18.10.18

O cara da Folha pediu e eu, alegremente, dei (ou: da filosofia como arte de aborrecer a tolice)


Como ensinou Bergson, liberdade não é um mero escolher entre opções previamente definidas. É claro que o voto, esse pequeno naco de liberdade que lhe concedem, pode ser, para o homem das ruas, tudo que ele tem para exprimir sua vontade política. Assim, se é preciso afirmar que é enganoso reduzir a compreensão do conceito de liberdade à simples "liberdade de escolha" entre opções determinadas de antemão, é preciso afirmar também, e ao mesmo tempo, que a liberdade de escolha (materializada no voto de todos os cidadãos) é um dos fundamentos do regime democrático.

No segundo turno de uma eleição presidencial, embora sejam dois os candidatos, não tenho apenas duas opções. Em linguagem filosófica, o terceiro excluído vale para o resultado das eleições, mas não para o meu voto; pois está em meu poder recusar os dois candidatos e não votar em nenhum. Vale lembrar que, num segundo turno, votos brancos e nulos não favorecem ou prejudicam nenhuma candidatura, pois não são levados em conta.

Não fosse trágico, seria cômico observar a sanha acusatória de alguns articulistas da imprensa brasileira contra os eleitores que anulam o voto. Estes são acusados de compactuarem, entre outras coisas, com a destruição do meio ambiente e com a tortura.

Essa aisance em lançar mão de chantagem (tortura?) moral é, por si mesma, reveladora.

Não quero compactuar com a tortura. Não quero compactuar com o crime organizado. Não quero compactuar com seja lá o que for, e a anulação do meu voto exprime precisamente essa recusa. Negar-me esse direito equivale a privar-me da já minúscula parcela de liberdade que me cabe numa eleição. O que haveria de mais autoritário que isso? Como poderia acusar-me de um defeito moral alguém que de antemão nega minha liberdade? Não posso ser forçado a escolher uma das duas opções e ainda imaginar-me minimamente livre. Se assim fosse, deveríamos dizer livre o homem a quem demos o direito de escolha entre ser fuzilado com uma venda nos olhos ou sem ela.

Não posso impedir-me de sentir, num momento como este, um imenso orgulho de ter dedicado a Henri Bergson uma boa parte de minha juventude: justamente um filósofo odiado tanto pela esquerda (que o acusava de "místico" e "espiritualista") quanto pelo conservadorismo (a Igreja Católica incluiu, já em 1914, suas principais obras no Index Librorum Prohibitorum.) Não custa lembrar que Bergson esteve "do lado certo da História" quando foi preciso e numa situação em que havia, de fato, um lado certo da História.(1)

Aproveito para lembrar que a neutralidade partidária e o voto nulo de um eleitor são coisas bem diferentes. Um partido só tem a ganhar com a neutralidade. O eleitor, ao contrário, arrisca-se a ser odiado pelos dois lados, a ser tachado de omisso e até a ser perseguido em seu local de trabalho. Não estou em cima do muro, como alguns partidos políticos; estou, na verdade, acima do muro. Se os dois lados da disputa são chamados (e com razão) de autoritários, é porque eles trabalham por um fechamento; ao passo que eu, como filósofo, trabalho por uma abertura. Não vou dar meu aval a gente que defende, conforme o caso, a tortura ou a apropriação de um país por um partido político. Mas se as urnas decidiram que é isso que temos para hoje, então façam suas campanhas, defendam suas idéias e tentem, por favor, não matarem uns aos outros. Mas tampouco neguem a ínfima margem de liberdade que me resta, pois, ao fazê-lo, vocês estarão negando a própria democracia.

E isso, claro, é coisa de fascista.




(1) SOULEZ, Philippe. Bergson politique. Paris, PUF, 1989.

9.10.18

rumo ao futuro 2

Estou há dias esperando a repercussão da matéria The Big Hack na imprensa brasileira. Ainda não vi absolutamente nada.

A reportagem, publicada pela Bloomberg Businessweek no dia 4 de outubro, revela que a Supermicro (Super Micro Computer Inc.), uma gigantesca fabricante de placas-mãe para servidores, introduziu um minúsculo chip em placas fornecidas para o mundo todo e que teriam ido parar, por exemplo, nos servidores da Amazon e da Apple. Menores do que a ponta de um lápis, esses chips são capazes de baixar código executável e de "preparar o sistema operacional do dispositivo para aceitar esse novo código".(1)



Note, na ilustração acima, que o chip sequer tem a aparência de um chip, e apresenta-se, por assim dizer, disfarçado de conector (como aquele usado no BIOS). Todos os envolvidos negam as informações, mas há uma investigação sigilosa em curso e 17 fontes anônimas teriam confirmado tudo.

Os detalhes dessa notícia são tão graves e escabrosos que eu vou parar por aqui: detesto sensacionalismo, sobretudo quando baseado (ainda) em especulações. Mas a imprensa brasileira, que ganha para informar, decidiu fazer a egípcia.

Compreende-se; um ataque via hardware dessas proporções é uma notícia desagradável para os defensores das urnas eletrônicas.

Não, os chineses não estão manipulando nossas urnas e, muito provavelmente, ninguém está. Mas, entre o cinismo de uns e a paranóia de outros, há espaço suficiente para uma reflexão coletiva bem urdida e uma correção de rumo para as futuras eleições. Se realmente queremos ser uma das maiores democracias do mundo, temos de avaliar exaustivamente essa escolha em particular.



(1) The Big Hack: How China Used a Tiny Chip to Infiltrate U.S. Companies

 

6.10.18

um simples comentário

Postei um comentário ao texto "Gastronomia brasileira reflete um país tosco", publicado por Marcos Nogueira, em que este se queixa da falta de educação generalizada do paladar do brasileiro. Cito um trecho:
"O brasileiro vive na ilusão de que é um abençoado, mais sagaz e criativo do que os outros povos. Em seu mundinho paralelo, essa esperteza lhe basta para queimar etapas. Estudo? Pesquisa? Não, a fé nos levará à vitória. Haja autoconfiança."
Meu comentário não apareceu na página porque foi submetido à moderação da Folha de São Paulo:
Sabemos ler o texto alheio, ou seja, ler o outro e compreendê-lo? Sabemos detectar o texto mal escrito, ou diferenciar o bem escrito do simplesmente correto? Sabemos analisar uma pintura ou uma foto? Não conhecemos nem mesmo os nossos sentimentos, dos quais derivam nossas ações. Bem-vindo à realidade, amigo. Quem não produz a si mesmo (por exemplo, quem não cozinha sua própria comida e não inventa suas próprias idéias) está condenado a vagar como um fantasma, a mendigar amor, a dar ouvidos a idiotas e a comer porcaria. Um forte abraço.



Atualização (08/10/2018, 22:40): O texto acabou não sendo publicado, mas na Folha isso acontece bastante. Enfim, era só um comentário...

5.10.18

A Hidra de Lerna contra a Mula sem Cabeça

Posso estar errado, mas continuo achando, quatro anos depois, que Marina Silva teria feito um bom governo (certamente não seria o desastre que foi o governo Dilma II). E eu posso estar, mais do que errado, delirando, mas vejo em Marina Silva muitas das qualidades que vejo em Fernando Gabeira.

Noves fora, Gabeira é o político brasileiro que eu mais admiro. Foi às últimas conseqüências na juventude, envelheceu com sabedoria e teve coragem para revelar uma verdade desagradável sobre nossos democratas. Entendeu que o binômio totalitarismo/democracia é muito mais importante do que o cansativo direita/esquerda. E, como se tudo isso não bastasse, é o político que tem a filha mais bacana.
* * *

Meu cérebro tem dois hemisférios, esquerdo e direito, mas fica bem no centro de minha cabeça.

* * *
Desta feita, o centro derreteu. Querem me empurrar goela abaixo um dos mais formidáveis encontros mitológicos das modernas democracias. Como diria Bartleby, I would prefer not to.


3.10.18

rumo ao futuro

Tornou-se mais fácil ameaçar os habitantes das comunidades mais vulneráveis de todo o país, sobretudo em áreas dominadas pelo crime organizado. Na época do voto manual, apenas os mais ingênuos acreditariam que o crime conseguiria identificá-los por meio de garranchos num pedaço de papel; agora, com a urna eletrônica, é muito mais fácil fazê-los acreditar que seus votos poderiam ser rastreados e descobertos.

Enquanto na Alemanha as urnas eletrônicas foram declaradas inconstitucionais, aqui é a impressão do voto que é tida como inconstitucional.

Eu compreendo que o TSE defenda o sistema atual com unhas e dentes e compreendo que seus textos se assemelhem a campanhas publicitárias. Administrar sistemas informáticos é muito mais divertido do que ficar contando uma inimaginável quantidade de papéis. É preciso admitir que as urnas eletrônicas são mais modernas e excitantes do que o sistema manual. Só não servem para a democracia, como explicou com suprema simplicidade o Tribunal Constitucional Federal alemão; mas, aqui, quem se importa?

Não estou dizendo isso para apoiar as teses do candidato A ou B. Não estou pensando no próximo governo, mas nos próximos 100 anos. E estou, claro, aproveitando que ainda é possível mencionar o tema. Em breve (talvez 10 anos?), qualquer declaração que ponha em dúvida a lisura do processo eleitoral será considerada (vejam só) um atentado à Democracia e à Segurança Nacional.

O Brasil pode não ser o "país do futuro", mas está se tornando o grande laboratório das sociedades de controle do futuro. Não conheço outro país do mundo, ou ao menos nenhum país com a importância do Brasil, em que a tecnologia e o autoritarismo estejam a ponto de fazer um encontro tão promissor.

30.9.18

duas fábulas

primeira fábula

Era uma vez uma viúva de meia-idade que tinha uma filha e uma enteada. As duas moças eram razoavelmente bonitas e sonhavam com um bom casamento, como se costumava fazer naqueles dias; mas apenas uma delas sentia-se confiante em seu sonho.

É que a viúva passou anos a fio exaltando a beleza da filha de sangue e depreciando a enteada. Esta, por sentir-se feia, cuidava da aparência com cada vez menos convicção, e por força dos sucessivos descuidos, acabou tornando-se de fato mais feia do que a irmã.

Mas é muito mais fácil mudar um destino individual do que o destino de uma nação. Hoje em dia a irmã "feia" está fazendo mestrado e a "bonita" está apanhando do marido.

segunda fábula

Era uma vez uma nação que tinha professores universitários e os outros. Durante muitos anos, os outros, muitos dos quais eram outras, foram chamados de "tias" e "professorinhas".

(complete a fábula usando suas próprias palavras)

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27.9.18

Adoradores de monstros

Quais são os critérios para a participação de candidatos presidenciais nos debates televisivos? Por lei, os candidatos de partidos que contam com no mínimo cinco parlamentares têm seu direito assegurado; a participação dos demais candidatos é facultativa, ou seja, fica a critério das emissoras de TV (que podem convidá-los mas não são obrigadas a fazê-lo).

Para as próprias emissoras, essa liberdade de escolha é um direito, e não um privilégio; afinal, elas estão cumprindo exatamente o que a lei determina. Mas será que elas imaginaram que revelariam tanto de si mesmas por meio de suas escolhas?

A legenda do Cabo Daciolo não soma o número mínimo de deputados que obriga as emissoras de TV a convidar os candidatos a presidente; no entanto, ele tem sido chamado para a maioria dos debates. Enquanto isso, candidatos muito mais bem posicionados nas pesquisas são sistematicamente deixados de lado.

O que explica a presença de Daciolo em tantos debates? Apresento duas hipóteses concomitantes:

1. As emissoras de TV estão (como sempre) mais preocupadas com o espetáculo do que com o debate de idéias. Por isso elas dão preferência a candidatos folclóricos.

2. Apresentar uma caricatura do conservadorismo é uma maneira de atingir indiretamente a candidatura de todos os candidatos conservadores e, sobretudo, a do candidato que vem liderando as pesquisas.

Ora, é bastante compreensível que as emissoras de TV tentem, desse modo, prejudicar a candidatura de alguém que já ameaçou ao menos uma delas com cortes de verbas. Faz parte do jogo político. Afinal, se elas convidam o Cabo Daciolo e este, em sua ingenuidade, lhes presta de graça esse serviço, tudo dentro da lei, qual o problema?

Muito mais do que qualquer presença, no entanto, é a ausência de convites a um dos candidatos em particular que revela as motivações mais profundas das emissoras de TV brasileiras. Senão vejamos: por que uma emissora de TV alienaria os milhões de eleitores de João Amoêdo, candidato do partido Novo? Gostemos ou não de suas propostas, Amoêdo é um candidato sério de um partido sério; não mereceria ele, em nome da democracia e do debate de idéias, ser convidado?

Afinal, o que explica a ausência de Amoêdo em todos os debates? É bastante simples: boa parte da renda das emissoras de televisão - uma renda segura, constante, praticamente imune aos sobressaltos do Mercado - vem da publicidade paga por empresas estatais. Assim, no Brasil, essa é a voz a ser calada: a dos liberais. Eles não estão propondo um simples corte de verbas que poderia ser revertido no governo seguinte; eles estão se propondo a secar uma das principais fontes da corrupção e do capitalismo de compadrio. Não é por acaso que estamos encarando uma eleição totalmente polarizada entre os conservadores e a esquerda. São todos adoradores do "mais frio de todos os monstros".

Existe simetria entre os dois casos? A meu ver, não. Dar voz a um candidato para explorar sua ingenuidade faz parte do jogo democrático. Manter na sombra uma candidatura relevante (nem que seja pelo seu número de apoiadores) é outra coisa.


Apenas os bergsonianos entenderão, mas paciência: boas idéias duram. Já a vocação de circos, infelizmente, é pegar fogo; muitas vezes com os espectadores dentro. Se as emissoras de TV achavam que seria possível ocultar as reais motivações que as levam a transformar os debates em espetáculos circenses, este pequenino e despretensioso artigo acaba de estragar-lhes o segredo.

2.9.18

Museu Nacional (1818-2018)

28.8.18

sina (versão sem eufemismos)

começam pagando para falar bem









e terminam matando quem fala mal

sina

começam pagando para falar bem









e terminam batendo em quem fala mal

30.7.18

Vamos Arranjar o Resultado?

Antes que se encerre o mês de julho, e com ele a última oportunidade de voltar ao assunto, farei um derradeiro comentário sobre a Copa da Rússia.

O futebol vale pelas belas jogadas e gols. O resultado é o que menos importa, e importa menos ainda quando é grosseiramente manipulado.

* * *

Locutores ingleses foram extremamente severos com a arbitragem em vários lances decisivos da competição. Enquanto isso, a imprensa brasileira tentava justificar o injustificável.

Discutiu-se muito, por exemplo, se foi falta o empurrão (na verdade, foram sucessivos empurrões) do jogador suíço em Miranda. Para mim, está óbvio que Zuber fez falta para ocupar o lugar que estava sendo ocupado pelo defensor, assim como está óbvio que os empurrões foram fortes o bastante para deslocar Miranda. Ninguém jamais disse que Miranda foi agredido.

Mas bastou a FIFA afirmar que o empurrão foi "leve" (um simples "contato") e dois dos maiores jornais do país já passaram a pôr em dúvida a própria existência do "empurrão".



O "empurrão" entre aspas d'O Globo.


O "suposto empurrão" da Folha.


Uma imprensa que se curva tão rapidamente à inverdade dos fatos não inspira nenhuma confiança.

* * *

Já que a FIFA sequer puniu a joelhada nas costas que tirou Neymar da Copa de 2014 (ou o pisão desleal desta Copa), o mínimo que seus dirigentes poderiam ter feito é omitir-se de fazer comentários a respeito do desempenho do jogador.

Somos grosseiros? Eles também. E como.

* * *

Não me canso de espantar-me com a ingenuidade daqueles que perdem tempo discutindo resultados obviamente manipulados. Sim, existe competência, e existe acaso, mas também existe a irresistível tentação de ajudar a produzir o resultado. Um dia a Copa da Rússia de 2018 será conhecida como a Copa em que o VAR foi introduzido para dar à FIFA uma oportunidade extra de manipulação dos resultados.

Assistir a esse tipo de coisa é um preço alto demais a ser pago para vibrar com aquele lance genial que nem sempre vem.


2.7.18

Mesmo caído, Neymar consegue simular um pisão!

Tem um monte de jornalistas repetindo que, no segundo gol, Neymar deu uma "assistência".

Na verdade ele chutou a gol e o goleiro mexicano fez grande defesa, desviando a bola na direção da linha de fundo. Firmino entrou e não desperdiçou.

* * *

Hoje é um dia histórico. A arbitragem da FIFA inventou a figura do pisão legítimo: você pode pisar o jogador adversário caído, desde que não pise com força excessiva. Mas eu estou menos espantado com as decisões da FIFA (da qual nunca esperei nada) do que com o servilismo absoluto da imprensa brasileira. Isso, no entanto, é tema para uma outra postagem.

24.6.18

Dois dedos de futurologia

Na Copa do Mundo de 2038 os jogadores usarão roupas especiais com sensores. Os sensores registrarão os contatos e também a intensidade dos contatos. As pancadas poderão ser objetivamente mensuradas e classificadas de acordo com uma escala, tornando muito mais difíceis as simulações. A dor é subjetiva e, por isso, a correspondência entre a intensidade do contato e a dor jamais será perfeita; mas, com o uso dessa tecnologia, será muito mais difícil fazer drama por causa de um tapinha.

* * *

O VAR é uma boa idéia: toda a imprensa o repete bovinamente. Porém, nas mãos erradas (ou seja, na prática), ele não passa de uma oportunidade suplementar para a manipulação dos resultados.


22.6.18

Malandro mesmo é o Cristiano Ronaldo

Neymar finge tão completamente que seria capaz de fingir até o pênalti que deveras sente.

21.6.18

40 anos depois

O jogo da vergonha aconteceu em 21 de junho de 1978.

Hoje, exatamente 40 anos depois, a seleção do Peru foi desclassificada e a seleção da Argentina foi praticamente desclassificada.

Não foi intervenção divina. É que as Copas são realizadas a cada 4 anos e sempre na mesma época.

Mas que a coincidência foi total e acachapante, isso lá foi.

E lavou a mágoa daquele adolescente que (só agora) deixou para trás aquele jogo vergonhoso.


24.4.18

Todo dia é dia de chimarrão

Considerando-se que sou carioca, tive a sorte de, ainda jovem, ter quem me ensinasse a cevar um chimarrão. Passei a maior parte de minha vida bebendo erva-mate torrada, como é costume aqui no Rio, mas também tomei chimarrão durante longos períodos. O problema é que eu não conseguia encontrar, no comércio local, uma erva que me agradasse de verdade.

Hoje, com a expansão e diversificação do comércio online, as coisas estão bem mais fáceis: posso encomendar, diretamente ao próprio fabricante, toda a erva fresca que eu quiser; além disso, há uma grande variedade de cuias, bombas e acessórios à venda pela Internet. Assim, o que parecia impossível aconteceu: o mate tostado (bebido sem açúcar) saiu de cena, substituído pelo mate verde.

* . *

O autêntico mateador, diz a  tradição, é aquele que não espera a companhia alheia e não vê drama em apreciar solito seu chimarrão. Mas compartilhar é ainda melhor, e todas as manhãs compartilhamos, minha mulher e eu, o primeiro mate do dia. Para nós, todo dia é dia de chimarrão. E graças às dicas do meu amigo Mário Zambonin, já estamos usando cuias novas e bombas de aço desmontáveis, muito mais fáceis de limpar, coisa que antigamente não havia.

Compramos também uma mateira para usar em viagens (ou piqueniques). A mateira é uma bolsa, geralmente de couro, usada para carregar a cuia, a bomba, o chimarrão e uma garrafa térmica. Nossa mateira foi comprada online numa boutique gaúcha, a Barbella: é a bolsa grande com alça que aparece nesta foto. A qualidade do acabamento é tão surpreendente (e o preço tão bom) que resolvi fazer de graça esta pequena e merecida propaganda: justo hoje, Dia do Chimarrão.

7.4.18

A barriga histórica da revista VEJA


Capa da VEJA por volta das 17 horas:



capa da VEJA neste instante:




6.4.18

Exclusivo: o cinema dos condenados na Lava Jato

Depois de uma demora de vários meses e de muita especulação, foi liberada agora há pouco a lista dos 160 filmes apreendidos na "sala de cinema" do ex-governador Sérgio Cabral. Pelo que nossa reportagem conseguiu apurar, alguns desses filmes não exprimem necessariamente a predileção pessoal do apenado, mas fazem parte daquilo que se poderia (pomposamente) chamar de "cinematografia da resistência". Segundo a mesma fonte, que prefere permanecer anônima, vários outros presos da Lava Jato estão interessadíssimos nos filmes dessa lista.

Veja alguns dos títulos encontrados na filmoteca clandestina de Cabral:


Se Meu Financiamento Falasse

Superfaturando na Chuva

A Primeira Mala de um Homem

Usina de 42

Catando Propina Adoidado

Duro de Delatar

Empreiteiro Neurótico, Política Nervosa

Os Sete Tribunais

Seven - As Sete Instâncias Recursais

12 Instâncias e Uma Sentença


4.4.18

desimpedimentos

Um ministro do STF nada deve aos senadores que votaram para que assumisse o cargo. Sua aprovação foi deliberada por meio da soma dos votos dos parlamentares; e porque nenhum dos senadores em particular teria poder para decidir sozinho o resultado, o ministro não deve a nenhum deles, individualmente, nenhum favor.

Mas um ministro do STF não deveria se declarar impedido para julgar uma ação em que esteja envolvido o presidente ou ex-presidente que o indicou diretamente para o cargo? 

É só uma pergunta.


1.4.18

Dia da Pátria

Nada mais apropriado do que um primeiro de abril para comemorar (ou simplesmente memorar, caso jamais venham a ler estas linhas) o encerramento de minhas postagens sobre política no Brasil.

Uma quadrilha relativamente pequena está condenando um povo inteiro a patinhar em berço cada vez menos esplêndido.

Nem mesmo é um script original.

* * *

O mundo de minha infância já não existe. O mundo de minha infância existe em minhas lembranças.

Não existe exílio. O único exílio possível é a perda da memória.

* * *

Só um povo muito burro destruiria quase completamente a capital de seu país. Os chineses fazem exatamente o contrário: edificam cidades históricas inteiras para atrair o turista desavisado.




15.3.18

Um frango, dois frangos, nenhuma pena

Ontem, aos dois minutos de jogo, Messi meteu uma bola entre as pernas do goleiro e todos os comentaristas esportivos entoaram o mesmo discurso que reverbera desde o primeiro grande chute cósmico que gerou o universo: houve uma falha, um frango; goleiros de alto nível não podem cometer erros desse gênero.

Se você nunca teve de aceitar argumentos do tipo "é assim porque é assim", você nunca foi criança; mas se você nunca questionou os consensos herdados, você nunca passou da infância. Digo isto porque o frango, ou pelo menos esse frango clássico no qual a bola passa no vão das pernas do goleiro, é um desses consensos sem nexo.

E, no entanto, é impossível exagerar sua importância na linguagem do futebol brasileiro. Todas as bolas fáceis com que goleiros de todo o mundo fazem a alegria das torcidas adversárias têm por arquétipo a bola vazada por entre as pernas (e dela recebem seu nome); mas ainda que a bola entre as pernas dê seu nome a todo um gênero bastante vasto, o frango par excellence é a bola tomada no vão. É por entre as pernas que o frango insubmisso, avesso à panela, foge quando tentam capturá-lo, e é por entre as pernas que o gol se torna frango.

Mas esperem um momento. Se um frango, bicho de cérebro minúsculo, corre para o vão entre as pernas de seu algoz e (quase invariavelmente) consegue fugir, não seria porque esse espaço é, de toda eternidade, um lugar privilegiado? Não seria ele o ponto cego dos goleiros? Talvez inventem, um dia, um goleiro com braços nas pernas; enquanto esse dia não chega, porém, não seria pedir demais a um goleiro que consiga fechar as pernas (que o sustentam) com mais velocidade do que a bola chutada por seu adversário?

Assim, a não ser que a bola seja lenta (traço característico, aliás, de boa parte dos frangos), a bola tomada por entre as pernas (que, por ironia, é o frango por excelência) não é, afinal de contas, um... frango. Enfiar a bola naquele espaço exíguo requer muita sorte ou muita habilidade, e já chegou a hora de darmos os devidos créditos aos atacantes ao invés de censurarmos os goleiros.

Ontem Messi fez dois gols. O primeiro, por entre as pernas do goleiro.

O segundo também.

21.2.18

malfeitos

o
malabarista
 melindroso
malocou
 a
mala
da
mula
malandra


18.2.18

18 02 20 18

18
02
20
18

14.12.17

Arte e liberdade de expressão (segundo adendo)

Há uma pergunta decisiva que talvez devesse ter sido feita desde o início: a classificação indicativa deriva de uma preocupação puramente "moral"? Teria ela como objetivo apenas proteger a infância do que pode ser considerado "indecente" ou "contrário aos bons costumes"?

Se eu, por um só instante, acreditasse nessa tese, jamais teria perdido meu tempo escrevendo esta série. O que está em jogo aqui é outra coisa, que eu resumiria deste modo: é impossível prever as conseqüências de uma representação ou de uma associação de representações para o psiquismo de uma criança. Obviamente, o que me preocupa não são banalidades como o desenvolvimento de um fetiche ou de um parcialismo, mas associações que possam acarretar conseqüências psicológicas realmente sérias e causar, desde a infância e pela vida adulta afora, um enorme (e desnecessário) sofrimento.

A que tipo de representação me refiro? Entre os exemplos mais cristalinos estão os filmes de terror, particularmente aqueles que associam sexo e violência. A associação se dá, em geral, do seguinte modo: o filme apresenta jovens ou adolescentes que se afastam do controle familiar, indo para uma praia ou uma floresta; o clima é festivo, eles bebem e namoram. Quando, porém, começam a fazer sexo, são interrompidos pela violência mortal e gratuita de um personagem não raro sobrenatural. O casal é, por via de regra, cruelmente assassinado por esse personagem. Essa associação entre sexo e morte é um clichê nesse gênero de filme.(1)

Os efeitos dessas seqüências de cenas no psiquismo de uma criança podem ser devastadores.(2) Uma criança pequena que surpreende seus pais fazendo sexo pode pensar que eles estão brigando; mas nada se compara à associação brutal entre sexo e violência que é rotineira em filmes de terror. Aqui, a associação é entre prazer sexual e pena de morte. No caso concreto que me foi relatado, essa associação prolongou-se numa associação entre alegria e punição. Estabeleceu-se, no paciente, o seguinte drama: "se eu fizer algo que me dê alegria, serei punido; e a punição será tanto mais terrível quanto maior for a minha alegria."

É inútil alegar que tal associação contraria o bom senso. Como na maioria dos filmes de terror o personagem principal (o "monstro") evoca uma força sobre-humana ou mesmo sobrenatural, a associação se estabelece sobre um fundo de pensamento de tipo mágico-religioso ao qual a criança está suscetível em grau extremo. Não estamos falando de medos racionais; o paciente não teme que o vizinho paranóico venha puni-lo com um machado caso ele faça sexo barulhento; o que ele teme é que forças além de qualquer controle o punam de forma terrível e definitiva caso ele se sinta alegre demais, por causa do sexo ou por qualquer outra razão.

A mera descrição desse caso deixa claro que, na educação infantil, impõe-se o princípio de precaução. Levar os filhos pequenos para ver as esculturas de Rodin ou mesmo A Origem do Mundo é uma coisa; deixá-los assistir a porcarias nocivas, seja na TV, seja na Internet, é coisa inteiramente diferente.

Àqueles que, diante dos episódios recentes no Brasil, se dizem "obrigados" a "defender porcarias", eu diria simplesmente que não me vejo "obrigado" a defender porcaria nenhuma.

Assim como não me vejo obrigado a atacar. As minhas brigas, eu mesmo as compro.

* * *

A propósito, pode-se realmente afirmar que uma emissora de televisão de sinal aberto que difunde incessantemente cenas de racismo e de violência em suas novelas está tentando combater o racismo e a violência? Ou estaria ela, ao contrário (a pretexto de "discutir" esses temas e de posar como uma emissora "pacifista" e "anti-racista"), perpetuando o racismo e a violência? Essa fica para outra ocasião, isto é, se eu ainda tiver alguma vontade de voltar a esse assunto.


NOTAS

(1) Eu quase fiquei surpreso quando vi Ridley Scott recorrer a uma seqüência dessas em "Alien: Covenant". Digo "quase" porque, a despeito de ser um cineasta acima da média, Scott não chega a ser exatamente o que se poderia chamar de pensador.
(2) Passo a referir-me a um caso que me foi relatado pela própria vítima, cujos pais permitiam que visse filmes de terror desde os três ou quatro anos de idade: "Eu pensava que havia pequenos homens dentro da TV e que as pessoas realmente morriam naqueles filmes."


Anteriores:
Arte e liberdade de expressão (primeira parte)
Arte e liberdade de expressão (segunda parte)
Arte e liberdade de expressão (terceira parte)
Arte e liberdade de expressão (quarta parte)
Arte e liberdade de expressão (quinta parte)

Adendos:
Arte e liberdade de expressão (primeiro adendo)

11.12.17

Minha última postagem sobre política no Brasil

O título desta postagem é provavelmente mentiroso, mas eu pretendo me esforçar para cumprir a promessa. Não creio que alguém tenha vindo ao mundo para, sem ganhar nada, perder tempo com algo tão medíocre quanto a política brasileira.

Vou transcrever abaixo um trecho da PEC (proposta de emenda à constituição) elaborada em 2015 por um nobre deputado, apenas omitindo algumas passagens para que o leitor não saiba (de imediato) de que se trata. Vamos lá. Será divertido.
"...essas instalações limitam sobremaneira a realização de outras atividades econômicas nos mesmos espaços geográficos. O turismo, por exemplo, grande fonte de renda do litoral do Nordeste, (...) sofre danos irreparáveis, tanto pelas restrições físicas impostas (...) como pela deterioração de extraordinárias paisagens naturais. Essa situação provoca a redução dos empregos e da renda, além de causar impactos adversos nas contas públicas dos Estados e Municípios situados nas regiões afetadas."
Que monstro terrível está sendo descrito na passagem acima?

Você seria capaz de adivinhar?

Em resumo, ele:

1. Deteriora as "paisagens naturais";
2. Causa ao turismo "danos irreparáveis";
3. Reduz os empregos;
4. Reduz a renda;
5. Causa impacto negativo nas contas públicas de Estados e Municípios.

Já descobriram a que monstro odiento nosso deputado se refere?

Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Dou-lhe três!

E aqui está a resposta:

O deputado está combatendo, literalmente, moinhos de vento.

Ou, mais precisamente, usinas de geração de energia eólica.

Parque eólico de Aracati (Ceará)

Como resolver esse grave problema? Cobrando mais um imposto, é claro; mais especificamente, cobrando royalties pela exploração do "potencial energético dos ventos", que, obviamente, se tornaria "patrimônio da União". Assim, o vento receberia o mesmo status de um recurso vital e escasso que realmente requer algum tipo de controle: a água.

Ou seja, enquanto na Europa recordes estão sendo quebrados (em outubro passado, quase 25% da energia na Europa foi gerada por usinas eólicas), aqui o nobre político resolveu tornar mais cara e complicada a exploração dessa energia limpa e com escasso impacto ambiental.

Por quê? Porque ele faz parte de uma elite que, em detrimento da sociedade, comanda o Estado.

Esta é a PEC 97/2015.
Este é o relatório de assinaturas.
Este é o andamento da PEC.

Como se pode constatar no relatório de assinaturas, inimigos fidagais se uniram para dar apoio à PEC 97/2015. Ou seja, se é para aumentar a tributação, expandir a burocracia e dificultar a vida econômica do país, estão todos dentro: de Jean Wyllys a Jair Bolsonaro.

Vale notar que, em outros países, quem recebe royalties são os fazendeiros que permitem a instalação de usinas eólicas em suas terras. Aqui, estamos declarando que o vento... é "patrimônio da União". Está aí a resposta para quem duvidava que fosse possível estocar vento.

Last but not least, o autor da PEC 97/2015 é o deputado Heráclito Fortes (PSB/PI): aquele que, segundo a Wikipédia, "é conhecido pelos executivos da Odebrecht como Boca Mole".

Deputado Heráclito Fortes - PSB/PI

10.12.17

Arte e liberdade de expressão (primeiro adendo)

A intelectualidade diz que não pode haver censura. O que falta é bom senso, porque você tem um código de proteção aos menores. Para quem organiza essas exposições, basta estabelecer limites. Não adianta ficar gritando que é ou não censura. Todos os filmes têm um limite de idade, e isso é censura? Nunca ouvi dizer que é censura. Não vejo ninguém gritar contra a classificação etária no cinema.
José Murilo de Carvalho
O Globo, 9 de dezembro de 2017


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Arte e liberdade de expressão (primeira parte)
Arte e liberdade de expressão (segunda parte)
Arte e liberdade de expressão (terceira parte)
Arte e liberdade de expressão (quarta parte)
Arte e liberdade de expressão (quinta parte)

30.11.17

Fraunhofer FDK AAC

O Fraunhofer FDK AAC ainda é considerado o melhor codificador de áudio para o formato AAC. Embora ele seja de código aberto, o Instituto Fraunhofer não permite a livre distribuição do executável, e seu uso dentro de outro programa (como, por exemplo, o Handbrake) exige o pagamento de uma licença. No entanto, se o usuário doméstico compilar sua própria cópia do codificador, poderá usá-la à vontade (mas não distribuí-la) sem pagar nada.

Hoje descobri que uma boa alma facilitou o chato e complicado trabalho de compilação do executável do Fraunhofer FDK AAC. Basta visitar esta página, baixar o arquivo fdkaac_autobuild-master.zip e seguir, passo a passo, as instruções do arquivo README.txt. 

É tudo bem simples. Se você sabe abrir uma janela DOS e executar algumas linhas de comando, sabe tudo o que precisa para compilar sua própria cópia do codificador (e para usá-lo, já que esse codec só roda em linha de comando).

Outro bom codificador AAC é o Nero Digital AAC Encoder. Para ele existem várias interfaces gráficas (frontends), o que facilita bastante seu uso.

11.11.17

Waack é vítima?

Foi publicado hoje, na Folha de São Paulo, um artigo de Demétrio Magnoli com o seguinte título:

"Waack é vítima da fome insaciável das redes que exige sacrifício de figuras".

Ao fazer um "exercício de redução" no título do texto, obtive esta frase:

"Waack é vítima da fome insaciável das redes"

e, finalmente, a frase:

"Waack é vítima".

Será?

Numa emissora em que os telejornais são, se me permitem o neologismo, inassistíveis (este âncora balança compulsivamente a cabeça, aquela é capaz de afirmar que "pneumonia" se escreve com "p" mudo), o telejornal apresentado por William Waack se destacava com facilidade.

Similarmente, os textos de Demétrio Magnoli, juntamente com os de um seleto punhado de colunistas, se destacam em meio à mediocridade geral da Folha.

Digo tudo isso para ressaltar que não é por antipatia a nenhum dos dois que escrevo esta nota.

Magnoli provavelmente tem razão quando sugere que Waack não é pior do que muitos daqueles que o acusam. E também é provável que ele seja melhor do que aqueles que o defendem. Só que o problema não é esse.

O problema está na qualidade dos argumentos usados por Magnoli em seu texto.(1)
"Um clamor de indignação legítima nasce da janela que se abriu para um abismo interior de Waack. O jornalista admirado expeliu lixo. Somos todos, de alguma forma, lixeiras de séculos de violência, exclusão e preconceito."
Se é assim, não estariam todos os crimes perdoados de antemão? Se lixeiras somos e lixo é o que sai de nós, se somos todos vítimas, nenhuma discussão sobre ética faz o menor sentido.
"A URSS stalinista, a Alemanha nazista, a China maoísta, o Camboja de Pol Pot e a Cuba castrista estabeleceram o objetivo de criar o "homem novo". Os sistemas totalitários almejavam retificar não apenas o comportamento, mas a mente dos indivíduos, moldando-a segundo suas normas ideológicas. A escola, a propaganda, a prisão, a tortura e o campo de trabalhos forçados eram os instrumentos da pedagogia social.

Por sorte, todas essas tentativas fracassaram. Homens (e mulheres) "velhos", empapados de fraquezas e preconceitos, seguem constituindo as sociedades."
Ao mesmo tempo em que Magnoli comemora a renitente existência do "velho homem", ele parece confirmar o que diziam as velhas utopias: "apenas nós, com nossa pedagogia iluminada, seremos capazes de fazer nascer um novo homem".

Ora, o problema é exatamente esse. O "homem novo" (mas Nietzsche diria: o além-do-homem) jamais poderia nascer por meio da aplicação de um programa imposto por um regime político. Quem quiser produzir um novo homem terá a si mesmo como matéria-prima, e terá de produzi-lo em si mesmo. Não há outra hipótese.

É claro que não podemos produzir a nós mesmos sem o outro, assim como o outro não poderá produzir-se sem nossa ajuda. Ainda assim, a autoprodução é a responsabilidade inescapável de cada um. Não por acaso, a produção do outro é o sonho ruim de todas as ideologias totalitárias.

Nessa perspectiva, e isso é evidente, não há o menor espaço para algo semelhante ao racismo. Quem está ativamente produzindo a si mesmo simplesmente não terá o menor tempo a perder com uma baixeza desse quilate. Quem está ativamente produzindo a si mesmo almeja tornar-se um filósofo (e não o agente de uma ideologia), um artista (e não um agente do mercado de arte), um cientista (e não um agente das corporações) ou mesmo um místico (e não um agente das religiões). Quem está ativamente produzindo a si mesmo sabe que suas ações derivam de seus sentimentos e que seus sentimentos derivam de suas idéias; e, portanto, cuida muito bem de suas idéias.

Waack é vítima? Não.

Em certo sentido, chamar um homem como Waack de "vítima" é insultar as verdadeiras vítimas que há no mundo. Se formos chamar de "vítimas" todas as pessoas que só são vítimas de sua própria mesquinhez, acabaremos alargando tanto a extensão do conceito que lhe arruinaremos a compreensão.

No mais, chamou-me a atenção, no vídeo apresentado, a irritação de Waack com a buzina do automóvel. É como se o mundo inteiro devesse parar no tempo, ou no mínimo proceder a um silêncio respeitoso, para dar passagem ao precioso arauto da notícia. Não fosse por esse átimo de impaciência, não teria havido nenhum comentário racista. Corolário: as coisas ruins nunca vêm sozinhas.

Não vejo aqui uma questão de "correção política". É muito mais grave do que isso. Minimizar o que houve é a pior coisa que poderíamos fazer.

Por outro lado, apesar da gravidade do fato, não vejo motivo para enviar William Waack a um exílio perpétuo. Posso ter detestado o inconsistente texto de Magnoli, mas aprecio sua motivação. Sábios são sábios e não precisam de nossa compaixão. Se não estivermos dispostos a demonstrar compaixão pelos tolos, jamais seremos capazes de perdoar ninguém. E se um dia chegarmos a precisar, por um motivo ou por outro, de nosso próprio perdão?



(1) Waack é vítima da fome insaciável das redes que exige sacrifício de figuras (Folha de SP)


30.10.17

Arte e liberdade de expressão (quinta parte)

A arte contemporânea interdita a própria possibilidade de diferenciar "arte" e "não-arte". Por definição, obras e ações realizadas com intenção artística são arte. Ao inquisidor caberá (além do estigma de reacionário) o ônus da prova; e ele falhará invariavelmente.

Os antigos critérios de excelência artística, fossem quais fossem, não poderiam sobreviver ao desenvolvimento do capitalismo, cuja dinâmica tende a suprimir os códigos vigentes nas sociedades tradicionais. Ademais, para além das razões puramente estéticas que os especialistas poderão invocar, essa abertura responde também a uma necessidade econômica, ou melhor, a uma oportunidade econômica que não haveria de ser desperdiçada. Restringir o Mercado de Arte às obras de um punhado de grandes artistas seria, do ponto de vista econômico, uma grande tolice. Novamente, porém em outro sentido, trata-se de uma questão de escala: porque tudo é arte, haverá mais artistas, mais obras e mais dinheiro em circulação, não somente para os próprios artistas, mas para todos os envolvidos na cadeia produtiva do mercado de arte.(18)

Esse movimento de mercantilização não afetou apenas as artes plásticas e as artes em geral: literatura, música, teatro, cinema. Ele afetou todos os aspectos da vida no campo social capitalista. Enquanto estudantes universitárias de grandes centros urbanos orgulham-se de não saber cozinhar, as grandes empresas de alimentos processados tornaram-se responsáveis pela alimentação de cada vez mais gente, gerando autênticas epidemias de obesidade, diabetes e problemas cardíacos.
A nova realidade é epitomada por um fato único e chocante: em todo o mundo, hoje há mais obesos que pessoas abaixo do peso. Ao mesmo tempo, dizem cientistas, a disponibilidade crescente de alimentos de alto teor calórico e pobres em nutrientes está gerando um novo tipo de má nutrição em que cada vez mais pessoas estão ao mesmo tempo acima do peso e subnutridas.(19)
E, no entanto, ninguém pode acusar as grandes corporações de vender algo que não seja alimento. Legumes e frutas são alimento? Açúcar e gordura hidrogenada também. No limite, pode-se dizer que tudo o que é feito com intenção alimentícia é alimento.

* * *

Quem se lembra da mundialmente consagrada Merda d'artista (20), realizada em maio de 1961 pelo artista italiano Piero Manzoni? Se tudo que você sente por essa obra é repugnância, pense novamente. Para além da indiscutível avacalhação artística que ela representa, haverá algo mais singelo, haverá algo mais modesto do que oferecer, convenientemente enlatada, rotulada e assinada, uma pequena porção de sua própria merda? E não é esse um retrato perfeito da civilização industrial: nacos de merda acondicionados em latinhas produzidas em série? Ora, merda por merda, fiquemos com a do artista, que (sobretudo se mantida incólume em seu continente) não nos fará jamais nenhum mal.




Infelizmente, é impossível fazer um elogio semelhante ao Domestikator. Pela reação furiosa à decisão do diretor do Louvre, pelo gênero das acusações que lhe foram feitas, pelo desdém em relação ao possível impacto da obra nos miúdos, pela tentativa de descrevê-la como se ela significasse "tudo e mais um pouco" e, claro, por sua escala monumental, eu não consigo ver nessa instalação mais do que um imenso painel publicitário.

Na escala em que foi produzido (nunca é demais insistir nesse ponto), Domestikator não passa de uma imensa peça de marketing: um outdoor destinado a dar o máximo de visibilidade ao seu autor. A meu ver, é por isso que ele ficou tão zangado com a recusa do Louvre, onde uma exposição não é somente uma consagração artística, mas a conquista de uma valorização financeira definitiva. E por mais que o artista cinicamente denuncie essa recusa como um atentado à liberdade de expressão, sabemos que, no fundo, o único prejuízo foi do seu próprio branding.

Se alguém me perguntasse se Domestikator pode ser considerado tão tóxico quanto o refrigerante que compromete o futuro das crianças da etnia warao (21), eu não saberia responder. Eu realmente não sei. Tudo o que sei é que, nos dois casos, é o Mercado (muito mais do que a Arte ou a Ciência da Nutrição) que está fabricando os corpos e as subjetividades das crianças.

Salò, o último filme de Pasolini, é uma obra de arte pungente, dolorosa e sem dúvida chocante, muito embora não tenha sido feita com a infantil intenção de épater le bourgeois. Domestikator, ao contrário, me parece ser apenas mais um avatar dessa mesma violência tacanha e gratuita que Salò denuncia. Ninguém pode condenar Joep van Lieshout por querer "explicar suas idéias para um público mais amplo"; ainda que sejam idéias medíocres. Mas, ao tentar impor a visão de sua obra por um simples truque de escala, ele se  mostra perigosamente próximo do publicitário que não mede esforços para anunciar seu produto.

* * *

Embora tirando bem menos conclusões do que gostaria, encerro aqui esta série. Não posso, claro, deixar de mencionar outro artigo das organizações Globo, que, mais uma vez, descreve Domestikator como uma "escultura" (sic) que "mostra figura geométrica humana vermelha que aparenta estar fazendo sexo com outra pessoa.(22)"

A imprensa brasileira está num nível sub-rasteiro.



FIM



(18) Até o crime organizado se beneficia com a ampliação do mercado de arte, que multiplica as oportunidades de lavagem de dinheiro.
(19) Como grandes empresas deixaram o Brasil viciado em junk food (The New York Times/Folha de SP)
(20)  Piero Manzoni: Artist’s Shit (1961) (Tate)
(21) Mamadeiras de refrigerante: 'vício' em bebida agrava desnutrição em indígenas (BBC Brasil)
(22)
Excêntrica demais para o Louvre, escultura erótica é exibida no Centro Pompidou (O Globo)



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Arte e liberdade de expressão (quarta parte)

18.10.17

Arte e liberdade de expressão (quarta parte)

A rigor, o único problema da instalação Domestikator é um problema de escala. Apenas os mais puritanos condenariam a obra se ela tivesse metro e meio de altura e fosse exibida no interior de um museu. Do mesmo modo, respeitada a classificação indicativa, qualquer cinema pode exibir Salò.

O problema é que Domestikator mal caberia no interior de um museu. A instalação, que pesa 30 toneladas, tem 12 metros de altura, mais ou menos o equivalente a um prédio de quatro andares. Por isso afirmei que se trata de um problema de escala. A obra do coletivo de Joep van Lieshout se impõe ao olhar de quem passa.


Devemos supor que Jean-Luc Martinez, diretor do Museu do Louvre com formação em arqueologia e história da arte, recusou a exposição da instalação holandesa no Jardim das Tulherias porque é um burocrata e um censor imundo? É mais ou menos o que sugere Joep van Lieshout ao dizer que a decisão foi "hipócrita" e que os museus são administrados por "juntas de advogados e gente de marketing".

Vejamos alguns dos argumentos do artista em defesa de sua obra.

[A]. Uma vez instalada no Jardim das Tulherias, a obra ficaria ao lado de um parque infantil. Joep van Lieshout afirma que, se as crianças porventura entenderem de que se trata, é porque já são grandes o bastante para entender... Contudo, ao dizer isso, van Lieshout parece ignorar a existência de uma singela realidade chamada linguagem. Bastará que uma única criança compreenda o que a obra representa para que todas as outras, e isso inclui crianças bem menores que a primeira, sejam informadas a respeito. Não faltará tempo para que a informação se espalhe. A obra estará lá, à vista de todos, dia após dia.

[B]. Numa entrevista ao site dezeen, Joep van Lieshout afirmou que a obra "não é sobre sexo, é sobre a ética da inovação tecnológica. Ela convida as pessoas a pensar sobre um assunto muito importante: o que fazemos com nosso avanço tecnológico? O que fazemos com o big data, com a inteligência artificial, com os robôs?".(14) Ao The Guardian, ele disse que sua obra aborda a domesticação de animais para a agricultura e a indústria, bem como sublinha os problemas éticos decorrentes da domesticação.(15)

Um adulto esclarecido poderá levar algum tempo até extrair da imagem em questão tudo o que nela está contido, e é bem possível que alguns adultos sequer consigam enxergar todas as coisas e matizes que o artista, tão habilmente, conseguiu sintetizar numa única imagem. Mas pode-se dar como certo que raríssimas crianças serão capazes de entender toda essa conversa. Elas provavelmente entenderão a obra apenas em seu nível mais raso, doggy style.

[C]. Um tanto previsivelmente, o artista holandês chama de censura a decisão do diretor do Louvre. Ao fazê-lo, no entanto, ele abusa do sentido do termo: M. Martinez não "proibiu" ou "baniu" sua obra, e nem teria poder para isso; ele apenas recusou sua exposição no museu pelo qual é responsável. Tanto é assim que, pouco tempo depois, Domestikator foi calorosamente acolhido pelo Centro Georges Pompidou, cujo diretor o qualificou como "espiritual"(15) e "uma utopia magnífica em sintonia com o espaço público".(16)

Aliás, por falar em "censura", não custa lembrar que o Museu d’Orsay, tão incensado pela bela exposição Emmenez vos enfants voir des gens tout nus, não hesitou em chamar a polícia e apresentar queixa contra a artista que resolveu expor no museu (já que de gente nua se tratava) sua própria origem do mundo.(17) Ora, assim como roubar a cena dos artistas em exposição não é nem um pouco elegante, impedir que tal coisa aconteça não é "censura".

[D]. Ainda na entrevista para o site dezeen, van Lieshout fez uma afirmação com a qual todos concordamos: "Penso que a arte deve ser um lugar onde há pouquíssimos limites." Ora, um desses limites é justamente o da classificação indicativa por faixas etárias. Raras pessoas teriam maturidade suficiente para compreender, antes de completarem 18 anos, a dura mensagem de Salò. Há, portanto, boas razões para que esse filme não seja exibido em colégios. Do mesmo modo, há boas razões para não exibir em praça pública uma obra que retrata, em escala monumental, uma cena de bestialidade. A não ser que o coletivo holandês acredite seriamente que sua obra é mais importante do que a de Pasolini, não há por que reivindicar um privilégio que a obra do italiano jamais teve (e provavelmente jamais terá).

* * *

Mas, afinal, o que significa tudo isso? Até aqui, procurei me manter no plano da mera análise e tentei esclarecer alguns aspectos em jogo na obra Domestikator e no discurso de seu autor. Na próxima (e última) parte, tentarei esclarecer a partir de uma perspectiva inteiramente diferente a atitude de um artista como Joep van Lieshout.

Duas últimas observações se fazem necessárias. Não custa insistir que minha crítica à instalação Domestikator refere-se ao seu caráter monumental. Não fosse por essa monumentalidade, eu não enxergaria o menor problema na obra do coletivo holandês. É, como eu deixei claro desde o início, um problema de escala. Veremos na próxima parte o que, a meu ver, esse problema de escala revela.

Por fim, é bom deixar claro para o leitor que eu não estou tentando fazer uma espécie de "análise indireta" ou "referência velada" aos recentes acontecimentos no Brasil. Ao menos até aqui, o que eu disse a propósito da obra Domestikator foi pensado "sob medida" para ela e não serve para pensar outra coisa.

Mas já que acabei me referindo aos casos brasileiros, gostaria de fazer uma pequena observação sobre eles. Todos os meios de comunicação que tenho consultado falam sistematicamente das ocorrências em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Parece-me incompreensível que o caso de Mato Grosso do Sul, apenas por não se adequar a esta ou aquela agenda, ou quiçá atrapalhá-las, esteja merecendo uma atenção menor (ou praticamente inexistente) da imprensa. Deveria ser precisamente o contrário, pois apenas nesse caso houve uma intervenção explícita do poder público e um ato que merece, com todas as letras, o nome de censura. O silêncio a esse respeito é vergonhoso e desprezível.


(continua)



(14) Louvre cancels Atelier Van Lieshout installation amid concerns over "explicit or sexual" content (dezeen Magazine)
(15) 'Obscene? Pornographic?' – Louvre deems sexually explicit sculpture too risqué (The Guardian)
(16) Le Domestikator : le Louvre lui dit non, le Centre Pompidou lui ouvre les bras (Le Figaro)
(17) L’artiste qui s’est déshabillée au musée d’Orsay explique son geste (exponaute)




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17.10.17

Arte e liberdade de expressão (terceira parte)

Não basta dizer que os recentes conflitos a propósito de obras e exposições de arte no Brasil estão contaminados por uma polarização ideológica que não beneficia em nada o esforço de compreensão. É muito pior do que isso: quem não se alinha automaticamente a um dos lados será acusado (também automaticamente) de favorecer o discurso do outro lado. Ao que parece, a liberdade de pensamento foi reduzida a isto: estamos autorizados a "ter uma opinião" (a "escolher um dos lados"), mas não a pensar.

É por isso que eu já havia definido, desde que comecei a escrever as primeiras linhas este artigo, que iria buscar na Europa, e não no Brasil, o objeto de minha análise. Refiro-me à instalação "Domestikator", realizada por um coletivo holandês chamado Atelier Van Lieshout.


A análise da forma dessa instalação não oferece maiores dificuldades. Há duas figuras fazendo sexo. A figura bípede que segura a outra pela cintura (provavelmente) representa um homem. A outra figura, por sua vez, não é humana. Seu tronco é uniformemente mais grosso; o conjunto formado pela cabeça e pelo pescoço é mais alongado; inexiste a flexão dos membros inferiores que seria de esperar num ser humano. O próprio nome da instalação confirma a análise da forma, já que a domesticação é (usualmente) uma relação entre homens e animais: Domestikator representa um homem fazendo sexo com um quadrúpede.

Pois bem. O diretor do Museu do Louvre, Jean-Luc Martinez, embora reconhecendo que o Domestikator denuncia "de maneira lúdica e artística a dominação [humana] sobre o planeta Terra"(7), cancelou a exposição da obra na Feira Internacional de Arte Contemporânea (FIAC) e foi duramente criticado por Joep Van Lieshout, fundador do coletivo holandês.

Antes de passar à análise do caso Domestikator, que encerrará este artigo, gostaria de chamar a atenção para um aspecto que seria cômico se não fosse trágico: o despreparo (ou a desonestidade) da imprensa (em várias partes do mundo) para simplesmente descrever de maneira adequada uma obra de arte contemporânea. Alguns meios, é bom ressaltar, fizeram exceção: o já citado Libération, por exemplo, e a revista Le Point (8) fizeram uma leitura correta da obra e ressaltaram (ou ao menos sugeriram, no caso do Libération) que o Domestikator descreve um ato sexual entre um homem e um animal. Mas inúmeros outros grandes veículos de comunicação, seja por pudor, ignorância ou má-fé, suavizaram a leitura da obra. Vejamos uns poucos exemplos.

Embora tenha reproduzido as palavras de Van Lieshout, segundo o qual "o trabalho simboliza o poder da humanidade sobre o mundo e sua abordagem hipócrita da natureza", o The New York Times diz, singelamente, que a obra representa "uma cópula".(9) O Le Monde afirma que a instalação foi rejeitada por fazer uma "evocação explícita de um ato sexual".(10) Veículos ingleses menos cotados como o The Sun (11) e o Daily Mail (12) preferiram não se comprometer e descreveram a obra como "dois prédios fazendo sexo". O jornal O Globo, por sua vez, conseguiu superar todos os seus concorrentes ao afirmar que "a escultura (sic) por um lado lembra um prédio com janelas, mas também mostra um homem em forma de caixas durante o ato sexual com outra pessoa."(13)

Vejamos se a análise desse caso nos permitirá avançar, por pouco que seja, no nosso tema.



(continua)



(7) Une œuvre retirée du parcours hors-les-murs de la Fiac pour sa connotation sexuelle (Libération)
(8) "Domestikator": un viol allégorique qui a fait peur au Louvre (Le Point)
(9) Louvre Pulls Sculpture, Saying It Was Sexually Explicit (The New York Times)
(10) FIAC : l’œuvre « Domestikator », du Néerlandais Van Lieshout, retoquée pour sa connotation sexuelle (Le Monde)
(11) Bonkers artwork of two buildings ‘having SEX’ axed from top show because it would be seen from a school playground (The Sun)
(12) Did the roof move for you? 'Sexually explicit' art installation that looks like two buildings having SEX is scrapped by the Louvre (Daily Mail)
(13) Louvre cancela exposição de escultura considerada sexualmente explícita (O Globo)


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