7.11.18

um raro acontecimento

Em janeiro de 1941, Bergson chamou um padre católico para oficiar sua extrema-unção e, embora fosse judeu, foi atendido. Em outras circunstâncias, ele já teria se convertido ao catolicismo há tempos; mas isso era absolutamente impensável justamente numa época em que seu povo estava sendo perseguido com crescente ferocidade.

Não sou judeu nem católico, mas ateu: talvez a minoria mais universalmente desprezada. Mesmo os chamados "progressistas", aparentemente tão ciosos dos direitos das minorias, são capazes de usar o ateísmo como peça de acusação.

Eu poderia facilmente declarar-me teísta invocando, por exemplo, o Deus de Spinoza, natura naturante. Mas isso, a meu ver, seria hipocrisia. O Deus dos filósofos e o Deus das religiões são tão diferentes que, ao sugerir que acredito em Deus, eu estaria, a rigor, enganando as pessoas que desconhecem essa diferença. Seria fácil, seria cômodo, seria hipócrita. Ao contrário do que as pessoas imaginam, ateus podem ser extremamente rigorosos em questões éticas e são capazes de colocar, se necessário, uma decisão ética acima de seus interesses mais elementares. Assim, mais do que por uma convicção sem nuanças, é por solidariedade com a mais desprezada das minorias que me declaro ateu.

* * *

Sempre fui estúpido demais, ou iluminado demais, ou ambos, para sentir qualquer tipo de preconceito. Meus colegas de escola me zoaram porque a primeira garota que beijei (tínhamos 11 anos) era "a filha da lavadeira". Aquilo, para mim, mal fazia sentido. Pensem bem: o que vocês esperariam de um menino que, aos 9 anos de idade, via na TV monges budistas ateando fogo ao próprio corpo enquanto cuidava da mãe com câncer terminal? Vocês esperariam que ele se importasse com a classe social da namoradinha? Com a cor de sua pele? Com diferenças de gênero, religião ou comportamento sexual? Àquela altura, se diferença havia, era entre minha mãe, cuja dor só a morfina aplacava, e aqueles monges que arderam até a morte sem mover um músculo.

* * *

Compreende-se que alguém com esse histórico tenha estabelecido para si mesmo, mais ou menos confusamente, a meta de descobrir o sentido da vida. Posteriormente compreendi que "descobrir" não era um termo preciso, pois era necessário muito mais do que isso, era necessário inventar, por minha própria conta, o sentido da vida: mais ou menos como alguém que reinventa a roda.

* * *

Não sei se o leitor consegue avaliar a intensidade com que a fala de Haddad me embrulhou o estômago. Eu só não abordei esse tema antes das eleições porque meus leitores poderiam concluir que eu estava apoiando o outro candidato, e eu não estava. Mas o fato é que a reação do "democrata" Haddad, aliás doutor em Filosofia, o "mais tucano dos petistas", veio colocar uma última (e pesada) pedra sobre um tema que já me fazia refletir há algum tempo. 

 Clique para ampliar. Fonte: Daniel Weterman (O Estado de São Paulo)

Há quem diga que nossos "progressistas" não estão e jamais estiveram de fato preocupados com as pessoas que dizem defender, e que eles seqüestraram pautas perfeitamente legítimas (como, por exemplo, os direitos das minorias) e as puseram a serviço de um projeto de poder. Com efeito, isso explicaria a arrogância de Haddad e a incrível facilidade com que ele foi capaz de fomentar preconceito religioso dentro de uma igreja quando isso lhe pareceu politicamente vantajoso.

Seja como for, eu, que me declaro ateu e já fui xingado de "iluminista" (outra minoria?) dentro de uma Universidade, sou, evidentemente, favorável à defesa dos direitos de minorias, etnias, mulheres e desfavorecidos. Mas a verdade é que essas pautas (legítimas, repito) acabaram monopolizando a vida acadêmica nas áreas de humanas, e a Universidade acabou tornando-se um lugar tóxico e totalmente hostil ao debate pluralista.

O mecanismo de conversão é simples: constrangimento moral. Se você não adere integralmente à "causa", se você insinua que também é preciso dar atenção a outros problemas (como, por exemplo, o estúpido problema do sentido da vida), então você só pode ser racista, sexista, fascista, homofóbico. Não havia isso na minha época de estudante. Era um tempo em que você podia escrever um trabalho sobre Nietzsche para um professor marxista e ganhar nota 10.

Não estou defendendo aqui nada semelhante a um controle ideológico da Universidade. Não estou defendendo controle algum. Não estou propondo a troca de um livro sagrado por outro. Leandro Konder, o professor a quem me referi no parágrafo anterior, não me deu nota 10 porque alguma regra o obrigava. Ele o fez porque era digno e porque respeitava o livre debate de idéias. Isso acabou. Hoje, brutalidade e cinismo se enfrentam abertamente; e o barulho incessante (de lado a lado) termina por arruinar o silêncio que permitiria esse raro acontecimento que é pensar.


31.10.18

postagem aleatória XS0891

30.10.18

Uma última palavra sobre a Folha de São Paulo

Antes que algum iluminado estabeleça uma relação entre minhas recentes críticas à Folha e as críticas do presidente eleito ao mesmo jornal, não custa esclarecer que:

(1) Eu costumo criticar bobagens urdidas no executivo, no legislativo e no judiciário, e não vejo razão para não criticar bobagens que leio na imprensa.

(2) Boa parte de minhas críticas à imprensa sempre se dirigiu à Folha (ou aos seus colunistas) porque é o jornal que mais leio e o único de que sou assinante.

(3) Sei ler um jornal e o notório viés político da Folha nunca me incomodou (a não ser, claro, quando assumia um viés explicitamente antidemocrático). Por incrível que pareça, o que acabou acendendo um sinal de alerta foi a sistematicidade com que o jornal "esconde" o clube de futebol mais querido do Brasil. Por várias vezes, fui forçado a pesquisar o jornal para achar uma matéria sobre uma vitória do Flamengo, clube que só aparece na página de resultados quando não vence.

Posso entender que um jornal combata um líder político que detesta. Mas há obviamente algo muito errado num jornal capaz de comportar-se desse modo com o clube de maior torcida do Brasil e, possivelmente, do mundo. Afinal, aqui o problema deixa de ser político e torna-se eminentemente ético. Sei muito bem que sempre foi difícil achar um jornal guiado por pautas, e não por agendas; mas nunca vi, num grande jornal, uma agenda tão esdrúxula quanto essa, e que me deixasse tão desconfiado acerca da suposta "grandeza" de um veículo de comunicação.


P.S.: Não, eu não cancelei minha assinatura da Folha nem estou exortando ninguém a fazê-lo. Uma imprensa meia-boca é sempre muito melhor do que imprensa nenhuma. Bolsonaro sequer foi empossado e já está dando uma de petista.

25.10.18

Pink que te quero pink


Duas horas de show e um telão enorme

que não mostrava Manuel Bandeira

ou Manoel de Barros,

ou Spinoza

ou Nietzsche,

porém

frases e mais frases de Donald Trump

chovendo no molhado da repetição do mesmo dementado que já se viu na TV.



Independentemente de suas convicções políticas, que nem estou pondo em questão,

Roger Waters deveria estudar um pouco.

A borboleta é uma cor que voa

bem mais lindamente que seus porcos.

22.10.18

Por que a Folha de São Paulo esconde o Flamengo?


Já comentei esse tema aqui no blogue e continuei reunindo, ao longo dos anos, algumas provas de que a Folha de São Paulo, deliberadamente, "esconde" o Flamengo sempre que pode. Agora, porém, a coisa ficou tão escancarada que eu não posso deixar de comentar, por uma última vez, esse assunto.

Quem está acompanhando, mesmo que de longe, como eu, o campeonato brasileiro, sabe que o Flamengo subiu ontem para a segunda posição, estando dois pontos acima do terceiro colocado, o Internacional. E o título da matéria da Folha de São Paulo diz que o Palmeiras ampliou a vantagem... sobre o Internacional?

Notem que a manchete não é falsa. Desinformar não é (necessariamente) divulgar inverdades. De fato, o Palmeiras ampliou a vantagem sobre o Internacional, assim como ampliou a vantagem sobre o Flamengo e, enfim, sobre todos os demais clubes que disputam o campeonato. Mas quem está em segundo lugar é o Flamengo e, por óbvio, é o Flamengo que deveria ter sido mencionado na manchete.

O corpo da matéria, como não podia deixar de ser, menciona (duas vezes) que o Flamengo é que está em segundo lugar, mas só sabe disso quem lê a matéria. Quem apenas passou os olhos pelo título foi desinformado e deve estar até agora pensando que Palmeiras e Internacional estão liderando o campeonato. E a verdade é que, mesmo que ganhe o difícil jogo de hoje contra o Santos, o Internacional ficará apenas um ponto à frente do Flamengo.

A conclusão é ineludível. A Folha de São Paulo, de forma deliberada e sistemática, faz o máximo para ocultar de suas manchetes o Flamengo e tudo que diz respeito ao clube. Há uma única exceção a essa regra: quando há uma notícia negativa sobre o clube, como uma derrota, o Flamengo subitamente ganha destaque nas manchetes.

Se eu realmente acompanhasse futebol e lesse a seção de esportes da Folha com assiduidade, seria capaz de escrever um livro inteiro sobre o assunto. Jamais escreverei esse livro, mas deixarei aqui a dica. O tema daria um "estudo de caso" interessantíssimo, pois não apenas diz respeito ao clube mais querido do Brasil, mas também ao provincianismo, à parcialidade e, enfim, à má-fé de um dos mais importantes jornais brasileiros. Já imagino até o título da dissertação: "Varrendo as massas para debaixo do tapete: um caso de desinformação deliberada na imprensa brasileira".



NOTA: Internacional e Santos empataram e, apesar da torcida da Folha (último parágrafo do texto), o Flamengo continua, como ontem, em segundo lugar no Campeonato Brasileiro.

NOTA 2 (27/10/2018): Cinco dias depois, o Internacional tem um jogo a mais (31) do que o Flamengo (30) e até empatou em número de pontos (58), mas, ainda assim, o Flamengo continua na frente com uma vitória a mais e 7 gols de vantagem no saldo. Ao que parece, os fatos resolveram aplicar uma surra descomunal na torcida da Folha.

NOTA 3 (03/11/2018): Duas semanas inteiras se passaram e todos os clubes mencionados continuam ocupando as mesmas posições na tabela. Que chato, não?


18.10.18

O cara da Folha pediu e eu, alegremente, dei (ou: da filosofia como arte de aborrecer a tolice)


Como ensinou Bergson, liberdade não é um mero escolher entre opções previamente definidas. É claro que o voto, esse pequeno naco de liberdade que lhe concedem, pode ser, para o homem das ruas, tudo que ele tem para exprimir sua vontade política. Assim, se é preciso afirmar que é enganoso reduzir a compreensão do conceito de liberdade à simples "liberdade de escolha" entre opções determinadas de antemão, é preciso afirmar também, e ao mesmo tempo, que a liberdade de escolha (materializada no voto de todos os cidadãos) é um dos fundamentos do regime democrático.

No segundo turno de uma eleição presidencial, embora sejam dois os candidatos, não tenho apenas duas opções. Em linguagem filosófica, o terceiro excluído vale para o resultado das eleições, mas não para o meu voto; pois está em meu poder recusar os dois candidatos e não votar em nenhum. Vale lembrar que, num segundo turno, votos brancos e nulos não favorecem ou prejudicam nenhuma candidatura, pois não são levados em conta.

Não fosse trágico, seria cômico observar a sanha acusatória de alguns articulistas da imprensa brasileira contra os eleitores que anulam o voto. Estes são acusados de compactuarem, entre outras coisas, com a destruição do meio ambiente e com a tortura.

Essa aisance em lançar mão de chantagem (tortura?) moral é, por si mesma, reveladora.

Não quero compactuar com a tortura. Não quero compactuar com o crime organizado. Não quero compactuar com seja lá o que for, e a anulação do meu voto exprime precisamente essa recusa. Negar-me esse direito equivale a privar-me da já minúscula parcela de liberdade que me cabe numa eleição. O que haveria de mais autoritário que isso? Como poderia acusar-me de um defeito moral alguém que de antemão nega minha liberdade? Não posso ser forçado a escolher uma das duas opções e ainda imaginar-me minimamente livre. Se assim fosse, deveríamos dizer livre o homem a quem demos o direito de escolha entre ser fuzilado com uma venda nos olhos ou sem ela.

Não consigo impedir-me de sentir, num momento como este, um imenso orgulho de ter dedicado a Henri Bergson uma boa parte de minha juventude: justamente um filósofo odiado tanto pela esquerda (que o acusava de "místico" e "espiritualista") quanto pelo conservadorismo (a Igreja Católica incluiu, já em 1914, suas principais obras no Index Librorum Prohibitorum.) Não custa lembrar que Bergson esteve "do lado certo da História" quando foi preciso e numa situação em que havia, de fato, um lado certo da História.(1)

Aproveito para lembrar que a neutralidade partidária e o voto nulo de um eleitor são coisas bem diferentes. Um partido só tem a ganhar com a neutralidade. O eleitor, ao contrário, arrisca-se a ser odiado pelos dois lados, a ser tachado de omisso e até a ser perseguido em seu local de trabalho. Não estou em cima do muro, como alguns partidos políticos; estou, na verdade, acima do muro. Se os dois lados da disputa são chamados (e com razão) de autoritários, é porque eles trabalham por um fechamento; ao passo que eu, como filósofo, trabalho por uma abertura. Não vou dar meu aval a gente que defende, conforme o caso, a tortura ou a apropriação de um país por um partido político. Mas se as urnas decidiram que é isso que temos para hoje, então façam suas campanhas, defendam suas idéias e tentem, por favor, não matarem uns aos outros. Mas tampouco neguem a ínfima margem de liberdade que me resta, pois, ao fazê-lo, vocês estarão negando a própria democracia.

E isso, claro, é coisa de fascista.




(1) SOULEZ, Philippe. Bergson politique. Paris, PUF, 1989.

9.10.18

rumo ao futuro 2

Estou há dias esperando a repercussão da matéria The Big Hack na imprensa brasileira. Ainda não vi absolutamente nada.

A reportagem, publicada pela Bloomberg Businessweek no dia 4 de outubro, revela que a Supermicro (Super Micro Computer Inc.), uma gigantesca fabricante de placas-mãe para servidores, introduziu um minúsculo chip em placas fornecidas para o mundo todo e que teriam ido parar, por exemplo, nos servidores da Amazon e da Apple. Menores do que a ponta de um lápis, esses chips são capazes de baixar código executável e de "preparar o sistema operacional do dispositivo para aceitar esse novo código".(1)



Note, na ilustração acima, que o chip sequer tem a aparência de um chip, e apresenta-se, por assim dizer, disfarçado de conector (como aquele usado no BIOS). Todos os envolvidos negam as informações, mas há uma investigação sigilosa em curso e 17 fontes anônimas teriam confirmado tudo.

Os detalhes dessa notícia são tão graves e escabrosos que eu vou parar por aqui: detesto sensacionalismo, sobretudo quando baseado (ainda) em especulações. Mas a imprensa brasileira, que ganha para informar, decidiu fazer a egípcia.

Compreende-se; um ataque via hardware dessas proporções é uma notícia desagradável para os defensores das urnas eletrônicas.

Não, os chineses não estão manipulando nossas urnas e, muito provavelmente, ninguém está. Mas, entre o cinismo de uns e a paranóia de outros, há espaço suficiente para uma reflexão coletiva bem urdida e uma correção de rumo para as futuras eleições. Se realmente queremos ser uma das maiores democracias do mundo, temos de avaliar exaustivamente essa escolha em particular.



(1) The Big Hack: How China Used a Tiny Chip to Infiltrate U.S. Companies

 

6.10.18

um simples comentário

Postei um comentário ao texto "Gastronomia brasileira reflete um país tosco", publicado por Marcos Nogueira, em que este se queixa da falta de educação generalizada do paladar do brasileiro. Cito um trecho:
"O brasileiro vive na ilusão de que é um abençoado, mais sagaz e criativo do que os outros povos. Em seu mundinho paralelo, essa esperteza lhe basta para queimar etapas. Estudo? Pesquisa? Não, a fé nos levará à vitória. Haja autoconfiança."
Meu comentário não apareceu na página porque foi submetido à moderação da Folha de São Paulo:
Sabemos ler o texto alheio, ou seja, ler o outro e compreendê-lo? Sabemos detectar o texto mal escrito, ou diferenciar o bem escrito do simplesmente correto? Sabemos analisar uma pintura ou uma foto? Não conhecemos nem mesmo os nossos sentimentos, dos quais derivam nossas ações. Bem-vindo à realidade, amigo. Quem não produz a si mesmo (por exemplo, quem não cozinha sua própria comida e não inventa suas próprias idéias) está condenado a vagar como um fantasma, a mendigar amor, a dar ouvidos a idiotas e a comer porcaria. Um forte abraço.



Atualização (08/10/2018, 22:40): O texto acabou não sendo publicado, mas na Folha isso acontece bastante. Enfim, era só um comentário...

5.10.18

A Hidra de Lerna contra a Mula sem Cabeça

Posso estar errado, mas continuo achando, quatro anos depois, que Marina Silva teria feito um bom governo (certamente não seria o desastre que foi o governo Dilma II). E eu posso estar, mais do que errado, delirando, mas vejo em Marina Silva muitas das qualidades que vejo em Fernando Gabeira.

Noves fora, Gabeira é o político brasileiro que eu mais admiro. Foi às últimas conseqüências na juventude, envelheceu com sabedoria e teve coragem para revelar uma verdade desagradável sobre nossos democratas. Entendeu que o binômio totalitarismo/democracia é muito mais importante do que o cansativo direita/esquerda. E, como se tudo isso não bastasse, é o político que tem a filha mais bacana.
* * *

Meu cérebro tem dois hemisférios, esquerdo e direito, mas fica bem no centro de minha cabeça.

* * *
Desta feita, o centro derreteu. Querem me empurrar goela abaixo um dos mais formidáveis encontros mitológicos das modernas democracias. Como diria Bartleby, I would prefer not to.


3.10.18

rumo ao futuro

Tornou-se mais fácil ameaçar os habitantes das comunidades mais vulneráveis de todo o país, sobretudo em áreas dominadas pelo crime organizado. Na época do voto manual, apenas os mais ingênuos acreditariam que o crime conseguiria identificá-los por meio de garranchos num pedaço de papel; agora, com a urna eletrônica, é muito mais fácil fazê-los acreditar que seus votos poderiam ser rastreados e descobertos.

Enquanto na Alemanha as urnas eletrônicas foram declaradas inconstitucionais, aqui é a impressão do voto que é tida como inconstitucional.

Eu compreendo que o TSE defenda o sistema atual com unhas e dentes e compreendo que seus textos se assemelhem a campanhas publicitárias. Administrar sistemas informáticos é muito mais divertido do que ficar contando uma inimaginável quantidade de papéis. É preciso admitir que as urnas eletrônicas são mais modernas e excitantes do que o sistema manual. Só não servem para a democracia, como explicou com suprema simplicidade o Tribunal Constitucional Federal alemão; mas, aqui, quem se importa?

Não estou dizendo isso para apoiar as teses do candidato A ou B. Não estou pensando no próximo governo, mas nos próximos 100 anos. E estou, claro, aproveitando que ainda é possível mencionar o tema. Em breve (talvez 10 anos?), qualquer declaração que ponha em dúvida a lisura do processo eleitoral será considerada (vejam só) um atentado à Democracia e à Segurança Nacional.

O Brasil pode não ser o "país do futuro", mas está se tornando o grande laboratório das sociedades de controle do futuro. Não conheço outro país do mundo, ou ao menos nenhum país com a importância do Brasil, em que a tecnologia e o autoritarismo estejam a ponto de fazer um encontro tão promissor.

30.9.18

duas fábulas

primeira fábula

Era uma vez uma viúva de meia-idade que tinha uma filha e uma enteada. As duas moças eram razoavelmente bonitas e sonhavam com um bom casamento, como se costumava fazer naqueles dias; mas apenas uma delas sentia-se confiante em seu sonho.

É que a viúva passou anos a fio exaltando a beleza da filha de sangue e depreciando a enteada. Esta, por sentir-se feia, cuidava da aparência com cada vez menos convicção, e por força dos sucessivos descuidos, acabou tornando-se de fato mais feia do que a irmã.

Mas é muito mais fácil mudar um destino individual do que o destino de uma nação. Hoje em dia a irmã "feia" está fazendo mestrado e a "bonita" está apanhando do marido.

segunda fábula

Era uma vez uma nação que tinha professores universitários e os outros. Durante muitos anos, os outros, muitos dos quais eram outras, foram chamados de "tias" e "professorinhas".

(complete a fábula usando suas próprias palavras)

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27.9.18

Adoradores de monstros

Quais são os critérios para a participação de candidatos presidenciais nos debates televisivos? Por lei, os candidatos de partidos que contam com no mínimo cinco parlamentares têm seu direito assegurado; a participação dos demais candidatos é facultativa, ou seja, fica a critério das emissoras de TV (que podem convidá-los mas não são obrigadas a fazê-lo).

Para as próprias emissoras, essa liberdade de escolha é um direito, e não um privilégio; afinal, elas estão cumprindo exatamente o que a lei determina. Mas será que elas imaginaram que revelariam tanto de si mesmas por meio de suas escolhas?

A legenda do Cabo Daciolo não soma o número mínimo de deputados que obriga as emissoras de TV a convidar os candidatos a presidente; no entanto, ele tem sido chamado para a maioria dos debates. Enquanto isso, candidatos muito mais bem posicionados nas pesquisas são sistematicamente deixados de lado.

O que explica a presença de Daciolo em tantos debates? Apresento duas hipóteses concomitantes:

1. As emissoras de TV estão (como sempre) mais preocupadas com o espetáculo do que com o debate de idéias. Por isso elas dão preferência a candidatos folclóricos.

2. Apresentar uma caricatura do conservadorismo é uma maneira de atingir indiretamente a candidatura de todos os candidatos conservadores e, sobretudo, a do candidato que vem liderando as pesquisas.

Ora, é bastante compreensível que as emissoras de TV tentem, desse modo, prejudicar a candidatura de alguém que já ameaçou ao menos uma delas com cortes de verbas. Faz parte do jogo político. Afinal, se elas convidam o Cabo Daciolo e este, em sua ingenuidade, lhes presta de graça esse serviço, tudo dentro da lei, qual o problema?

Muito mais do que qualquer presença, no entanto, é a ausência de convites a um dos candidatos em particular que revela as motivações mais profundas das emissoras de TV brasileiras. Senão vejamos: por que uma emissora de TV alienaria os milhões de eleitores de João Amoêdo, candidato do partido Novo? Gostemos ou não de suas propostas, Amoêdo é um candidato sério de um partido sério; não mereceria ele, em nome da democracia e do debate de idéias, ser convidado?

Afinal, o que explica a ausência de Amoêdo em todos os debates? É bastante simples: boa parte da renda das emissoras de televisão - uma renda segura, constante, praticamente imune aos sobressaltos do Mercado - vem da publicidade paga por empresas estatais. Assim, no Brasil, essa é a voz a ser calada: a dos liberais. Eles não estão propondo um simples corte de verbas que poderia ser revertido no governo seguinte; eles estão se propondo a secar uma das principais fontes da corrupção e do capitalismo de compadrio. Não é por acaso que estamos encarando uma eleição totalmente polarizada entre os conservadores e a esquerda. São todos adoradores do "mais frio de todos os monstros".

Existe simetria entre os dois casos? A meu ver, não. Dar voz a um candidato para explorar sua ingenuidade faz parte do jogo democrático. Manter na sombra uma candidatura relevante (nem que seja pelo seu número de apoiadores) é outra coisa.


Apenas os bergsonianos entenderão, mas paciência: boas idéias duram. Já a vocação de circos, infelizmente, é pegar fogo; muitas vezes com os espectadores dentro. Se as emissoras de TV achavam que seria possível ocultar as reais motivações que as levam a transformar os debates em espetáculos circenses, este pequenino e despretensioso artigo acaba de estragar-lhes o segredo.

2.9.18

Museu Nacional (1818-2018)

28.8.18

sina (versão sem eufemismos)

começam pagando para falar bem









e terminam matando quem fala mal

sina

começam pagando para falar bem









e terminam batendo em quem fala mal

30.7.18

Vamos Arranjar o Resultado?

Antes que se encerre o mês de julho, e com ele a última oportunidade de voltar ao assunto, farei um derradeiro comentário sobre a Copa da Rússia.

O futebol vale pelas belas jogadas e gols. O resultado é o que menos importa, e importa menos ainda quando é grosseiramente manipulado.

* * *

Locutores ingleses foram extremamente severos com a arbitragem em vários lances decisivos da competição. Enquanto isso, a imprensa brasileira tentava justificar o injustificável.

Discutiu-se muito, por exemplo, se foi falta o empurrão (na verdade, foram sucessivos empurrões) do jogador suíço em Miranda. Para mim, está óbvio que Zuber fez falta para ocupar o lugar que estava sendo ocupado pelo defensor, assim como está óbvio que os empurrões foram fortes o bastante para deslocar Miranda. Ninguém jamais disse que Miranda foi agredido.

Mas bastou a FIFA afirmar que o empurrão foi "leve" (um simples "contato") e dois dos maiores jornais do país já passaram a pôr em dúvida a própria existência do "empurrão".



O "empurrão" entre aspas d'O Globo.


O "suposto empurrão" da Folha.


Uma imprensa que se curva tão rapidamente à inverdade dos fatos não inspira nenhuma confiança.

* * *

Já que a FIFA sequer puniu a joelhada nas costas que tirou Neymar da Copa de 2014 (ou o pisão desleal desta Copa), o mínimo que seus dirigentes poderiam ter feito é omitir-se de fazer comentários a respeito do desempenho do jogador.

Somos grosseiros? Eles também. E como.

* * *

Não me canso de espantar-me com a ingenuidade daqueles que perdem tempo discutindo resultados obviamente manipulados. Sim, existe competência, e existe acaso, mas também existe a irresistível tentação de ajudar a produzir o resultado. Um dia a Copa da Rússia de 2018 será conhecida como a Copa em que o VAR foi introduzido para dar à FIFA uma oportunidade extra de manipulação dos resultados.

Assistir a esse tipo de coisa é um preço alto demais a ser pago para vibrar com aquele lance genial que nem sempre vem.


2.7.18

Mesmo caído, Neymar consegue simular um pisão!

Tem um monte de jornalistas repetindo que, no segundo gol, Neymar deu uma "assistência".

Na verdade ele chutou a gol e o goleiro mexicano fez grande defesa, desviando a bola na direção da linha de fundo. Firmino entrou e não desperdiçou.

* * *

Hoje é um dia histórico. A arbitragem da FIFA inventou a figura do pisão legítimo: você pode pisar o jogador adversário caído, desde que não pise com força excessiva. Mas eu estou menos espantado com as decisões da FIFA (da qual nunca esperei nada) do que com o servilismo absoluto da imprensa brasileira. Isso, no entanto, é tema para uma outra postagem.

24.6.18

Dois dedos de futurologia

Na Copa do Mundo de 2038 os jogadores usarão roupas especiais com sensores. Os sensores registrarão os contatos e também a intensidade dos contatos. As pancadas poderão ser objetivamente mensuradas e classificadas de acordo com uma escala, tornando muito mais difíceis as simulações. A dor é subjetiva e, por isso, a correspondência entre a intensidade do contato e a dor jamais será perfeita; mas, com o uso dessa tecnologia, será muito mais difícil fazer drama por causa de um tapinha.

* * *

O VAR é uma boa idéia: toda a imprensa o repete bovinamente. Porém, nas mãos erradas (ou seja, na prática), ele não passa de uma oportunidade suplementar para a manipulação dos resultados.


22.6.18

Malandro mesmo é o Cristiano Ronaldo

Neymar finge tão completamente que seria capaz de fingir até o pênalti que deveras sente.

21.6.18

40 anos depois

O jogo da vergonha aconteceu em 21 de junho de 1978.

Hoje, exatamente 40 anos depois, a seleção do Peru foi desclassificada e a seleção da Argentina foi praticamente desclassificada.

Não foi intervenção divina. É que as Copas são realizadas a cada 4 anos e sempre na mesma época.

Mas que a coincidência foi total e acachapante, isso lá foi.

E lavou a mágoa daquele adolescente que (só agora) deixou para trás aquele jogo vergonhoso.


24.4.18

Todo dia é dia de chimarrão

Considerando-se que sou carioca, tive a sorte de, ainda jovem, ter quem me ensinasse a cevar um chimarrão. Passei a maior parte de minha vida bebendo erva-mate torrada, como é costume aqui no Rio, mas também tomei chimarrão durante longos períodos. O problema é que eu não conseguia encontrar, no comércio local, uma erva que me agradasse de verdade.

Hoje, com a expansão e diversificação do comércio online, as coisas estão bem mais fáceis: posso encomendar, diretamente ao próprio fabricante, toda a erva fresca que eu quiser; além disso, há uma grande variedade de cuias, bombas e acessórios à venda pela Internet. Assim, o que parecia impossível aconteceu: o mate tostado (bebido sem açúcar) saiu de cena, substituído pelo mate verde.

* . *

O autêntico mateador, diz a  tradição, é aquele que não espera a companhia alheia e não vê drama em apreciar solito seu chimarrão. Mas compartilhar é ainda melhor, e todas as manhãs compartilhamos, minha mulher e eu, o primeiro mate do dia. Para nós, todo dia é dia de chimarrão. E graças às dicas do meu amigo Mário Zambonin, já estamos usando cuias novas e bombas de aço desmontáveis, muito mais fáceis de limpar, coisa que antigamente não havia.

Compramos também uma mateira para usar em viagens (ou piqueniques). A mateira é uma bolsa, geralmente de couro, usada para carregar a cuia, a bomba, o chimarrão e uma garrafa térmica. Nossa mateira foi comprada online numa boutique gaúcha, a Barbella: é a bolsa grande com alça que aparece nesta foto. A qualidade do acabamento é tão surpreendente (e o preço tão bom) que resolvi fazer de graça esta pequena e merecida propaganda: justo hoje, Dia do Chimarrão.

7.4.18

A barriga histórica da revista VEJA


Capa da VEJA por volta das 17 horas:



capa da VEJA neste instante:




6.4.18

Exclusivo: o cinema dos condenados na Lava Jato

Depois de uma demora de vários meses e de muita especulação, foi liberada agora há pouco a lista dos 160 filmes apreendidos na "sala de cinema" do ex-governador Sérgio Cabral. Pelo que nossa reportagem conseguiu apurar, alguns desses filmes não exprimem necessariamente a predileção pessoal do apenado, mas fazem parte daquilo que se poderia (pomposamente) chamar de "cinematografia da resistência". Segundo a mesma fonte, que prefere permanecer anônima, vários outros presos da Lava Jato estão interessadíssimos nos filmes dessa lista.

Veja alguns dos títulos encontrados na filmoteca clandestina de Cabral:


Se Meu Financiamento Falasse

Superfaturando na Chuva

A Primeira Mala de um Homem

Usina de 42

Catando Propina Adoidado

Duro de Delatar

Empreiteiro Neurótico, Política Nervosa

Os Sete Tribunais

Seven - As Sete Instâncias Recursais

12 Instâncias e Uma Sentença


4.4.18

desimpedimentos

Um ministro do STF nada deve aos senadores que votaram para que assumisse o cargo. Sua aprovação foi deliberada por meio da soma dos votos dos parlamentares; e porque nenhum dos senadores em particular teria poder para decidir sozinho o resultado, o ministro não deve a nenhum deles, individualmente, nenhum favor.

Mas um ministro do STF não deveria se declarar impedido para julgar uma ação em que esteja envolvido o presidente ou ex-presidente que o indicou diretamente para o cargo? 

É só uma pergunta.


1.4.18

Dia da Pátria

Nada mais apropriado do que um primeiro de abril para comemorar (ou simplesmente memorar, caso jamais venham a ler estas linhas) o encerramento de minhas postagens sobre política no Brasil.

Uma quadrilha relativamente pequena está condenando um povo inteiro a patinhar em berço cada vez menos esplêndido.

Nem mesmo é um script original.

* * *

O mundo de minha infância já não existe. O mundo de minha infância existe em minhas lembranças.

Não existe exílio. O único exílio possível é a perda da memória.

* * *

Só um povo muito burro destruiria quase completamente a capital de seu país. Os chineses fazem exatamente o contrário: edificam cidades históricas inteiras para atrair o turista desavisado.




15.3.18

Um frango, dois frangos, nenhuma pena

Ontem, aos dois minutos de jogo, Messi meteu uma bola entre as pernas do goleiro e todos os comentaristas esportivos entoaram o mesmo discurso que reverbera desde o primeiro grande chute cósmico que gerou o universo: houve uma falha, um frango; goleiros de alto nível não podem cometer erros desse gênero.

Se você nunca teve de aceitar argumentos do tipo "é assim porque é assim", você nunca foi criança; mas se você nunca questionou os consensos herdados, você nunca passou da infância. Digo isto porque o frango, ou pelo menos esse frango clássico no qual a bola passa no vão das pernas do goleiro, é um desses consensos sem nexo.

E, no entanto, é impossível exagerar sua importância na linguagem do futebol brasileiro. Todas as bolas fáceis com que goleiros de todo o mundo fazem a alegria das torcidas adversárias têm por arquétipo a bola vazada por entre as pernas (e dela recebem seu nome); mas ainda que a bola entre as pernas dê seu nome a todo um gênero bastante vasto, o frango par excellence é a bola tomada no vão. É por entre as pernas que o frango insubmisso, avesso à panela, foge quando tentam capturá-lo, e é por entre as pernas que o gol se torna frango.

Mas esperem um momento. Se um frango, bicho de cérebro minúsculo, corre para o vão entre as pernas de seu algoz e (quase invariavelmente) consegue fugir, não seria porque esse espaço é, de toda eternidade, um lugar privilegiado? Não seria ele o ponto cego dos goleiros? Talvez inventem, um dia, um goleiro com braços nas pernas; enquanto esse dia não chega, porém, não seria pedir demais a um goleiro que consiga fechar as pernas (que o sustentam) com mais velocidade do que a bola chutada por seu adversário?

Assim, a não ser que a bola seja lenta (traço característico, aliás, de boa parte dos frangos), a bola tomada por entre as pernas (que, por ironia, é o frango por excelência) não é, afinal de contas, um... frango. Enfiar a bola naquele espaço exíguo requer muita sorte ou muita habilidade, e já chegou a hora de darmos os devidos créditos aos atacantes ao invés de censurarmos os goleiros.

Ontem Messi fez dois gols. O primeiro, por entre as pernas do goleiro.

O segundo também.

21.2.18

malfeitos

o
malabarista
 melindroso
malocou
 a
mala
da
mula
malandra


18.2.18

18 02 20 18

18
02
20
18

14.12.17

Arte e liberdade de expressão (segundo adendo)

Há uma pergunta decisiva que talvez devesse ter sido feita desde o início: a classificação indicativa deriva de uma preocupação puramente "moral"? Teria ela como objetivo apenas proteger a infância do que pode ser considerado "indecente" ou "contrário aos bons costumes"?

Se eu, por um só instante, acreditasse nessa tese, jamais teria perdido meu tempo escrevendo esta série. O que está em jogo aqui é outra coisa, que eu resumiria deste modo: é impossível prever as conseqüências de uma representação ou de uma associação de representações para o psiquismo de uma criança. Obviamente, o que me preocupa não são banalidades como o desenvolvimento de um fetiche ou de um parcialismo, mas associações que possam acarretar conseqüências psicológicas realmente sérias e causar, desde a infância e pela vida adulta afora, um enorme (e desnecessário) sofrimento.

A que tipo de representação me refiro? Entre os exemplos mais cristalinos estão os filmes de terror, particularmente aqueles que associam sexo e violência. A associação se dá, em geral, do seguinte modo: o filme apresenta jovens ou adolescentes que se afastam do controle familiar, indo para uma praia ou uma floresta; o clima é festivo, eles bebem e namoram. Quando, porém, começam a fazer sexo, são interrompidos pela violência mortal e gratuita de um personagem não raro sobrenatural. O casal é, por via de regra, cruelmente assassinado por esse personagem. Essa associação entre sexo e morte é um clichê nesse gênero de filme.(1)

Os efeitos dessas seqüências de cenas no psiquismo de uma criança podem ser devastadores.(2) Uma criança pequena que surpreende seus pais fazendo sexo pode pensar que eles estão brigando; mas nada se compara à associação brutal entre sexo e violência que é rotineira em filmes de terror. Aqui, a associação é entre prazer sexual e pena de morte. No caso concreto que me foi relatado, essa associação prolongou-se numa associação entre alegria e punição. Estabeleceu-se, no paciente, o seguinte drama: "se eu fizer algo que me dê alegria, serei punido; e a punição será tanto mais terrível quanto maior for a minha alegria."

É inútil alegar que tal associação contraria o bom senso. Como na maioria dos filmes de terror o personagem principal (o "monstro") evoca uma força sobre-humana ou mesmo sobrenatural, a associação se estabelece sobre um fundo de pensamento de tipo mágico-religioso ao qual a criança está suscetível em grau extremo. Não estamos falando de medos racionais; o paciente não teme que o vizinho paranóico venha puni-lo com um machado caso ele faça sexo barulhento; o que ele teme é que forças além de qualquer controle o punam de forma terrível e definitiva caso ele se sinta alegre demais, por causa do sexo ou por qualquer outra razão.

A mera descrição desse caso deixa claro que, na educação infantil, impõe-se o princípio de precaução. Levar os filhos pequenos para ver as esculturas de Rodin ou mesmo A Origem do Mundo é uma coisa; deixá-los assistir a porcarias nocivas, seja na TV, seja na Internet, é coisa inteiramente diferente.

Àqueles que, diante dos episódios recentes no Brasil, se dizem "obrigados" a "defender porcarias", eu diria simplesmente que não me vejo "obrigado" a defender porcaria nenhuma.

Assim como não me vejo obrigado a atacar. As minhas brigas, eu mesmo as compro.

* * *

A propósito, pode-se realmente afirmar que uma emissora de televisão de sinal aberto que difunde incessantemente cenas de racismo e de violência em suas novelas está tentando combater o racismo e a violência? Ou estaria ela, ao contrário (a pretexto de "discutir" esses temas e de posar como uma emissora "pacifista" e "anti-racista"), perpetuando o racismo e a violência? Essa fica para outra ocasião, isto é, se eu ainda tiver alguma vontade de voltar a esse assunto.


NOTAS

(1) Eu quase fiquei surpreso quando vi Ridley Scott recorrer a uma seqüência dessas em "Alien: Covenant". Digo "quase" porque, a despeito de ser um cineasta acima da média, Scott não chega a ser exatamente o que se poderia chamar de pensador.
(2) Passo a referir-me a um caso que me foi relatado pela própria vítima, cujos pais permitiam que visse filmes de terror desde os três ou quatro anos de idade: "Eu pensava que havia pequenos homens dentro da TV e que as pessoas realmente morriam naqueles filmes."


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Arte e liberdade de expressão (primeira parte)
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Arte e liberdade de expressão (quarta parte)
Arte e liberdade de expressão (quinta parte)

Adendos:
Arte e liberdade de expressão (primeiro adendo)

11.12.17

Minha última postagem sobre política no Brasil

O título desta postagem é provavelmente mentiroso, mas eu pretendo me esforçar para cumprir a promessa. Não creio que alguém tenha vindo ao mundo para, sem ganhar nada, perder tempo com algo tão medíocre quanto a política brasileira.

Vou transcrever abaixo um trecho da PEC (proposta de emenda à constituição) elaborada em 2015 por um nobre deputado, apenas omitindo algumas passagens para que o leitor não saiba (de imediato) de que se trata. Vamos lá. Será divertido.
"...essas instalações limitam sobremaneira a realização de outras atividades econômicas nos mesmos espaços geográficos. O turismo, por exemplo, grande fonte de renda do litoral do Nordeste, (...) sofre danos irreparáveis, tanto pelas restrições físicas impostas (...) como pela deterioração de extraordinárias paisagens naturais. Essa situação provoca a redução dos empregos e da renda, além de causar impactos adversos nas contas públicas dos Estados e Municípios situados nas regiões afetadas."
Que monstro terrível está sendo descrito na passagem acima?

Você seria capaz de adivinhar?

Em resumo, ele:

1. Deteriora as "paisagens naturais";
2. Causa ao turismo "danos irreparáveis";
3. Reduz os empregos;
4. Reduz a renda;
5. Causa impacto negativo nas contas públicas de Estados e Municípios.

Já descobriram a que monstro odiento nosso deputado se refere?

Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Dou-lhe três!

E aqui está a resposta:

O deputado está combatendo, literalmente, moinhos de vento.

Ou, mais precisamente, usinas de geração de energia eólica.

Parque eólico de Aracati (Ceará)

Como resolver esse grave problema? Cobrando mais um imposto, é claro; mais especificamente, cobrando royalties pela exploração do "potencial energético dos ventos", que, obviamente, se tornaria "patrimônio da União". Assim, o vento receberia o mesmo status de um recurso vital e escasso que realmente requer algum tipo de controle: a água.

Ou seja, enquanto na Europa recordes estão sendo quebrados (em outubro passado, quase 25% da energia na Europa foi gerada por usinas eólicas), aqui o nobre político resolveu tornar mais cara e complicada a exploração dessa energia limpa e com escasso impacto ambiental.

Por quê? Porque ele faz parte de uma elite que, em detrimento da sociedade, comanda o Estado.

Esta é a PEC 97/2015.
Este é o relatório de assinaturas.
Este é o andamento da PEC.

Como se pode constatar no relatório de assinaturas, inimigos fidagais se uniram para dar apoio à PEC 97/2015. Ou seja, se é para aumentar a tributação, expandir a burocracia e dificultar a vida econômica do país, estão todos dentro: de Jean Wyllys a Jair Bolsonaro.

Vale notar que, em outros países, quem recebe royalties são os fazendeiros que permitem a instalação de usinas eólicas em suas terras. Aqui, estamos declarando que o vento... é "patrimônio da União". Está aí a resposta para quem duvidava que fosse possível estocar vento.

Last but not least, o autor da PEC 97/2015 é o deputado Heráclito Fortes (PSB/PI): aquele que, segundo a Wikipédia, "é conhecido pelos executivos da Odebrecht como Boca Mole".(1)

Deputado Heráclito Fortes - PSB/PI




(1) A versão atual do artigo da Wikipedia deixou de mencionar o suposto apelido do Deputado, embora seja de amplo conhecimento público. Como o próprio Deputado afirmou sentir-se homenageado pelo apelido, não vejo problema em manter a citação, embora removendo o atalho que caducou. (Nota de 6 de novembro de 2018).


10.12.17

Arte e liberdade de expressão (primeiro adendo)

A intelectualidade diz que não pode haver censura. O que falta é bom senso, porque você tem um código de proteção aos menores. Para quem organiza essas exposições, basta estabelecer limites. Não adianta ficar gritando que é ou não censura. Todos os filmes têm um limite de idade, e isso é censura? Nunca ouvi dizer que é censura. Não vejo ninguém gritar contra a classificação etária no cinema.
José Murilo de Carvalho
O Globo, 9 de dezembro de 2017


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