... ainda é promover um diálogo multicultural e respeitoso entre as diferentes civilizações e os significados que cada uma dela (sic) dá à ideia de dignidade, construindo, de forma lenta e gradual, um sistema internacional de respeito aos direitos humanos.(1)
Façamos uma leitura atenta do trecho acima. Se aquilo que é enunciado na primeira frase (grifada por mim) corresponde à realidade, então é óbvio que dificilmente chegaremos ao desejável desfecho enunciado logo em seguida. Quem quer "luta", "hegemonia" e "controle" não está aberto a negociações.

Este é apenas mais um exemplo da confusão reinante. Sim, precisamos desesperadamente de uma idéia de cultura que transcenda a facticidade das diversas culturas, mas essa idéia jamais será gerada por uma espécie de consenso "lento e gradual" entre essas culturas. Ao contrário, é preciso inventar um novo conceito de cultura que se imponha em virtude de sua própria potência, e que, inversamente, não possa ser negado senão por aqueles que fazem apologia da escravidão política.

Corolário: as concepções correntes o multiculturalismo "de esquerda", a alta cultura "de direita" estão, ambas, condenadas ao fracasso. Ainda que cada uma delas possa encerrar, por assim dizer, uma verdade parcial, elas são impotentes para equacionar e resolver o problema.


(1) Leonardo Sakamoto. UOL, 15 de julho de 2016.


12.7.16

Cultura e política (4)


Prometer soluções políticas para problemas que só se resolvem no plano da cultura: não temos idéia da dimensão desse erro atroz, pois sequer sabemos ao certo o que é cultura.


12.5.16

Karl Marx e o impeachment


Um dos argumentos mais repetidos pelo PT contra a condenação de Dilma Rousseff por crimes de responsabilidade baseia-se na ocorrência de 'pedaladas' fiscais em governos anteriores.(1) Esse discurso apela ao nosso mais elementar senso de justiça: se os coleguinhas FHC e Lula também 'pedalaram', e nem por isso ficaram de castigo, por que apenas Dilma teria de ser punida?

Mas as pedaladas de Dilma foram muito maiores do que as pedaladas dos presidentes anteriores, disse o Banco Central.(2) Na verdade, elas foram gigantescas, e duraram muito mais tempo.(3) No entanto, para o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), José Eduardo Cardozo, isso não muda nada. "Quantidade maior não altera a natureza do crime", diz ele. "Homicídio pode ocorrer com uma facada ou dez."(4)

Homicídio? Número de facadas? Mas não se trata de julgar um suposto crime de responsabilidade relacionado ao manejo de recursos públicos? Não seria, portanto, mais interessante buscar uma referência na ciência econômica? E então? Muito dinheiro, pouco dinheiro, isso faz diferença?

Quem nos fornece uma resposta é Karl Marx, e não num escrito de juventude ou num manuscrito obscuro, mas em sua obra mais célebre e mais importante: "Aqui, como nas ciências naturais, confirma-se a lei constatada por Hegel em sua Lógica, lei de acordo com a qual simples mudanças quantitativas, desde que atinjam um certo grau, conduzem a diferenças qualitativas."(5)

Nesse texto, que pode ser consultado na imagem abaixo, Marx refere-se às condições sob as quais o dinheiro, tendo extrapolado certos limites, muda de natureza e se converte em capital. E se aplicarmos essa "lei" ao caso brasileiro, será perfeitamente possível afirmar que a gritante diferença quantitativa (não só no montante dos recursos, mas no tempo decorrido) transformou as simples "pedaladas" dos governos anteriores em algo qualitativamente diferente, algo que o procurador do Ministério Público no Tribunal de Contas chamou de "contabilidade destrutiva".(6)

É uma boa tese? Acredito que sim, mas isso não importa. Cabe ao Senado julgar. Mas seria divertido ver ao menos um dos senadores apresentá-la quando o mérito da ação do impeachment começar a ser julgado. Todo mundo já sabe que o petismo acabou se convertendo num vulgar populismo à moda latino-americana. Mas demonstrar que o petismo, em questões teóricas, chega a ser antimarxista, isso não tem preço...




REFERÊNCIAS

(1) Dilma diz que 'não sobraria ninguém' no país por 'pedaladas fiscais' (Folha de São Paulo)
(2) Pedaladas fiscais dispararam sob Dilma, diz relatório do Banco Central (Folha de São Paulo)
(3) Pagamentos de pedaladas somam R$ 72,4 bilhões em 2015 (Folha de São Paulo)
(4) ‘Quantidade maior não altera natureza do crime’, diz Cardozo sobre pedaladas (O Globo)
(5) MARX, Karl. Le Capital, I-3-XI, IN Oeuvres, Économie I, Paris, Gallimard, 1965, p. 845.
(6) Roda Viva | Júlio Marcelo de Oliveira | 09/05/2016 - YouTube


Marcadores: , , , , , , , ,

27.4.16

uns e outros

Quem viveu a virada do milênio sabe do que eu estou falando: na passagem da conexão discada para a chamada conexão de "banda larga", as empresas de telefonia inventaram, para fins de marketing, algo que na realidade nunca existiu: os planos de Internet "ilimitada".

Todos os planos da chamada "banda larga" são (e sempre foram) limitados pela velocidade de conexão.

A quantidade de dados circulando pela Rede aumentou (e continua aumentando) de forma exponencial? Sem dúvida. Só que o consumidor, por conta disso, tem pago (e continua pagando) para poder atualizar seu hardware e assim dar conta da produção, da recepção e do armazenamento dessa quantidade de dados cada vez maior.

E as empresas de telefonia? Também estão atualizando seu hardware? Estão negociando com os provedores de conteúdo "pesado" (vídeo, jogos online, Netflix) uma contribuição, possivelmente temporária, que lhes ajude a fazer esse investimento? Ou querem apenas resolver as coisas da maneira mais "simples": fazendo a corda arrebentar, como sempre, do lado mais fraco? E aqui eu me refiro literalmente ao lado mais fraco, àqueles que não podem se dar ao luxo de "pagar pelos dados".

Mas o que realmente surpreende é que a coisa toda não se resuma a um simples e talvez previsível problema de ganância empresarial. A julgar pela primeira declaração do presidente da Anatel (que depois foi forçado a recuar), estamos sendo testemunhas de uma política pública de desinformação e "deseducação" da população mais pobre. Se começarmos a juntar as peças do quebra-cabeças (entre as quais está a desastrosa mudança curricular proposta pelo governo), veremos que essa hipótese pode ser algo mais do que uma vã "teoria da conspiração". Podemos efetivamente estar diante de um plano deliberado e multifacetado para diminuir a qualidade da informação e ao mesmo tempo restringir a liberdade de produção e de acesso à informação. Produzir uma nação de imbecis talvez seja interessante para uns e outros.


16.4.16

A proposal concerning the duration of copyright

Foi atualizado ontem o documento PDF onde proponho uma modificação da lei de copyright. Não custa lembrar que esse texto desenvolve uma idéia que já havia sido postada aqui.

14.4.16

A lanterna de Diógenes

Ligo a TV e presencio uma espécie de consulta espiritual. Uma criança teve dor de barriga. Ela havia ganho uma boneca de sua tia. Essa tia, explica a religiosa na TV, usou a boneca para fazer mal à sobrinha. Não se pode afirmar que queria matá-la, mas... ela certamente queria lhe fazer mal.

Vou para a Internet. No canal do STF, o ministro Barroso está dizendo que, num problema de tamanha envergadura (o impedimento do chefe de um outro poder) não pode haver interna corporis. Se é assim, concluo, é bastante provável que concedam ao legislativo alguma autonomia; mas só quando o assunto for de menor importância.

O que esperar de um país onde um supremo magistrado sofisma e uma religiosa joga irmã contra irmã (literalmente) em plena TV aberta?


6.4.16

From birth to freedom

A proposal concerning the duration of copyright

The copyright law conciliates two essential rights: the right of the creators of intellectual works and the right of the public to freely enjoy, after a certain amount of time, such works. However, it seems that the copyright law was implemented in a way that produces inequality…


Enquanto os congressistas contabilizam votos, obras, cargos e, claro, la platita, otários como eu fazem, de graça, um tanto do trabalho que eles deveriam estar fazendo. Tive de correr um pouco para publicar o texto ainda hoje, dia em que se comemora o aniversário de 120 anos da primeira olimpíada moderna. Não entendeu? Então leia o arquivo PDF que está disponível aqui.

31.3.16

os velhos e os jovens


Há mais ou menos um ano dei uma olhada no Facebook de um amigo (eu não tenho Facebook) e vi as postagens de um sujeito que cheguei um dia a conhecer. Numa das postagens ele chamava os manifestantes de fascistas. Na postagem seguinte, ele dizia que deviam ser fuzilados... Fiquei atônito: o cara é inteiramente incapaz de refletir a respeito de seus próprios pensamentos; ele não sabe o que diz. Fascista quem?

* * *

A narrativa dos governistas é preocupante. Eles não apenas vendem a imagem de que são "defensores da democracia", mas a imagem de que seriam os exclusivos defensores da democracia. Ao fazer isso, ao reservar para si a totalidade do campo democrático, a narrativa governista expulsa todas as opiniões contrárias para um suposto campo antidemocrático. Aqueles que vão às ruas apoiar as investigações são golpistas e mesmo (hoje Dilma finalmente empregou a palavra) nazistas: Sérgio Moro com o bigode de Hitler.

Essas narrativas são criminosas. Elas acabam fomentando (compreensivelmente, a meu ver) o ódio do campo antigovernista, que não parece disposto a perdoar a quebra da maior empresa nacional, o desvio de enormes somas de dinheiro público para financiamento de campanhas, o aparelhamento e uso indevido da máquina estatal, a maquiagem de contas públicas, o chamado 'estelionato eleitoral' (reconhecido publicamente por Lula) e as reiteradas tentativas de obstrução da Justiça.

Mas o ódio dos antigovernistas é o de menos: quem liga para alguns xingamentos? As maiores vítimas da narrativa governista (se é que podemos realmente falar de 'vítimas' nesse caso) são os próprios simpatizantes do governo, que estão sendo convocados para a "luta". Mas... Luta contra quem? Contra o Ministério Público; contra a Polícia Federal; contra a Lava Jato; contra a maioria do povo brasileiro. Quem sabe de que será capaz aquele que "luta pela democracia contra os golpistas", se todos os seus "inimigos" são a própria "encarnação do mal"?

* * *

Os governistas ainda não perceberam, ou não quiseram perceber, que nas últimas manifestações, as maiores de todas, havia vários simpatizantes e ex-simpatizantes da esquerda.

* * *

Neste dia 31 de março, torço para que os militares se limitem a cumprir suas atribuições: vigiar bem nossas fronteiras.

* * * 

Os velhos roubam, corrompem, se drogam, contratam putas e putos; mas os jovens, esses otários que se iludem com qualquer discursinho inflamado, é que acabarão apanhando. Ou morrendo. E vocês acham que os velhos se importam?

* * *

E já que mencionaram o nazismo, não custa lembrar os dois traços que caracterizaram a ascensão do nazismo na Alemanha: a propaganda mentirosa e o uso da violência.


24.3.16

não tem preço

Uma resma de papel para imprimir um processo: 20 reais
Dez litros de gasolina para prender um acusado: 35 reais
Descobrir a verdade e promover a justiça: não tem preço

20.3.16

caiu a farsa

Quem confunde as manifestações pelo impeachment com as Marchas para Jesus (e assemelhadas) não merece nem mesmo ter o nome mencionado.

Caiu a farsa: no quesito "elite", há um empate técnico entre os manifestantes a favor do governo e os manifestantes contra o governo.

O diretor José Padilha deu uma entrevista à VEJA sobre a Lava Jato. O homem é de esquerda, o veículo é de direita e a entrevista é imperdível.

Há gente que ocupa altos cargos no governo escrevendo para os jornais e ameaçando os brasileiros com uma guerra civil. Nunca imaginei que alguém fosse capaz de ir tão longe descer tão baixo apenas para escapar da cadeia.

18.3.16

18 de março de 2016

17 de março de 2016: Lula vira ministro e já começa a mobilizar seus aliados

ADENDO (18 de março de 2016, 20:45h)

eXTReMe Tracker