8.3.12

homo sapiens

A palavra "cigano" deixou de aparecer na versão online do dicionário Houaiss. Nem vou me dar ao trabalho de comentar. Deixo apenas os atalhos para este e para mais este comentário de Ivan Lessa.


Acharam pouco? Pois o ECAD está querendo arrecadar dinheiro de blogues que exibem janelas com conteúdo hospedado no YouTube. Também não vou comentar. Deixo este atalho, e mais este, e despeço-me, consternado.

16.2.12

Carnaval

17.1.12

Ricardo Borges, poeta

É bem verdade que tenho amigos poetas, ao menos dois, poetas deveras, entre os alguns ilustres - sem nenhuma ponta de ironia - que conheci, ou desconheci, em mesas de bar ou restaurantes ora consumidos pelo fogo. Quanto a saber se conheço ou não o poeta em questão, é difícil dizer:

Pessoas,
estão sempre ao alcance
e sempre tão irreais.

Para fins burocráticos, sim, é claro que eu o conheço, e posso atestá-lo em três vias. Mas haverá verdade na burocracia? Nesta vida, o gnóti seautón já é um luxo dos mais difíceis de (e)laborar; porém conhecer o outro, bem, isso são veredas muito mais tortuosas. Como disse o filósofo, aliás um filósofo, quem diria, ateu, a idéia que Pedro tem de Paulo não é a idéia de Paulo tal qual ela existe em Deus. Mas o que estou dizendo? Conhecer - ou não - o próprio poeta é um falso problema; o que importa é conhecer a produção desse poeta. E aqui as coisas ficam ligeiramente piores, pois estou tentado a falar de um livro que levou quase quarenta anos para ser escrito a partir de uma leitura que não chegou a me custar uma hora. Desse modo, aplica-se ao livro igualmente, ou talvez desigualmente, tudo o que já disse a respeito de seu autor. Imagina o leitor que minhas mazelas e desmazelos terminam por aí? Nada disso. Como se tudo isso já não bastasse, estou entre os menos qualificados entre os menos qualificados (a repetição é proposital) para falar seja lá o que for a respeito de poesia. É, pois, com total despreparo, mas não (queira o Deus do filósofo ateu) em total desamparo, e no fio do susto de uma primeira leitura vertiginosa, que vou traçar estas linhas. E seja lá o que quiser aquele que seja lá quem quer. Afinal, como disse o poeta em questão,

Inventa a vida
do jeito que
a goza.

Reparem: assoma o lúdico no poema, e deste salta para a própria vida, e ao poema retorna, ao ponto em que já não sabemos onde começam e onde terminam o gozo, o poema e a vida; pois se a vida se inventa do jeito que goza, também o poema, que por sua vez é mais um desses gozos nos quais a vida se inventa... É menos que um haiku, e no entanto, é todo um labirinto; um círculo virtuoso que lembra as mãos de Escher. Mas brincar, ou gozar, ou ainda inventar a vida, talvez não seja tão fácil como parece:

Desisto do meu ego para ser alter.

Claro está: para reconquistar a inocência que inventa, é preciso desarrastar a cangalha do ego. E isso não é brincadeira, ou coisa que se faça num piscar de olhos. E, ao mesmo tempo, é brincadeira, é coisa que se faz num piscar de olhos. Não é por acaso que o Zen desdenha da lógica. É lógico!

Os mapas exatos mentem.
São traçados que se apagam nas marés.
Que sinais nos apontam
o cais do amanhã?

Mas se a função lúdica da poesia (piscadela para o Marcelo) é coisa da maior seriedade, nossas sucessivas, aliás intermináveis reformas ortográficas, são ocasiões de ouro para exercê-la. Notem, porém: é zombaria amistosa, sem maldade, sem derrisão; o poeta zomba de nossos infatigáveis reformistas da letra sem traço de ressentimento, com inocência no olhar, numa atmosfera cosmológica de sonho; pois ele se assenta muito acima, tantas e tantas léguas acima, lá no trono da poesia, lá onde não viceja mágoa em face dos fiéis depositários dos signos, mas sim - num extremo de delicadeza - ternura:

Se estrelas não têm acento,
onde então iremos nos sentar?

É claro que "nem tudo é flores no presente". Há momentos em que a barra pesa, e a realidade parece impor-se como um princípio, sem lugar para floreios e devaneios. Ou estaríamos falando, ao contrário, da arte como de um artifício sedutor, laço que compele a carne apetecida para a crueza de espasmos sem delicadezas?

A ilusão da arte,
a tentação da máscara.
Tudo a encobrir as armadilhas
montadas na selva
de pele e ossos.

Ou estaríamos falando de ambas as coisas, já que o autor, a certa altura, confessa-se

meio mamute, meio gentleman,

ou seja, refinado o bastante para urdir esse primor de ambigüidade, mas também suficientemente take a walk on the wild side para fazer dessa trama incorporal a rede implacável que captura a presa? Tudo isso são apenas conjecturas, é claro; e a melhor das conjecturas não vale um único olhar de bronze face ao que se faz - ao que se continua fazendo, século após século - com a vida tanta que há lá fora. Entre esses olhares, gostaria de mostrar este, tão belo, tão certeiro:

As fábricas não param:
mãe, soldado, família e cruz
são produzidos incessantemente,
em séries eternas e sem detalhes,
sem peculiaridades.
As fábricas não param:
coisas disformes saem do produzidouro
onde tudo nasce e morre desiluminado.
Vez ou outra um inesperado fogo foge
pelas ventas de um gesto fugidio
e cessa.
As fábricas não param:
competem com inventiva morbidez
pelos feudos do que há de vida ainda,
em nós.

Aqui sim, há uma certa amargura, um certo cansaço em relação à eterna reaparição daquilo que não retorna, das aparências de realidade que se multiplicam sem nunca atingir o Ser: o homem, pequeno, médio ou superior, pouco importa, desiluminado e desiluminante, a grande, a única objeção ao eterno retorno, a serpente na garganta de Zaratustra. E que não me venham falar do "sistema"; "sistema" é cu de rola! O que existe são escravos e tiranos, uns dependentes dos outros, uns encaixados nos outros como numa engrenagem ou linha de produção: as tantas "fábricas".

Há sempre alguém vivo
querendo apagar uma estrela,
mas a luz que é nossa guia
não cessa nunca
e numa noite apenas podemos iluminar
todos os caminhos que não nos deixam trilhar.
Infeliz daquele
que quer todos os fogos na mão
e distribuir como dádivas
aos que não sabem
ser a luz de seus destinos.

É claro que muitos têm suas receitas, seus "mapas exatos" para mudar o mundo. Estão todos, claro está, condenados ao fracasso. Sim, é possível mudar o mundo. Qualquer adolescente sabe disso, embora não saiba como. Depois o adolescente cresce e continua sem saber como, e aí acaba desistindo e vai ser "alguém na vida". Ou então ele vai pulando de um "mapa exato" para outro. Não faz muita diferença: é tudo fracasso, fracasso real, fracasso da vitalidade. Mas apesar das vidas quebradas, das almas estilhaçadas, remoendo seus fantasmas e abstrações, há algo maior do que tudo, maior até mesmo do que a esperança (que, para Spinoza, ainda é um sentimento de escravos). Se estivermos dispostos a abandonar todos os "mapas exatos", se estivermos dispostos a desistir do ego (uma simples imagem) e investir naquilo que realmente conta, naquilo que realmente faz a diferença, tudo pode mudar num piscar de olhos.

A idéia é boa: refazer o mundo
a partir de coisa nenhuma.
É como se o próprio mundo fosse
um tijolo
e de barro em barro
fôssemos esculpindo novos
caminhos e casas.
Lugares bons e seguros por onde andar,
tetos serenos e aconchego num
colchão de plumas.

Minha própria tarefa é dar um novo nome ao que realmente conta. Ao menos um nome. Que outros dêem outros nomes. Um dia, com alguma sorte, os nomes serão tantos que já não poderemos ignorar a realidade que está por trás deles. Ou a realidade que pode ser inventada a partir deles: nós mesmos. Passo a citar Henry Miller: "A meu ver, os artistas, os cientistas, os filósofos parecem estar muito ocupados polindo lentes. Tudo isso são vastos preparativos em vista de um acontecimento que jamais se produziu. Um dia a lente será perfeita; e nesse dia, todos nós perceberemos claramente a extraordinária beleza deste mundo..."

Que dizer depois disso?

Só o silêncio
não é insalubre.
De resto,
o deserto das línguas envenena
os genomas e o etérico.

Aqui, sou obviamente forçado a discordar do poeta. Continuamos a repetir o velho provérbio segundo o qual a palavra é de prata, e o silêncio, de ouro. Quem nos garante, entretanto, que a prata é menos valiosa do que o ouro? Talvez seja apenas uma questão de convenção, de humanas convenções. Eu, por exemplo, aprecio mais o brilho suave e despretensioso da prata do que o fulgor soberbo do ouro. Já usei prata. Ouro? Nem que fosse rei. Mas a severidade do poeta é compreensível. A língua torna-se, com efeito, um deserto quanto submetida à tirania das designações e das manifestações, e isso se estende, claro, às significações. Ela se torna um deserto quando tagarelamos sem cessar acerca das coisas e suas utilidades, ou acerca dos transientes orgânicos do corpo: que fome, que dor de cabeça, que vontade de cagar. Certamente há, ou pode haver, cem mil desertos numa única palavra. Quem lê tanta notícia? Mas lá onde cresce o perigo, cresce também aquilo que salva, e é justamente pelas línguas que podemos produzir a velocidade absoluta dos conceitos, essas entidades-luz mais velozes que a própria luz; e é nas línguas, ainda que não somente nelas, que mora a poesia; e é pelas línguas, embora não somente por elas, que podemos tocar aqueles que uma física banal nos (des)ensina serem "outros", mas que serão eternamente outra versão de nós mesmos, diferentemente torcidos ou retorcidos nas dobras do tempo.

Acontecer fantasticamente na diferença
é questão dos gênios.
Por sentirem que não estão sozinhos
concebem do Divino
os cantares do amanhã.




Parabéns, Ricardo.


Ah, sim:

Nome do poeta: Ricardo Borges
Nome do livro: Inventário do nada

À venda na livraria da Editora da UFF.

13.12.11

desacordo

Falta não há:
montes de coisas a esmo
e armários vazios.

25.11.11

Slogan de campanha do PPB (ou do PP do B)

Bachado não é roubado.

6.10.11

cogumelos (3)

Ok, reconheço que este blogue passou (ou está passando) por um momento, digamos, um tanto engraçado: OVNIs, cogumelos mágicos... Bem, esse é o resultado que obtemos ao olhar pela janela antes das seis da manhã e ao perder tempo lendo notícias em sites de baixa extração.

O mais curioso (ao menos para mim) é que eu havia programado uma segunda nota sobre cogumelos inteiramente diferente da que foi escrita. Mas acabei me deixando distrair pela pobreza extrema da notícia publicada no UOL, e assim nasceu a nota precedente.

E isso é curioso porque acabei perdendo inteiramente a vontade de escrever a nota originalmente prevista. Ao invés disso, farei um breve resumo para encerrar o assunto.

Embora que eu saiba que em termos bioquímicos ou farmacológicos seja possível classificar as substâncias ativas presentes nos cogumelos enteógenos como "drogas", creio que essa é a maneira mais empobrecedora de abordar o tema. Outra confusão freqüente, aliás extremamente comum, consiste em pensar que, fora do contexto dos ritos de uma sociedade tradicional, o consumo dessas substâncias será necessariamente "recreativo", ou seja, conduzido apenas pelo desejo de "experimentar novas sensações". Isso equivale a dizer que só é possível experimentar essas substâncias como devoto ou como tolo, e nada está mais longe da verdade. A ciência está conduzindo experimentações controladas? Pois bem, nada impede que experiências de outra ordem não possam dar excelentes resultados - por exemplo, envolvendo arte ou filosofia. Mas vou me abster de contar minhas próprias experimentações, que aconteceram há mais ou menos 25 anos. E antes que me acusem de fazer "apologia" de qualquer coisa, aqui vão uns tantos "conselhos": os cogumelos são capazes de nos mostrar o abismo de intensidade do qual fazemos parte, mas eu considero um equívoco recorrer a eles mais do que algumas poucas vezes. O grande "barato", se me permitem falar assim, está justamente em produzir em nós mesmos (por meio da arte, da ciência, da filosofia) a intensidade revelada nas experiências "enteógenas". Dito de outro modo, não creio que o misticismo gerado por essas substâncias seja superior ao misticismo gerado pelo estudo de biologia molecular. E, sobretudo, penso que o primeiro não deve, em nenhuma hipótese, substituir o segundo. Um cogumelo serve apenas para nos mostrar que a beatitude é tão real quanto as panelas de nossas cozinhas. Mas devemos conquistá-la por nossa própria conta.

3.10.11

cogumelos (2)

Ontem o UOL publicou uma matéria bastante semelhante, aliás extremamente semelhante, àquela que mencionei na nota anterior. Creio que pode ser interessante comparar as primeiras linhas dos dois textos, já que eles foram elaborados com base na mesma fonte, ou um a partir do outro:

Basta apenas uma grande dose do alucinógeno psilocibina, ingrediente ativo dos chamados "cogumelos mágicos", para provocar alterações de personalidade mensuráveis e de longo prazo, diz estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. Segundo os cientistas, as mudanças aconteceram na área da personalidade conhecida como "abertura", associada a traços como imaginação, estética, sentimentos e ideias abstratas. As alterações nessas características pessoais foram verificadas em quase 60% dos 51 participantes do estudo e duraram ao menos um ano. (O Globo)

Uma única dose do alucinógeno psilocibina, o princípio ativo dos chamados "cogumelos mágicos", pode provocar uma mudança de personalidade permanente. A conclusão é de um estudo realizado por cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. Os pesquisadores descobriram que os usuários ficaram com o que as pessoas chamam de "mente mais aberta" após o uso da substância. A característica envolve aspectos como imaginação, senso estético, sentimentos e ideias abstratas. A mudança foi detectada em 60% dos 51 indivíduos que participaram do estudo. (UOL Notícias)

Todos os grifos (em negrito) são meus. Pois bem: embora os dois textos pareçam dizer, essencialmente, a mesma coisa, as diferenças são substanciais. Em primeiro lugar, a locução "mudança de personalidade permanente" possui um quê alarmista que está ausente na locução "alterações de personalidade mensuráveis e de longo prazo", que é, digamos, bem mais suave. Além disso, o próprio fato da locução ter sido mal redigida ("mudança de personalidade permanente" ao invés de "mudança permanente de personalidade") ajuda a reforçar o tom alarmista da notícia do UOL, pois o leitor menos atento será levado a crer que existe algo como uma "personalidade permanente" que supostamente não mudaria por si mesma, mas que no entanto seria "mudada" (permanentemente?) pela ingestão da substância.

A segunda diferença é ainda mais gritante. Enquanto a notícia d'O Globo fala de uma área de personalidade conhecida (pelos cientistas) como "abertura", a matéria do UOL diz que os usuários ficaram com o que as pessoas chamam de 'mente mais aberta'. Aqui temos, de um lado, uma noção científica, aliás bastante interessante, e de outro, uma noção absolutamente vaga cuja origem é vagamente atribuída às "pessoas".

Ao contrário das duas primeiras, a terceira diferença é bastante engraçada. A matéria do UOL omite o "quase" quando menciona a porcentagem de pessoas que sofreram alterações após a experiência, o que nos deixa com exatamente 30,6 pessoas com alterações de personalidade - um número, convenhamos, bastante psicodélico.

Por fim, e aqui as coisas novamente perdem a graça, o UOL publicou em sua matéria a foto de cogumelos que eu (baseado em minhas experiências e em meus estudos) não reconheço  como enteógenos:


Seja como for, a mera publicação de uma foto (duvidosa) numa matéria tão superficial (e mal redigida) é preocupante em qualquer hipótese - seja ou não enteógeno o exemplar mostrado. Considerando-se que as páginas do UOL podem ser lidas por crianças, a publicação da foto é mais do que preocupante; é uma temeridade.

Para aqueles que desejam dar uma olhada nas prováveis fontes (em inglês) das notícias mencionadas, garanto que vale a pena o esforço. Também vou deixar aqui uma bibliografia básica sobre o tema:

* Peter Furst. Alucinogênios e Cultura, Ulisseia, Lisboa, s/d. Ótimo livro introdutório. Pode-se encontrar para download o original (Hallucinogens and Culture) em PDF.

* Peter Furst (org.). Flesh of the Gods - The ritual use of hallucinogens, Waveland Press, Illinois, 1990 (1972). Coletânea clássica de artigos de vários pesquisadores.

* Valentina Pavlovna Wasson  & Gordon Wasson. Mushrooms, Russia and History, Pantheon Books, New York, 1957. Um dos primeiros trabalhos de Wasson (e de sua mulher), do qual foram tirados apenas 512 exemplares e que pode ser comprado por uma quantia entre três e seis mil dólares. Por sorte, é possível baixar uma versão PDF desse livro aqui.

* Gordon Wasson. Soma: Divine Mushroom of Immortality (Ethno-Mycological Studies), Harcourt Brace Jovanovich, 1968. Célebre estudo no qual Wasson identifica o cogumelo Amanita Muscaria (que é venenoso se ingerido in natura) como sendo o divino Soma dos Vedas.

* Gordon Wasson. El hongo maravilloso Teonanácatl - Micolatría en Mesoamérica, FCE, México D.F., 1993. Neste livro Wasson mescla "trabalho de campo" e pesquisa histórica.

* Gordon Wasson et alli. The Road to Eleusis - Unveiling the secrets of the Mysteries, North Atlantic Books, Berkeley, 2008. Livro dedicado ao uso de enteógenos entre os antigos gregos.

* Gordon Wasson et alli. Persephone's Quest - Entheogens and the origins of religion, Yale University Press, New Haven and London, 1986. Ensaios sobre a influência dos enteógenos em diversas religiões.

* J.R. Irvin & Jack Herer. The Holy Mushroom - Evidences of Mushrooms in Judeo-Christianity, Gnostic Media, 2009. Apresentação e comentário dos argumentos de Gordon Wasson e de John M. Allegro na polêmica a respeito do uso de cogumelos na cultura judaico-cristã.

ADENDO (3/10/2011, 14:15)

Pouco depois de escrever esta nota, adicionei um comentário na matéria do UOL a respeito da publicação da imagem. O comentário foi censurado pelo moderador e não foi publicado.

29.9.11

cogumelos

Outrora chamados de "alucinógenos", depois batizados de "enteógenos", os cogumelos mágicos (como os que produzem psilocibina) ainda estão, a meu ver, à espera de uma nomenclatura apropriada. Relacioná-los a alucinações é claramente um equívoco, mas relacioná-los a uma experiência de Deus também pode ocasionar vários outros equívocos. Apesar disso, vejo com simpatia a nova terminologia, pois ela induz as pessoas religiosas a perceber esses cogumelos, bem como a substância que eles produzem, com o respeito que eles merecem. O pior dos equívocos seria classificá-los na categoria genérica do que chamamos habitualmente de "droga". Os enteógenos nada têm a ver com nirvanas ou euforias artificiais. A experiência que eles induzem é qualitativamente diferente, é de outra natureza. Autores como Gordon Wasson e Peter Furst mostraram que os enteógenos tiveram um papel privilegiado em praticamente todas as culturas tradicionais, e aqui no Brasil, por sorte, algo disso ainda sobrevive. No entanto, como os homens médios têm mania de fechar portas - não só as suas como também as alheias - ao invés de abri-las, eu não costumo tocar nesse assunto e sempre tenho receio de ver esse tema sendo noticiado na imprensa. Mas esta matéria publicada n'O Globo me deixou um pouco mais esperançoso. Continuo achando que arte, ciência e filosofia são as potências fundamentais na autoprodução do homem, mas como disse Don Juan Matus, um empurrãozinho enteógeno pode ser às vezes um meio eficaz para sacudir nossa burrice e nosso torpor.

27.9.11

OVNI

Esta coisa passou hoje pelo céu, na direção sudeste-sudoeste, pouco antes das 6 da manhã. A filmagem (obviamente feita às pressas) está aí embaixo. O que será? Eu acho que é sucata espacial. Façam suas apostas.


22.9.11

Troy Davis (2)

Buy the movie 12 angry men
and get a free totalitarian state
full of mothers and daughters
thirsty for
(poisoned by a lethal injection)
blood


Troy Davis


 

20.9.11

to have, or not to have

Por esses dias soube de alguém que, sentindo-se incomodado por possuir bens, vendeu tudo e foi viajar. Vivi na rua por mais de um ano quando jovem, e sempre me interessam esses movimentos de desapego, desposse, desterritorialização. Hoje, porém, embora carregue nas costas uma talvez incômoda carga de livros, discos e filmes, não me imagino abandonando meus... bens? Mas que bens? Eu não tenho casa, carro, barco, jóias, obras de arte. Na verdade, eu não tenho "bem" algum, eu não sou em nenhuma hipótese um "possuidor de bens". Quando olho para um livro eu não vejo um livro, vejo um homem falando ou tentando falar comigo. Quando olho para um disco, eu não vejo um disco, vejo homens fazendo música. Mesmo meu computador não é um mero arranjo de partes materiais, mas uma estação de trabalho por meio da qual eu produzo a mim mesmo. E mesas, cama, estantes, armários, não passam de suportes, extensões do inevitável chão. Que dizer, então, de meu corpo? Tampouco ele é um "bem", tampouco ele me "pertence", tanto quanto qualquer outro pedaço de matéria do universo. Talvez "ter" seja, assim como "ser", um falso problema. Aquilo que teimosamente chamamos de "matéria" não se oferece a nós para ser possuída (ou abandonada), mas sim para ser, por assim dizer, espiritualizada.

31.8.11

A carona, o estribo, o pongar no bonde

Há dois dias escrevi uma nota, que estou publicando aqui com um certo atraso. Ela foi motivada por dois textos. O primeiro deles foi publicado no UOL:

A Secretaria Estadual de Transportes do Rio de Janeiro propôs ao Ministério Público a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para a instalação de estribos retráteis nos bondes de Santa Teresa. A iniciativa acabaria com as tradicionais viagens sobre o estribo. Algo ainda em estudo. “O objetivo é orientar e conscientizar os passageiros sobre a utilização segura do transporte, pondo fim às viagens sobre o estribo”, afirma a secretaria em nota. O projeto ganhou força depois da morte do turista francês Charles Damien Pierson (...) Quem contradiz a proposta afirma que viajar no estribo é uma “questão cultural” já que há 115 anos o carioca cultiva a tradição de viajar dessa maneira.

O segundo foi publicado no site da AMAST, onde acabei deixando, a título de comentário, o texto que se lê a seguir. Ele é a defesa de uma prática - única no mundo, ao que parece - que nós, cariocas, chamamos de pegar carona, mas que pode ser descrita também como pongar no bonde. Muito resumidamente, trata-se de saltar da parte dianteira do bonde e subir novamente em sua parte traseira; obviamente, quanto maior a velocidade do bonde, mais perigosa será a manobra. Apenas os melhores conseguem realizá-la nas maiores retas, onde o bonde atinge sua velocidade máxima. Uma variação extremamente valorizada (de imensa plasticidade e valor estético) é saltar do bonde de costas. Em minha adolescência, pratiquei muito esse esporte que irmanava, num pacto silencioso de respeito mútuo, garotos de classe média e garotos das favelas do bairro. Tenho lembranças maravilhosas dessa época e me dói muito pensar que as novas gerações poderão ser forçadas a desconhecer uma prática que, repito, me parece ser única em todo o mundo. Pode-se, certamente, qualificar a carona como um esporte marginal; que seja, e eu de fato não creio que ele se torne jamais um esporte olímpico; mas também o samba, um dia, foi marginal. Outros povos matam golfinhos a golpes de porrete e chamam isso de cultura; mas em nome de que nós, cariocas, renunciaríamos a essa prática esportiva que faz parte de nossa cultura? Em nome da segurança? Se for por essa razão, deveríamos proibir imediatamente a venda de carros, pois eles são responsáveis por uma multidão de mortes em nosso país e no resto do mundo. Não somos e não queremos ser alemães ou norte-americanos; somos e queremos continuar sendo cariocas. Espero que a insensibilidade de alguns não faça morrer esse pequeno e singular espaço de liberdade de que gozamos há mais de um século.

Segue, sem modificações, a nota publicada (como comentário) no site da AMAST.

Excelente artigo, e todos nós sabemos que tipo de gente preconiza a repetição de mentiras como um meio de forjar verdades. No entanto, creio que o item 5 (sobre o uso do estribo) precisa ser discutido.


É claro que a superlotação dos bondes, provocada pelo absoluto descaso das autoridades competentes, força muitos usuários (que prefeririam viajar dentro do bonde) a andar no estribo, o que é um absurdo. E também é claro que deveria haver, ao menos na Estação da Carioca, servidores capacitados a orientar os turistas, estrangeiros ou não, sobre os perigos de viajar no estribo.


No entanto, andar no estribo é, para alguns, uma maneira de não pagar a passagem. Isso pode não parecer importante para muitos moradores do bairro, mas certamente é importante para os moradores de comunidades carentes. Além disso, andar no estribo - algo que nós, cariocas, chamamos de pegar carona e que outros podem chamar de pongar no bonde - foi e continua sendo, para muitos, um esporte. É, sem dúvida, um esporte perigoso; mas o perigo, a meu ver, não desqualifica a priori esse esporte. Há quem tenha morrido por levar uma bolada jogando futebol de salão, e não é por isso que se irá proibir o futebol de salão. Há quem morra afogado, e não é por isso que se irá proibir o banho de mar. Pode-se - e deve-se - alertar as pessoas sobre os riscos que elas podem vir a correr. Mas tomar decisões pelos outros é algo que não se pode nem se deve fazer.


Em resumo, ninguém pode ser forçado a andar no estribo em função do desmazelo dos nossos governantes. Deve haver bondes em número suficiente para as necessidades dos usuários e isso não é negociável. Mas ninguém pode ser proibido de andar no estribo em função do excesso de zelo de quem não gosta de andar no estribo. Há, sim, quem goste de fazê-lo. E andar no estribo é, de fato, uma tradição, uma cultura e um esporte. Mas isso nada tem a ver com os desmandos que sucatearam o principal meio de transporte público em Santa Teresa.



28.8.11

Os bondes de Santa Teresa

Eu morei em Santa Teresa durante dois anos, mas muito antes disso (desde os onze anos de idade) eu já freqüentava o bairro e pegava carona no bondinho. A carona é uma espécie de esporte local cujos fundamentos são saltar e subir no bonde em alta velocidade.

Pois bem. Até aqui, cinco pessoas morreram e 57 ficaram feridas no acidente de ontem com o bondinho de Santa Teresa. Assim, é certo que havia um total de 62 pessoas no veículo, mas poderia haver ainda mais gente, já que é extremamente plausível que vários caroneiros tenham saltado do bonde entre o momento em que ele descarrilou e o momento em que ele tombou e bateu no poste. Há um dado em favor dessa hipótese: o bonde tombou para o lado direito, mas o lado esquerdo (o lado que dá para o meio da rua) é tradicionalmente o lado preferido pelos caroneiros. Se um levantamento determinasse que o número total de passageiros nos instantes anteriores ao descarrilamento passava de 70, eu não me surpreenderia.

foto: http://johnmarkhopkins.com/ (clique para ampliar)

Como se pode ver na foto acima, esse modelo de bonde, o mais antigo ainda em circulação, possui oito bancos reversíveis, e cada banco comporta quatro passageiros. A lotação oficial do bonde é de 44 passageiros (32 sentados e 12 em pé), mas sempre há gente viajando no estribo, o que pode facilmente elevar o número de passageiros a 60.

É por isso que, poucas horas depois do acidente com o bondinho de Santa Teresa, o secretário de transportes do Rio de Janeiro, Júlio Lopes, afirmou que a superlotação do veículo é um "fenômeno cultural de Santa Teresa". No entanto, e é por isso que eu resolvi escrever esta breve nota, o secretário de transportes está cometendo uma falácia. Quando uma moradora do bairro oferece ao motorneiro um lanche grátis, ou quando um caroneiro ajuda o trocador a reverter a posição dos bancos e a engatar o "chifre" que conduz eletricidade, ou ainda quando um passageiro cede seu lugar a um idoso, estamos diante de um fenômeno cultural; mas quando um bonde que não recebe manutenção adequada está transitando muito acima de sua capacidade, trata-se de um fenômeno de outra ordem: é um simples fato administrativo. Ao invés de responsabilizar a "cultura" do bairro, o secretário de transportes do Rio de Janeiro deveria mui simplesmente reconhecer que os bondes de Santa Teresa estão funcionando muito além do limite da precariedade.

Fato que, por si só, é espantoso. Afinal, o investimento nos bondes de Santa Teresa não beneficiaria apenas os moradores do bairro, mas também ajudaria a alavancar o turismo na cidade. E por falar em turismo, por que o jovem francês Charles Damien Pierson morreu? Eu diria que ele morreu porque foi forçado a viajar no estribo, já que o intervalo entre os bondes, em vez de ser de dez minutos (como era nos anos 70 e 80), é de uma hora. É de admirar que os bondes, hoje em dia, só andem superlotados? Não, não foi a "cultura" de Santa Teresa que matou Charles. Foi a falta de lugar no bonde, foi a falta de bonde. Do mesmo modo, a tragédia ocorrida ontem não foi provocada por um "fenômeno cultural". Ela foi provocada pelo descaso de políticos e administradores sem nenhuma visão de futuro, capazes de matar a galinha dos ovos de ouro e deixar o povo que anda de bonde a ver navios.

Bondinho de Santa Teresa: travessia sobre os arcos da Lapa (vídeo)

P.S.:
Nota da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa

P.S. II:
Superlotação pode contribuir, mas não derruba bonde”, diz Crea

P.S. III:
Crea: análises indicam que freio de bonde foi acionado, mas não funcionou

"O que pode ter acontecido, segundo o engenheiro, é que, ao notarem o bonde desgovernado, as pessoas tenham entrado em pânico e tentado saltar, fazendo peso e tombando o carro."

Fora dos trilhos e em movimento, a estabilidade de um bonde é muito precária. Assim, os engenheiros do CREA estão na direção correta ao levar em conta as pessoas que saltaram ou tentaram saltar do bonde quando este descarrilou. Não pelo motivo alegado, mas porque, ao contrário, as pessoas que saltaram aliviaram o peso do bonde. Como afirmei acima, o lado esquerdo do bonde é o preferido pelos caroneiros e, em geral, por todos que sabem subir e descer do bonde em movimento. Assim, faz sentido que o bonde tenha tombado para o lado direito: não porque pessoas "fizeram peso" ao saltar, mas, ao contrário, porque o peso foi aliviado predominantemente de um só lado do bonde.

É claro que tudo isso é especulação, e principalmente, é claro que nada disso explica as causas profundas do acidente, que devem ser buscadas na manutenção precária dos bondinhos e no descaso das autoridades em relação a esse transporte público que é dos mais charmosos do mundo.

"Ainda são análises preliminares, mas constatamos que os trilhos não apresentam marcas que indicam travamento da roda, apesar de o freio ter sido acionado", explicou o engenheiro e vice-presidente do Crea, Luiz Antônio Cosenza.

Já nas primeiras análises técnicas, a verdade começa a aparecer. Recomendo vivamente aos leitores uma visita atenta ao sítio da AMAST, para que não fiquem à mercê das manipulações forjadas pelos administradores da coisa pública e veiculadas pela grande imprensa.

P.S. IV:
Não custa esclarecer en passant porque o lado esquerdo do bonde é o franco favorito dos caroneiros e das pessoas que gostam de andar no estribo do bonde. Em primeiro lugar, o lado esquerdo, por ser o lado que dá para o meio da rua, é o único que permite as manobras da carona, sendo a principal delas descer na parte dianteira do bonde e subir novamente na parte traseira - tudo isso, de preferência, quando o bonde está em alta velocidade. Em segundo lugar, quem anda do lado esquerdo usa o pé direito, tanto para subir no bonde quanto para descer dele (o pé direito é o primeiro a tocar o chão). Por fim, se andar do lado esquerdo é um tanto perigoso por causa dos carros que vêm em sentido contrário, andar do lado direito talvez seja ainda mais perigoso, pois muitas vezes o bonde passa bem perto dos postes.

Talvez pareça estranha a alguns leitores a discussão desses detalhes num momento trágico e doloroso como este. Mas assim como eu não sou de rezar, também não sou de me deter em lamentações. Tiro da dor força e motivação para tentar entender e explicar as coisas, pois acredito na potência do entendimento. Insensíveis são os nossos políticos.

P.S. V:
Eis aqui uma imagem que retrata o estado de conservação dos bondinhos de Santa Teresa. Ela mostra o uso de um arame no lugar onde deveria haver um grande parafuso. É um detalhe que não explica diretamente a tragédia de sábado, mas que explicita como tem sido feita a manutenção dos bondes: sem recursos e material adequado, os mecânicos foram forçados a recorrer à gambiarra que se vê abaixo. Obviamente, são os responsáveis pela falta de verba que devem ser responsabilizados criminalmente pelo acontecido.


27.8.11

Nostalgias de Menfis

 por Mário Zambonin
Traducción © 2000 by Carolina Collazo Ibáñez

Larga vida para ti, mi hermano distante. Que los dioses vivos y muertos te prodiguen el pan, pero sobre todo la luz perenne que irradia en todas partes. Temo por mi suerte, bien lo sabes, desde mi transferencia a este miserable villorrio del delta oriental. Mi corazón partió en secreto, el viaja, sube el río para rever Menfis, mas permanezco atado a esta tierra extraña, en este suelo pantanoso donde se revuelcan rebaños, y cocodrilos. Mis peticiones fueron subrepticiamente bloqueadas por Kaper, el mezquino Jefe de Policía de Kenken-taue, y todas nuestras cartas leídas por él antes de llegar a su destino - todas, menos ésta, que irá a estar contigo llevando mi humilde sello todavía intacto. Cuento con el discreto auxilio de un mensajero fiel, veloz como una sombra, por cuyos servicios providencié (para que le sean entregados después de la ejecución de su tarea) incontables cántaros de cerveza, una vez que su desobediencia a las órdenes de Kaper podrá costarle las orejas o la nariz. Escribo para decirte adiós, pues lo más cierto, hermano, es que no nos veamos nuevamente sino del otro lado del horizonte; pero como podría dejar de contarte todo lo que omití en las demás cartas, y por tanto substraje a la inquisición de Kaper, si debo mi vida a esa prudente omisión? Desarrolla cuidadosamente este papiro, hermano mío, pues es a tu hermano distante que estarás explicando.

Kenken-taue es un antro de funcionarios astutos, mancomunados entre sí para sacar provecho de estos pobres campesinos y robar al faraón. Descubri sus saqueos por azar, y ya no tengo paz, pues desconfían que yo sea un agente de confianza del Visir, enviado para investigar y denunciar sus crímenes, y traman tirarme en mi horizonte; de ese modo, hermano, soy yo, que traigo el corazón leve cual pena de avestruz, quien debe huír sin demora, huír bien lejos. Están en eso casi todos los funcionarios graduados del lugar : el director, el director adjunto y el guía de los escribas, el guardián de los graneros, el tesorero jefe, el director de cuernos, cascos y plumas, sin hablar del infame de Kaper. Esa gente exige que hablemos delante de ellos, pero no nos escucha, habla de nosotros pero no habla con nosotros; no hay uno de ellos que no se proclame sabio y justo y conocedor de los secretos del cielo. Sus subordinados, esos disputan ventajas y promociones, y cultivan celosamente el precepto que entre los escribas es tenido como el ápice de la sabiduría : "Inclínate delante de tu superior y huélele los pies". Mi corazón se cansa de estar entre los hombres; quiere que me vaya para arriba o para abajo, me encuentro recluso en la más perfecta soledad, y ni la paciencia me puede ayudar. Malhechores a sueldo de Kaper acechan día y noche; mi corazón da saltos como un cabrito, pues sé que ellos solo precisan de un pretexto para guardarme en el poniente. Siendo seguido en mis pasos y teniendo mi correspondencia violada, no puedo alzar la voz para hacerme oír, y ni El, que tiene millones de orejas, podrá atender a mi sordo clamor. Además de eso, no tengo pruebas de lo que ocurre en Kenken-taue, a menos que como prueba se acepte considerar el estado lastimoso de su pueblo. Aquí ya no existen moldeadores de ladrillos, pues no hay paja, y mismo un escriba puede verse obligado a vivir debajo de un árbol; pero los templos son de piedra. Puedes imaginar, hermano, lo que es acostarse a la intemperie sin la protección del terebinto, entregado a la saña de tantos mosquitos como estrellas, o despertar por la mañana babeado por chacales y perros, todavía más numerosos que las mujeres del Dios bueno, que me seguirían, si los dejase, hasta el recinto donde me siento a hacer y rehacer listas fastidiosas? Me atasqué en este lugar hace casi cuatro llenas, y esta Tamareira, cuyos frutos jamás vi, me acogió bajo sus verdes hojas; pero hasta cuándo deberé permanecer a su sombra? Hasta que decidan mandar a mi encuentro al bandido que, sin forzar puertas, sin saltar ventanas, invadirá mi sueño y enterrará su daga en mi pecho?

Como me gustaría remontar el Nilo, nuevamente mirar la esfinge de garras magníficas, rever las albas murallas de Menfis y contemplarlas sin trabas, y más que todo, hermano, verte con salud y estrecharte en mis brazos! Pero pesa sobre mi la vigilancia obstinada de los hombres de Kaper, por lo que forjé un amargo plan, pero capaz de salvarme la vida. Como sabes, desde que vine para el Delta acostumbro visitar regularmente la ciudad de Busiris, donde fui iniciado en los misterios del Dios, y también Bubastis, cuyas fiestas en honor a Bastet comenzarán en breve. Esta noche partiré, debiendo llegar a Bubastis al inicio de la gran fiesta, a tiempo de participar de las orgías promovidas para la Diosa de la Alegría. Ese viaje rutinario no inspirará ninguna precaución adicional a los agentes de Kaper, que me seguirán, por cierto, pero luego serán distraídos por las celebraciones, mientras yo estaré atento y diligente. Prestaré con especial fervor mis tributos a Bastet, después encontraré a aquel que, en silencio, rapará mi cabeza; calzaré sandalias de papiro, lanzaré sobre el cuerpo inmaculada túnica de lino, y saldré de la ciudad semejando a un sacerdote de Osiris. Pasará mucho tiempo hasta que los hombres de Kaper perciban mi huída; ellos vigilarán el inmenso desierto y detendrán los barcos al subir al río, pero nunca adivinarán que yo, sereno como de hábito, habré descendido el río y adentrado en el mar, abandonando mi país para escapar de un destino atroz.

Mientras los capangas de Kaper estén llevándose bastonazos en las manos y en los pies, apuntaré para el norte, pasaré por Palestina e iré a Mesopotamia, donde se murmura la invención de un nuevo juego, diferente de cuantos juegos conocidos, y jugados. Si la suerte me acompaña, mi sol renacerá, y viviré una nueva vida, tal vez allí, tal vez entre los pueblos del desierto, tal vez lo bastante para volver a verte, hermano; mas puede ser que yo perezca en manos de salteadores o de las milicias imperiales, siendo abandonado en el desierto sin que nunca se hagan mis funerales, y que, privado de ofrendas, tenga que beber mi orina y comer mis excrementos. Sea como fuere, no te aflijas, hermano, pues mismo que yo vaya a entrar en el horizonte, mismo que las horas incesantes vengan a devorar nuestra amada Menfis, y mismo que termines por olvidarte de mi, seré contigo, hermano, pues mi corazón partió en secreto junto a ti.



 escrito em 1994, originalmente publicado em caosmos.com (site extinto)

Saudades de Mênfis

por Mário Zambonin

Vida longa para ti, meu irmão distante. Que os deuses vivos e mortos te prodigalizem o pão, mas sobretudo a luz perene que irradia a toda parte. Temo pela minha sorte, irmão, bem o sabes, desde minha transferência para este miserável vilarejo do delta oriental. Meu coração partiu em segredo, ele viaja, sobe o rio para rever Mênfis, mas permaneço atado a esta terra estranha, neste solo pantanoso onde chafurdam rebanhos, e crocodilos. Minhas petições foram sorrateiramente bloqueadas por Kaper, o mesquinho chefe de polícia de Kenken-taue, e todas as nossas cartas lidas por ele antes de chegarem ao seu destino - todas, menos esta, que irá ter contigo levando o meu humilde selo ainda intacto. Conto com o discreto auxílio de um mensageiro fiel, veloz como uma sombra, por cujos serviços providenciei (para que lhe sejam entregues depois da execução de sua tarefa) incontáveis cântaros de cerveja, uma vez que essa desobediência às ordens de Kaper poderá custar-lhe as orelhas ou o nariz. Escrevo para dizer-te adeus, pois o mais certo, irmão, é que não nos vejamos novamente senão do outro lado do horizonte; mas como poderia deixar de contar-te tudo quanto omiti nas demais cartas, e portanto subtraí à devassa de Kaper, se devo minha vida a essa prudente omissão? Desenrolai cuidadosamente este papiro, irmão meu, pois é teu irmão distante que estarás explicando.

Kenken-taue é um antro de funcionários astutos, mancomunados entre si para tirar proveito destes pobres camponeses e roubar o faraó. Descobri seus saques por acaso, e já não tenho paz, pois desconfiam que eu seja um agente de confiança do vizir, enviado para investigar e denunciar seus crimes, e tramam deitar-me no meu horizonte; desse modo, irmão, sou eu, que trago o coração leve qual pena de avestruz, quem deve fugir sem demora, fugir para bem longe. Estão nisso quase todos os funcionários graduados do lugar : o diretor, o diretor-adjunto e o guia dos escribas, o guardião dos celeiros, o tesoureiro-chefe, o diretor de chifres, cascos e plumas, sem falar no infame Kaper. Essa gente exige que falemos diante deles, mas não nos escuta, fala sobre nós mas não fala conosco; não há um deles que não se proclame sábio e justo e conhecedor dos segredos do céu. Seus subordinados, esses disputam vantagens e promoções, e cultivam ciosamente o preceito que entre escribas é tido como o ápice da sabedoria : "Curva-te perante teu superior e cheira-lhe os pés". Meu coração se cansa de estar entre os homens; quer me volte para cima ou para baixo, acho-me recluso na mais perfeita solidão, e nem mesmo a paciência pode me ajudar. Malfeitores a soldo de Kaper espreitam dia e noite; meu coração pula como um cabritinho, pois sei que eles só precisam de um pretexto para guardar-me no poente. Sendo seguido em meus passos e tendo minha correspondência violada, não posso alçar a voz para fazer-me ouvir, e nem mesmo Ele, que tem milhões de orelhas, poderá atender ao meu surdo clamor. Além do mais, não tenho provas do que ocorre em Kenken-taue, a menos que como prova aceite-se considerar o estado lastimável de seu povo. Aqui já não existem moldadores de tijolos, pois não há palha, e mesmo um escriba pode se ver obrigado a morar embaixo de uma árvore; mas os templos são de pedra. Podes imaginar, irmão, o que é deitar ao relento sem a proteção do terebinto, entregue à sanha de mosquitos muitos como estrelas, ou despertar pela manhã bafejado por chacais e cães, ainda mais numerosos do que as mulheres do Deus bom, que me seguiriam, se os deixasse, até o recinto onde me sento para fazer e refazer listas enfadonhas? Atolei neste lugar há quase quatro cheias, e esta tamareira, cujos frutos jamais vi, me acolheu sob suas verdes folhas; mas até quando deverei permanecer à sua sombra? Até que decidam mandar ao meu encontro o bandido que, sem forçar portas, sem pular janelas, invadirá meu sono e me enterrará sua adaga em meu peito?

Como gostaria de remontar o Nilo, novamente olhar a esfinge de garras magníficas, rever as alvas muralhas de Mênfis e contemplá-las sem entraves, e mais que tudo, irmão, ver-te com saúde e estreitar-te em meus braços! Mas pesa sobre mim a vigilância obstinada dos homens de Kaper, pelo que forjei um plano amargo, porém capaz de salvar-me a vida. Como sabes, desde que vim para o delta costumo visitar regularmente a cidade de Busíris, onde fui iniciado nos mistérios do Deus, e também Bubastis, cujas festas em honra a Bastet começarão em breve. Esta noite partirei, devendo chegar em Bubastis no início da grande festa, a tempo de participar das orgias promovidas pela deusa da alegria. Essa viagem rotineira não inspirará nenhuma precaução adicional aos agentes de Kaper, que me seguirão, por certo, mas logo serão distraídos pelas celebrações, enquanto eu estarei atento e diligente. Prestarei com especial fervor meus tributos a Bastet, depois encontrarei aquele que, em silêncio, raspará minha cabeça; calçarei sandálias de papiro, lançarei sobre o corpo imaculada túnica de linho, e sairei da cidade semelhando um sacerdote de Osíris. Demorará muito até que os homens de Kaper percebam minha fuga; eles vigiarão o deserto imenso e deterão os barcos a subir o rio, mas nunca advinharão que eu, sereno como de hábito, terei descido o rio e adentrado o mar, abandonando meu país para escapar a um destino atroz.

Enquanto os capangas de Kaper estiverem levando bastonadas nas mãos e nos pés, apontarei para o norte, passarei pela Palestina e irei para a Mesopotâmia, onde murmura-se a invenção de um novo jogo, diferente de quantos jogos conhecidos e jogados. Se a sorte me acompanhar, meu sol renascerá, e viverei uma nova vida, talvez ali, talvez entre os povos do deserto, talvez o bastante para rever-te, irmão; mas pode ser que eu pereça nas mãos de salteadores ou das milícias imperiais, sendo abandonado no deserto sem que nunca se façam os meus funerais, e que, privado de oferendas, tenha que beber minha urina e comer meus excrementos. Seja como for, não te aflijas, irmão, pois mesmo que eu venha a entrar no horizonte, mesmo que as horas incessantes venham a devorar nossa amada Mênfis, e mesmo que termines por te esqueceres de mim, serei contigo, irmão, pois meu coração partiu em segredo para junto de ti.




escrito em 1994, originalmente publicado em caosmos.com (site extinto)

23.8.11

O que é discriminar?


Uma simples consulta ao dicionário evidencia que o verbo "discriminar" significa primordialmente discernir, distinguir, estabelecer uma diferença. Nesse sentido, a discriminação é essencial à vida. Um animal que não soubesse discriminar sua presa de seu predador, ou que não soubesse discriminar o alimento do veneno, morreria rapidamente. Um organismo que não discriminasse o que é próprio e o que é estranho (sistema imunológico) também. A membrana de cada célula é um órgão de discriminação, e pode-se dizer o mesmo de cada enzima. Em resumo, a vida é impensável sem o que chamamos de discriminação.

Por outro lado, a discriminação, no último sentido listado no dicionário, é ilegal, é inconstitucional. Isso significa que todos têm os mesmos direitos perante a Lei e não podem ser tratados desigualmente em função de suas diferenças religiosas, étnicas, sexuais, etc.

Muito bem. Deveríamos, por discriminatória, abolir a classificação estelar de hotéis e de restaurantes, ou impedir que se divulgue a classificação de excelência das universidades? Essa idéia fará o leitor rir, ou ao menos sorrir. Entretanto, está acontecendo algo semelhante com a proposta de divulgar a classificação Ideb (Índice da Educação Básica) na porta das escolas. Classificar (discriminar) as escolas de acordo com seu desempenho não é ilegal, mas afixar essa classificação na porta das escolas, sim. Ou ainda, oferecer educação pública de má qualidade não é crime, mas divulgar esse fato na porta da escola fere - na opinião de alguns - o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), e a própria Constituição brasileira.

Fico imaginando quais serão os próximos passos. As escolas serão proibidas de divulgar as notas dos alunos para seus próprios pais, já que notas baixas podem submetê-los a "vexame" e "constrangimento" no ambiente familiar. E os meios de comunicação serão proibidos de noticiar as quedas de clubes de futebol da primeira para a segunda divisão, pois os torcedores do clube rebaixado podem sentir-se discriminados por torcer para um clube de categoria inferior. Muitos desses torcedores, é bom não olvidar, são crianças e adolescentes.

Fontes:

A favor do Ideb na Escola (belo artigo de Gustavo Ioschpe)
Para especialistas, Ideb na porta da escola é inconstitucional


12.7.11

trem-bala



Piadas à parte, a novela do trem-bala brasileiro está me deixando preocupado, sobretudo por causa desta entrevista com Zhao Jian, professor da Universidade de Transportes da China. É um documento breve, de leitura rápida, e altamente esclarecedor.

Se é para pagar a conta, melhor não fazer.


fonte da imagem: overmundo

20.6.11

4.6.11

Eu não esqueci!

Estou aqui apenas para avisar que não me esqueci de minha promessa. Em breve vou concluir a série iniciada há algumas semanas.

Tive que fazer uma pausa para analisar as recentes declarações do ex-presidente THC.

É claro que não vou me manifestar sobre o assunto, já que não tenho imunidade diplomática.

1.5.11

O massacre de Realengo (3)

"A rebelião dos escravos na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e engendra valores: o ressentimento daqueles seres aos quais está vedada a autêntica reação, a reação da ação, e que se contentam com uma vingança imaginária. Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante sim dito a si mesmo, a moral dos escravos diz não, previamente, a um "fora", a um "outro", a um "não-eu"; e é esse não que constitui sua ação criadora." (Nietzsche, A genealogía da moral, parte I, 10)

Todos vocês já tevem ter visto os cinco vídeos - realizados pelo próprio atirador de Realengo - que foram liberados no dia 14, um dia depois da postagem anterior. Todos são esclarecedores, sobretudo o mais longo, de seis minutos e meio. Também surgiram algumas anotações do atirador.

Como pretendo encerrar este assunto em apenas duas postagens, não vou me deter numa análise desses documentos. É hora de tentar uma síntese, mesmo que provisória, encaminhando o tema para uma síntese ainda mais abrangente - que será realizada, claro, na postagem final. E como me parece que uma (boa) síntese só pode ser concebida e realizada a partir de um problema, vou iniciar a minha a partir de uma pergunta bastante singela: por que, logo depois da comoção inicial com o massacre - e mesmo durante essa comoção - a maior parte das pessoas parecia querer livrar-se desse tema incômodo e, por assim dizer, varrê-lo para debaixo do tapete?

Creio que a pertinência do próprio problema dificilmente poderia ser questionada. O poder executivo, instado por uma autoridade católica, arrogou-se o direito de rapidamente decretar o fim de um luto que, afinal de contas, não lhe pertencia. Sintomático, eu diria. Permitir que o luto e as homenagens se prolongassem (por exemplo) até o domingo seguinte não faria mal a ninguém.

O poder legislativo, por sua vez, apressou-se a discutir o tema do controle das armas de fogo, como se a mera disponibilidade de armas de fogo fosse uma variável essencial da tragédia. O que eles fariam se o massacre fosse perpetrado com facas, como aconteceu várias vezes na China? Passaríamos a cortar o pão com cartões de crédito? Em seu afã de serem lembrados de maneira positiva pelos seus eleitores num momento tão grave (e tão fartamente televisionado), nossos congressistas parecem não ter compreendido que levantar o problema das armas numa hora como essa só ajudaria a escamotear os verdadeiros problemas; a não ser que fosse precisamente essa a sua intenção, mesmo que inconsciente.

A mídia, por sua vez, apressou-se a chamar especialistas - sobretudo psiquiatras forenses - capazes de diagnosticar a doença mental de Wellington; o que, se pensarmos bem, era simplesmente a obtenção de um aval científico para o que o senso comum já dizia desde o primeiro momento: o atirador só podia ser um louco. Por fim, vários cidadãos, sobretudo jovens, identificaram no bullying ou assédio escolar o principal fator da tragédia, ao passo que outros, em número bem menor, identificaram como decisivas as supostas vinculações do atirador com terroristas islâmicos.

Hoje, pouco mais de três semanas depois da chacina, não é exatamente esse o quadro que temos do massacre de Realengo? (1) Um portador de esquizofrenia paranóide, (2) vítima pretérita de bullying, (3) possivelmente manipulado ou influenciado por religiosos fanáticos que querem dominar o mundo (aqui, é claro, temos apenas uma suposição), (4) não encontrou dificuldades para armar-se até os dentes e assassinar doze crianças a sangue frio. Em resumo, era um pobre louco que se levava demasiadamente a sério e que, aproveitando-se da facilidade de acesso a armas ilegais, resolveu vingar-se de seu sofrimento em pessoas que nada tinham a ver com ele. Fato lamentável, porém único neste país, e cuja repetição é extremamente improvável. Caso encerrado.

Encerrado? Mas por que tanta pressa? Será que já fizemos os nossos melhores esforços para compreender tudo que está envolvido nesse massacre? Eu estou convencido que não, e vou fazer meu próprio esforço na próxima postagem.

14.4.11

O massacre de Realengo (2)

Uma semana depois da chacina, temos bem mais informações a respeito de seu autor e de suas motivações. Temos, por exemplo, este novo e importante vídeo (liberado ontem pela TV Folha) em que Wellington fala explicitamente dos "bons" e dos "maus".

Antes de entrar no mérito da questão, façamos uma recapitulação do que já sabemos sobre o caso. Wellington Menezes de Oliveira foi adotado e, ao que tudo indica, sabia disso. Durante sua época de aluno na Escola Municipal Tasso da Silveira, ele foi vítima de bullying ou, em bom português, de assédio escolar - chegando a ter sua cabeça enfiada num vaso sanitário. O comerciante Rodrigo Pereira, tio de uma das meninas assassinadas, afirmou que a prática de assédio escolar é comum naquele colégio e que ele mesmo já foi vítima dela. Por fim, sabemos que Wellington não era artista, nem filósofo, nem cientista, e que produziu a si mesmo (ou foi produzido) a partir de idéias de fundo religioso.

Começemos nosso trabalho fazendo uma análise do texto proferido por Wellington no vídeo mencionado acima.

A maioria das pessoas me desrespeita. Acham que sou um idiota. Se aproveitam de minha bondade. Me julgam antecipadamente. São falsas, desleais. Descobrirão quem sou da maneira mais radical, numa ação que farei pelos meus semelhantes, que são humilhados, agredidos, desrespeitados em vários locais, principalmente em escolas e colégios, pelo fato de serem diferentes, de não fazerem parte do grupo dos infiéis, dos desleais, dos falsos, dos corruptos, dos maus. São humilhados por serem bons.

Wellington divide o gênero humano em "maus" e "bons". Religiosos de todas as denominações se apressaram a negar que o assassino de Realengo tenha compreendido até mesmo os fundamentos mais básicos de suas respectivas religiões, porém é inegável que a operação realizada por Wellington encontra seu fundamento na religião e na moral religiosa. Não é que apenas a religião e a moral dividam os homens em "maus" e "bons". Apenas para mencionar dois exemplos, Spinoza e Nietzsche também fazem esse tipo de distinção; entretanto, tudo indica que as referências de Wellington não são essas. Mas voltemos à análise do texto. Para referir-se aos "maus", Wellington se serve de quatro adjetivos diferentes: "infiéis", "desleais", "falsos", "corruptos". Note-se de passagem que, no curto bilhete de suicídio do matador, encontraremos também os adjetivos "impuro", "fornicador" e "adúltero". Levando-se em conta que, mesmo somados, os dois textos mencionados mal ultrapassam meia página, é preciso admitir que Wellington dispunha de uma considerável riqueza lingüística quando se propunha a caracterizar os "maus".

E os bons? Quem são eles? Como Wellington os caracteriza? Afora a locução "fiel seguidor de Deus" (utilizada no bilhete de suicídio), não há, nos textos de Wellington, adjetivos que caracterizem os bons em sua bondade. Isso não significa que os "bons" não estejam devidamente caracterizados. Os bons são "humilhados", "agredidos", "desrespeitados". Creio que o leitor já percebeu onde quero chegar: para o matador de Realengo, os bons são definidos pelas ações dos maus. Não há nada que defina de maneira intrínseca e positiva a sua bondade. Eles são definidos pelas ações de outrem. Em resumo, os bons se definem a partir do que eles não são, eles se definem a partir dos maus e de suas ações.

Esta postagem já está suficientemente longa e, por ora, eu não posso me estender mais. Deixo como indicação de leitura a primeira dissertação do livro A Genealogia da Moral, de Nietzsche. E a promessa de voltar muito em breve - talvez já na madrugada de hoje - com a continuação desta série.

7.4.11

O massacre de Realengo

Nem é preciso ligar a televisão para saber o que dirão sobre Wellington  Menezes de Oliveira, o rapaz que assassinou pelo menos doze crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo.

Dirão que é um "louco", um "alucinado", um "psicopata" e coisas de semelhante jaez. Só que há miríades de loucos por aí e nenhum deles (até aqui) havia praticado uma barbaridade dessas numa escola brasileira.

Já se sabe que o rapaz foi influenciado por idéias do fundamentalismo islâmico. Os muçulmanos se apressaram a negar qualquer vínculo entre Wellington e sua religião. Do mesmo modo, o rapaz menciona Jesus em seu bilhete de suicídio, porém nada indica que fosse filiado a alguma igreja cristã. Mas se nada autoriza que se busque uma explicação para o massacre na filiação formal do rapaz a esta ou aquela religião organizada, é impossível ignorar que, segundo os indícios que já surgiram, idéias de fundo religioso estavam no centro das preocupações de Wellington. E para ser inteiramente justo, é preciso dizer que uma dessas idéias, talvez a mais decisiva, provém de uma herança comum ao judaísmo, ao cristianismo e ao islamismo: a idéia de pureza.

"Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter contato comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão (...)"

Assim começa a carta de suicídio que Wellington trazia consigo. Nela, a idéia de pureza se apresenta com muita força e com muita minúcia. Eu não diria que a idéia de pureza basta para explicar o massacre de Realengo, mas é evidente que ela terá de ocupar, em qualquer explicação, um lugar central. Parece-me claro que a idéia de pureza era o centro de gravidade da vida desse rapaz e que sem essa referência não poderemos explicar, ou ao menos nos aproximar de uma explicação para o lamentável massacre ocorrido hoje.

Wellington não era um marginal. Ele não tinha antecedentes criminais e, ao que tudo indica, sua vida se resumia ao trabalho e à navegação na Internet. Filho adotivo, ele era tímido, arredio, de poucas palavras. Ele não atirou a esmo; ao contrário, ele escolheu seus alvos, e suas vítimas preferenciais foram as meninas; e entre as meninas, Wellington escolheu precisamente as mais velhas. A maioria delas tinha treze e quatorze anos, precisamente a idade em que as meninas começam a se tornar sexualmente atraentes.

É certo que há um componente de vingança no massacre de Realengo. Muito se irá especular sobre as ofensas - reais ou imaginárias - de que Wellington pode ter sido vítima durante os cinco anos em que estudou na Escola Tasso da Silveira. Mas se fará de tudo para escamotear esta triste verdade: Wellington acreditava estar cumprindo uma missão purificadora.

"Preciso da visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que em sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna."

O grifo é meu. A passagem é contraditória: o mesmo tempo em que Wellington reconhece que seus atos serão condenáveis, ele ainda tem esperança de conquistar um lugar entre os eleitos, na Jerusalém Celeste, depois do Apocalipse. Um simples assassino, e ainda mais um assassino em massa, dificilmente nutriria tal esperança. Mas Wellington parece estar convencido - embora não inteiramente, o que o diferencia de um fanático religioso autêntico - de que, no fundo, está fazendo a coisa certa.


Vou deixar para depois algumas considerações gerais sobre cultura e religião. Por ora, indico como leitura altamente recomendada neste momento de perplexidade o texto a pureza e a inocência, de Michel Tournier.

4.2.11

Didinium

No puppies
No teddies
No pets
No kids

No human face.

2.12.10

o ricochete sem confete

Confetes mútuos
ecoam como bumerangues.

Mil vezes afogados
no espelho d'água
de onde nem Deus
poderia salvá-los.

Enquanto isso,
um prosador filho da puta
mete a mão na merda.

17.10.10

meu dem, meu mal

9.9.10

Extremitates, aequalitates.

Só dois tipos de pessoas realmente sabem para que serve um jornal: os que leram muitos livros... e os que não sabem ler.

29.8.10

Da danação dos espelhos

"Posso falar uma coisa?"
"Não, estou pensando."

Pronto - já não estava mais pensando.

13.8.10

Sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"A televisão é como uma torradeira: você aperta o botão e a mesma coisa aparece toda vez."

Alfred Hitchcock

23.4.10

bobagem AE7-PJ32

Nada há, declara R.

11.4.10

pequena nota dominical sobre gente servil que se mete a cagar regras

Acabei de ler a seguinte bobagem: que a pronúncia “correta” da palavra crochê “deveria” ser croché (porque a palavra vem do francês crochet e porque é assim que os franceses a pronunciam.)

Mas isso não é “correção lingüística”, é servilismo. Cada povo faz (ou deveria fazer) o que bem entende quando pronuncia um termo de origem estrangeira. Os franceses pronunciam um nome próprio como “Klossowski” acentuando a última sílaba, e não há nisso “verdade” ou “erro”. Eles pronunciam como bem entendem justamente porque não são servis. Se temos algo a aprender com os franceses, é precisamente isso, e não a pronúncia desta ou daquela palavra.

6.4.10

palmas para eles

Um artista não quer aplausos. Isso ele deixa de bom grado para os animadores de auditório.

O que o artista quer é enxergar uma centelha de criação, ainda que mínima, nos olhos de seu público.
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