11.11.17

Waack é vítima?

Foi publicado hoje, na Folha de São Paulo, um artigo de Demétrio Magnoli com o seguinte título:

"Waack é vítima da fome insaciável das redes que exige sacrifício de figuras".

Ao fazer um "exercício de redução" no título do texto, obtive esta frase:

"Waack é vítima da fome insaciável das redes"

e, finalmente, a frase:

"Waack é vítima".

Será?

Numa emissora em que os telejornais são, se me permitem o neologismo, inassistíveis (este âncora balança compulsivamente a cabeça, aquela é capaz de afirmar que "pneumonia" se escreve com "p" mudo), o telejornal apresentado por William Waack se destacava com facilidade.

Similarmente, os textos de Demétrio Magnoli, juntamente com os de um seleto punhado de colunistas, se destacam em meio à mediocridade geral da Folha.

Digo tudo isso para ressaltar que não é por antipatia a nenhum dos dois que escrevo esta nota.

Magnoli provavelmente tem razão quando sugere que Waack não é pior do que muitos daqueles que o acusam. E também é provável que ele seja melhor do que aqueles que o defendem. Só que o problema não é esse.

O problema está na qualidade dos argumentos usados por Magnoli em seu texto.(1)
"Um clamor de indignação legítima nasce da janela que se abriu para um abismo interior de Waack. O jornalista admirado expeliu lixo. Somos todos, de alguma forma, lixeiras de séculos de violência, exclusão e preconceito."
Se é assim, não estariam todos os crimes perdoados de antemão? Se lixeiras somos e lixo é o que sai de nós, se somos todos vítimas, nenhuma discussão sobre ética faz o menor sentido.
"A URSS stalinista, a Alemanha nazista, a China maoísta, o Camboja de Pol Pot e a Cuba castrista estabeleceram o objetivo de criar o "homem novo". Os sistemas totalitários almejavam retificar não apenas o comportamento, mas a mente dos indivíduos, moldando-a segundo suas normas ideológicas. A escola, a propaganda, a prisão, a tortura e o campo de trabalhos forçados eram os instrumentos da pedagogia social.

Por sorte, todas essas tentativas fracassaram. Homens (e mulheres) "velhos", empapados de fraquezas e preconceitos, seguem constituindo as sociedades."
Ao mesmo tempo em que Magnoli comemora a renitente existência do "velho homem", ele parece confirmar o que diziam as velhas utopias: "apenas nós, com nossa pedagogia iluminada, seremos capazes de fazer nascer um novo homem".

Ora, o problema é exatamente esse. O "homem novo" (mas Nietzsche diria: o além-do-homem) jamais poderia nascer por meio da aplicação de um programa imposto por um regime político. Quem quiser produzir um novo homem terá a si mesmo como matéria-prima, e terá de produzi-lo em si mesmo. Não há outra hipótese.

É claro que não podemos produzir a nós mesmos sem o outro, assim como o outro não poderá produzir-se sem nossa ajuda. Ainda assim, a autoprodução é a responsabilidade inescapável de cada um. Não por acaso, a produção do outro é o sonho ruim de todas as ideologias totalitárias.

Nessa perspectiva, e isso é evidente, não há o menor espaço para algo semelhante ao racismo. Quem está ativamente produzindo a si mesmo simplesmente não terá o menor tempo a perder com uma baixeza desse quilate. Quem está ativamente produzindo a si mesmo almeja tornar-se um filósofo (e não o agente de uma ideologia), um artista (e não um agente do mercado de arte), um cientista (e não um agente das corporações) ou mesmo um místico (e não um agente das religiões). Quem está ativamente produzindo a si mesmo sabe que suas ações derivam de seus sentimentos e que seus sentimentos derivam de suas idéias; e, portanto, cuida muito bem de suas idéias.

Waack é vítima? Não.

Em certo sentido, chamar um homem como Waack de "vítima" é insultar as verdadeiras vítimas que há no mundo. Se formos chamar de "vítimas" todas as pessoas que só são vítimas de sua própria mesquinhez, acabaremos alargando tanto a extensão do conceito que lhe arruinaremos a compreensão.

No mais, chamou-me a atenção, no vídeo apresentado, a irritação de Waack com a buzina do automóvel. É como se o mundo inteiro devesse parar no tempo, ou no mínimo proceder a um silêncio respeitoso, para dar passagem ao precioso arauto da notícia. Não fosse por esse átimo de impaciência, não teria havido nenhum comentário racista. Corolário: as coisas ruins nunca vêm sozinhas.

Não vejo aqui uma questão de "correção política". É muito mais grave do que isso. Minimizar o que houve é a pior coisa que poderíamos fazer.

Por outro lado, apesar da gravidade do fato, não vejo motivo para enviar William Waack a um exílio perpétuo. Posso ter detestado o inconsistente texto de Magnoli, mas aprecio sua motivação. Sábios são sábios e não precisam de nossa compaixão. Se não estivermos dispostos a demonstrar compaixão pelos tolos, jamais seremos capazes de perdoar ninguém. E se um dia chegarmos a precisar, por um motivo ou por outro, de nosso próprio perdão?



(1) Waack é vítima da fome insaciável das redes que exige sacrifício de figuras (Folha de SP)


30.10.17

Arte e liberdade de expressão (quinta parte)

A arte contemporânea interdita a própria possibilidade de diferenciar "arte" e "não-arte". Por definição, obras e ações realizadas com intenção artística são arte. Ao inquisidor caberá (além do estigma de reacionário) o ônus da prova; e ele falhará invariavelmente.

Os antigos critérios de excelência artística, fossem quais fossem, não poderiam sobreviver ao desenvolvimento do capitalismo, cuja dinâmica tende a suprimir os códigos vigentes nas sociedades tradicionais. Ademais, para além das razões puramente estéticas que os especialistas poderão invocar, essa abertura responde também a uma necessidade econômica, ou melhor, a uma oportunidade econômica que não haveria de ser desperdiçada. Restringir o Mercado de Arte às obras de um punhado de grandes artistas seria, do ponto de vista econômico, uma grande tolice. Novamente, porém em outro sentido, trata-se de uma questão de escala: porque tudo é arte, haverá mais artistas, mais obras e mais dinheiro em circulação, não somente para os próprios artistas, mas para todos os envolvidos na cadeia produtiva do mercado de arte.(18)

Esse movimento de mercantilização não afetou apenas as artes plásticas e as artes em geral: literatura, música, teatro, cinema. Ele afetou todos os aspectos da vida no campo social capitalista. Enquanto estudantes universitárias de grandes centros urbanos orgulham-se de não saber cozinhar, as grandes empresas de alimentos processados tornaram-se responsáveis pela alimentação de cada vez mais gente, gerando autênticas epidemias de obesidade, diabetes e problemas cardíacos.
A nova realidade é epitomada por um fato único e chocante: em todo o mundo, hoje há mais obesos que pessoas abaixo do peso. Ao mesmo tempo, dizem cientistas, a disponibilidade crescente de alimentos de alto teor calórico e pobres em nutrientes está gerando um novo tipo de má nutrição em que cada vez mais pessoas estão ao mesmo tempo acima do peso e subnutridas.(19)
E, no entanto, ninguém pode acusar as grandes corporações de vender algo que não seja alimento. Legumes e frutas são alimento? Açúcar e gordura hidrogenada também. No limite, pode-se dizer que tudo o que é feito com intenção alimentícia é alimento.

* * *

Quem se lembra da mundialmente consagrada Merda d'artista (20), realizada em maio de 1961 pelo artista italiano Piero Manzoni? Se tudo que você sente por essa obra é repugnância, pense novamente. Para além da indiscutível avacalhação artística que ela representa, haverá algo mais singelo, haverá algo mais modesto do que oferecer, convenientemente enlatada, rotulada e assinada, uma pequena porção de sua própria merda? E não é esse um retrato perfeito da civilização industrial: nacos de merda acondicionados em latinhas produzidas em série? Ora, merda por merda, fiquemos com a do artista, que (sobretudo se mantida incólume em seu continente) não nos fará jamais nenhum mal.




Infelizmente, é impossível fazer um elogio semelhante ao Domestikator. Pela reação furiosa à decisão do diretor do Louvre, pelo gênero das acusações que lhe foram feitas, pelo desdém em relação ao possível impacto da obra nos miúdos, pela tentativa de descrevê-la como se ela significasse "tudo e mais um pouco" e, claro, por sua escala monumental, eu não consigo ver nessa instalação mais do que um imenso painel publicitário.

Na escala em que foi produzido (nunca é demais insistir nesse ponto), Domestikator não passa de uma imensa peça de marketing: um outdoor destinado a dar o máximo de visibilidade ao seu autor. A meu ver, é por isso que ele ficou tão zangado com a recusa do Louvre, onde uma exposição não é somente uma consagração artística, mas a conquista de uma valorização financeira definitiva. E por mais que o artista cinicamente denuncie essa recusa como um atentado à liberdade de expressão, sabemos que, no fundo, o único prejuízo foi do seu próprio branding.

Se alguém me perguntasse se Domestikator pode ser considerado tão tóxico quanto o refrigerante que compromete o futuro das crianças da etnia warao (21), eu não saberia responder. Eu realmente não sei. Tudo o que sei é que, nos dois casos, é o Mercado (muito mais do que a Arte ou a Ciência da Nutrição) que está fabricando os corpos e as subjetividades das crianças.

Salò, o último filme de Pasolini, é uma obra de arte pungente, dolorosa e sem dúvida chocante, muito embora não tenha sido feita com a infantil intenção de épater le bourgeois. Domestikator, ao contrário, me parece ser apenas mais um avatar dessa mesma violência tacanha e gratuita que Salò denuncia. Ninguém pode condenar Joep van Lieshout por querer "explicar suas idéias para um público mais amplo"; ainda que sejam idéias medíocres. Mas, ao tentar impor a visão de sua obra por um simples truque de escala, ele se  mostra perigosamente próximo do publicitário que não mede esforços para anunciar seu produto.

* * *

Embora tirando bem menos conclusões do que gostaria, encerro aqui esta série. Não posso, claro, deixar de mencionar outro artigo das organizações Globo, que, mais uma vez, descreve Domestikator como uma "escultura" (sic) que "mostra figura geométrica humana vermelha que aparenta estar fazendo sexo com outra pessoa.(22)"

A imprensa brasileira está num nível sub-rasteiro.



FIM



(18) Até o crime organizado se beneficia com a ampliação do mercado de arte, que multiplica as oportunidades de lavagem de dinheiro.
(19) Como grandes empresas deixaram o Brasil viciado em junk food (The New York Times/Folha de SP)
(20)  Piero Manzoni: Artist’s Shit (1961) (Tate)
(21) Mamadeiras de refrigerante: 'vício' em bebida agrava desnutrição em indígenas (BBC Brasil)
(22)
Excêntrica demais para o Louvre, escultura erótica é exibida no Centro Pompidou (O Globo)



Anteriores:
Arte e liberdade de expressão (primeira parte)
Arte e liberdade de expressão (segunda parte)
Arte e liberdade de expressão (terceira parte)
Arte e liberdade de expressão (quarta parte)

18.10.17

Arte e liberdade de expressão (quarta parte)

A rigor, o único problema da instalação Domestikator é um problema de escala. Apenas os mais puritanos condenariam a obra se ela tivesse metro e meio de altura e fosse exibida no interior de um museu. Do mesmo modo, respeitada a classificação indicativa, qualquer cinema pode exibir Salò.

O problema é que Domestikator mal caberia no interior de um museu. A instalação, que pesa 30 toneladas, tem 12 metros de altura, mais ou menos o equivalente a um prédio de quatro andares. Por isso afirmei que se trata de um problema de escala. A obra do coletivo de Joep van Lieshout se impõe ao olhar de quem passa.


Devemos supor que Jean-Luc Martinez, diretor do Museu do Louvre com formação em arqueologia e história da arte, recusou a exposição da instalação holandesa no Jardim das Tulherias porque é um burocrata e um censor imundo? É mais ou menos o que sugere Joep van Lieshout ao dizer que a decisão foi "hipócrita" e que os museus são administrados por "juntas de advogados e gente de marketing".

Vejamos alguns dos argumentos do artista em defesa de sua obra.

[A]. Uma vez instalada no Jardim das Tulherias, a obra ficaria ao lado de um parque infantil. Joep van Lieshout afirma que, se as crianças porventura entenderem de que se trata, é porque já são grandes o bastante para entender... Contudo, ao dizer isso, van Lieshout parece ignorar a existência de uma singela realidade chamada linguagem. Bastará que uma única criança compreenda o que a obra representa para que todas as outras, e isso inclui crianças bem menores que a primeira, sejam informadas a respeito. Não faltará tempo para que a informação se espalhe. A obra estará lá, à vista de todos, dia após dia.

[B]. Numa entrevista ao site dezeen, Joep van Lieshout afirmou que a obra "não é sobre sexo, é sobre a ética da inovação tecnológica. Ela convida as pessoas a pensar sobre um assunto muito importante: o que fazemos com nosso avanço tecnológico? O que fazemos com o big data, com a inteligência artificial, com os robôs?".(14) Ao The Guardian, ele disse que sua obra aborda a domesticação de animais para a agricultura e a indústria, bem como sublinha os problemas éticos decorrentes da domesticação.(15)

Um adulto esclarecido poderá levar algum tempo até extrair da imagem em questão tudo o que nela está contido, e é bem possível que alguns adultos sequer consigam enxergar todas as coisas e matizes que o artista, tão habilmente, conseguiu sintetizar numa única imagem. Mas pode-se dar como certo que raríssimas crianças serão capazes de entender toda essa conversa. Elas provavelmente entenderão a obra apenas em seu nível mais raso, doggy style.

[C]. Um tanto previsivelmente, o artista holandês chama de censura a decisão do diretor do Louvre. Ao fazê-lo, no entanto, ele abusa do sentido do termo: M. Martinez não "proibiu" ou "baniu" sua obra, e nem teria poder para isso; ele apenas recusou sua exposição no museu pelo qual é responsável. Tanto é assim que, pouco tempo depois, Domestikator foi calorosamente acolhido pelo Centro Georges Pompidou, cujo diretor o qualificou como "espiritual"(15) e "uma utopia magnífica em sintonia com o espaço público".(16)

Aliás, por falar em "censura", não custa lembrar que o Museu d’Orsay, tão incensado pela bela exposição Emmenez vos enfants voir des gens tout nus, não hesitou em chamar a polícia e apresentar queixa contra a artista que resolveu expor no museu (já que de gente nua se tratava) sua própria origem do mundo.(17) Ora, assim como roubar a cena dos artistas em exposição não é nem um pouco elegante, impedir que tal coisa aconteça não é "censura".

[D]. Ainda na entrevista para o site dezeen, van Lieshout fez uma afirmação com a qual todos concordamos: "Penso que a arte deve ser um lugar onde há pouquíssimos limites." Ora, um desses limites é justamente o da classificação indicativa por faixas etárias. Raras pessoas teriam maturidade suficiente para compreender, antes de completarem 18 anos, a dura mensagem de Salò. Há, portanto, boas razões para que esse filme não seja exibido em colégios. Do mesmo modo, há boas razões para não exibir em praça pública uma obra que retrata, em escala monumental, uma cena de bestialidade. A não ser que o coletivo holandês acredite seriamente que sua obra é mais importante do que a de Pasolini, não há por que reivindicar um privilégio que a obra do italiano jamais teve (e provavelmente jamais terá).

* * *

Mas, afinal, o que significa tudo isso? Até aqui, procurei me manter no plano da mera análise e tentei esclarecer alguns aspectos em jogo na obra Domestikator e no discurso de seu autor. Na próxima (e última) parte, tentarei esclarecer a partir de uma perspectiva inteiramente diferente a atitude de um artista como Joep van Lieshout.

Duas últimas observações se fazem necessárias. Não custa insistir que minha crítica à instalação Domestikator refere-se ao seu caráter monumental. Não fosse por essa monumentalidade, eu não enxergaria o menor problema na obra do coletivo holandês. É, como eu deixei claro desde o início, um problema de escala. Veremos na próxima parte o que, a meu ver, esse problema de escala revela.

Por fim, é bom deixar claro para o leitor que eu não estou tentando fazer uma espécie de "análise indireta" ou "referência velada" aos recentes acontecimentos no Brasil. Ao menos até aqui, o que eu disse a propósito da obra Domestikator foi pensado "sob medida" para ela e não serve para pensar outra coisa.

Mas já que acabei me referindo aos casos brasileiros, gostaria de fazer uma pequena observação sobre eles. Todos os meios de comunicação que tenho consultado falam sistematicamente das ocorrências em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Parece-me incompreensível que o caso de Mato Grosso do Sul, apenas por não se adequar a esta ou aquela agenda, ou quiçá atrapalhá-las, esteja merecendo uma atenção menor (ou praticamente inexistente) da imprensa. Deveria ser precisamente o contrário, pois apenas nesse caso houve uma intervenção explícita do poder público e um ato que merece, com todas as letras, o nome de censura. O silêncio a esse respeito é vergonhoso e desprezível.


(continua)



(14) Louvre cancels Atelier Van Lieshout installation amid concerns over "explicit or sexual" content (dezeen Magazine)
(15) 'Obscene? Pornographic?' – Louvre deems sexually explicit sculpture too risqué (The Guardian)
(16) Le Domestikator : le Louvre lui dit non, le Centre Pompidou lui ouvre les bras (Le Figaro)
(17) L’artiste qui s’est déshabillée au musée d’Orsay explique son geste (exponaute)




Anteriores:
Arte e liberdade de expressão (primeira parte)
Arte e liberdade de expressão (segunda parte)
Arte e liberdade de expressão (terceira parte)

17.10.17

Arte e liberdade de expressão (terceira parte)

Não basta dizer que os recentes conflitos a propósito de obras e exposições de arte no Brasil estão contaminados por uma polarização ideológica que não beneficia em nada o esforço de compreensão. É muito pior do que isso: quem não se alinha automaticamente a um dos lados será acusado (também automaticamente) de favorecer o discurso do outro lado. Ao que parece, a liberdade de pensamento foi reduzida a isto: estamos autorizados a "ter uma opinião" (a "escolher um dos lados"), mas não a pensar.

É por isso que eu já havia definido, desde que comecei a escrever as primeiras linhas este artigo, que iria buscar na Europa, e não no Brasil, o objeto de minha análise. Refiro-me à instalação "Domestikator", realizada por um coletivo holandês chamado Atelier Van Lieshout.


A análise da forma dessa instalação não oferece maiores dificuldades. Há duas figuras fazendo sexo. A figura bípede que segura a outra pela cintura (provavelmente) representa um homem. A outra figura, por sua vez, não é humana. Seu tronco é uniformemente mais grosso; o conjunto formado pela cabeça e pelo pescoço é mais alongado; inexiste a flexão dos membros inferiores que seria de esperar num ser humano. O próprio nome da instalação confirma a análise da forma, já que a domesticação é (usualmente) uma relação entre homens e animais: Domestikator representa um homem fazendo sexo com um quadrúpede.

Pois bem. O diretor do Museu do Louvre, Jean-Luc Martinez, embora reconhecendo que o Domestikator denuncia "de maneira lúdica e artística a dominação [humana] sobre o planeta Terra"(7), cancelou a exposição da obra na Feira Internacional de Arte Contemporânea (FIAC) e foi duramente criticado por Joep Van Lieshout, fundador do coletivo holandês.

Antes de passar à análise do caso Domestikator, que encerrará este artigo, gostaria de chamar a atenção para um aspecto que seria cômico se não fosse trágico: o despreparo (ou a desonestidade) da imprensa (em várias partes do mundo) para simplesmente descrever de maneira adequada uma obra de arte contemporânea. Alguns meios, é bom ressaltar, fizeram exceção: o já citado Libération, por exemplo, e a revista Le Point (8) fizeram uma leitura correta da obra e ressaltaram (ou ao menos sugeriram, no caso do Libération) que o Domestikator descreve um ato sexual entre um homem e um animal. Mas inúmeros outros grandes veículos de comunicação, seja por pudor, ignorância ou má-fé, suavizaram a leitura da obra. Vejamos uns poucos exemplos.

Embora tenha reproduzido as palavras de Van Lieshout, segundo o qual "o trabalho simboliza o poder da humanidade sobre o mundo e sua abordagem hipócrita da natureza", o The New York Times diz, singelamente, que a obra representa "uma cópula".(9) O Le Monde afirma que a instalação foi rejeitada por fazer uma "evocação explícita de um ato sexual".(10) Veículos ingleses menos cotados como o The Sun (11) e o Daily Mail (12) preferiram não se comprometer e descreveram a obra como "dois prédios fazendo sexo". O jornal O Globo, por sua vez, conseguiu superar todos os seus concorrentes ao afirmar que "a escultura (sic) por um lado lembra um prédio com janelas, mas também mostra um homem em forma de caixas durante o ato sexual com outra pessoa."(13)

Vejamos se a análise desse caso nos permitirá avançar, por pouco que seja, no nosso tema.



(continua)



(7) Une œuvre retirée du parcours hors-les-murs de la Fiac pour sa connotation sexuelle (Libération)
(8) "Domestikator": un viol allégorique qui a fait peur au Louvre (Le Point)
(9) Louvre Pulls Sculpture, Saying It Was Sexually Explicit (The New York Times)
(10) FIAC : l’œuvre « Domestikator », du Néerlandais Van Lieshout, retoquée pour sa connotation sexuelle (Le Monde)
(11) Bonkers artwork of two buildings ‘having SEX’ axed from top show because it would be seen from a school playground (The Sun)
(12) Did the roof move for you? 'Sexually explicit' art installation that looks like two buildings having SEX is scrapped by the Louvre (Daily Mail)
(13) Louvre cancela exposição de escultura considerada sexualmente explícita (O Globo)


Anteriores:
Arte e liberdade de expressão (primeira parte)
Arte e liberdade de expressão (segunda parte)

8.10.17

Arte e liberdade de expressão (segunda parte)

A adoção de uma classificação indicativa seria uma solução para os recentes conflitos a propósito de exposições de arte no Brasil? Tudo leva a crer que sim: afinal, a classificação indicativa permite preservar integralmente a liberdade de expressão sem expor crianças e adolescentes a afecções e afetos que elas talvez não sejam capazes de digerir.

Infelizmente, não é assim tão simples. É bom ter em mente que tal solução resolveria o problema do mesmo modo que a demarcação de uma fronteira resolve o problema de duas nações que estão ávidas para guerrear entre si.

A metáfora é pertinente, pois se trata, efetivamente, do estabelecimento de fronteiras que nenhum tratado de paz define de antemão. Onde traçar a linha divisória? Como definir a idade mínima para esta ou aquela exposição?

E, no entanto, a classificação indicativa é feita rotineiramente com as obras audiovisuais e os jogos. O problema é que, no caso das artes plásticas, os critérios teriam de ser inteiramente diferentes. Não se pode equiparar o nu nas artes plásticas ao nu do audiovisual. Corpos nus são corriqueiros nas artes plásticas, seja na formação do artista (modelos vivos), seja nas obras de arte. Para dar um único exemplo, se as estátuas de Rodin deixassem de receber a classificação "livre para todas as idades", estaríamos privando nossas crianças de entrar em contato com algumas das mais altas realizações do espírito humano. Embora seja uma boa solução, e talvez a única possível, a classificação indicativa não é uma panacéia, pois errar a mão é humano, e isso já aconteceu inúmeras vezes na classificação de obras cinematográficas. Teríamos de ter muito cuidado ao estendê-la às artes plásticas.

Além disso, é preciso levar em conta que o Brasil apresenta fortes diferenças regionais. A mesma obra ou exposição que seria acolhida sem problemas num determinado lugar pode gerar uma forte reação, inclusive do poder público, em outro. (5) E, ao contrário do que acontece com o audiovisual e os jogos, exposições de arte não podem ser avaliadas em qualquer lugar. Sem dúvida é possível avaliar um quadro por uma foto ou uma escultura por uma filmagem, mas nesses casos a avaliação padeceria de um vício fundamental, pois o contato com as obras teria sido de segunda mão. Em resumo, tudo aponta para um sistema no qual as obras teriam de ser classificadas localmente, dando oportunidades desiguais a crianças e adolescentes de diferentes localidades e aprofundando as diferenças regionais. (6)

Até onde posso ver, estas são as principais limitações da proposta de classificação indicativa em exposições de arte, que eu e boa parte dos brasileiros apresentamos como uma solução viável para os recentes conflitos envolvendo arte e liberdade de expressão. Apesar dessas limitações e da parcela de arbitrariedade que a multiplicidade de avaliadores irá suscitar, a proposta de classificação indicativa para as artes plásticas é infinitamente melhor do que o conflito aberto entre duas posições aparentemente inconciliáveis.

Se os próprios artistas propusessem uma classificação indicativa para suas obras, como fiz para minha tradução, praticamente todos os problemas estariam resolvidos. No entanto, como veremos adiante, a possibilidade de que um movimento como esse ocorra é bastante improvável.

(continua)


NOTAS

(5) Deputados pressionam, e polícia apreende quadro em exposição no MS (Folha de SP)
(6) Infelizmente, eu ignoro como se dá a classificação indicativa nas artes cênicas, o que me impede de levá-la em conta. Tudo o que sei é que certos encenadores estabelecem, eles mesmos, os limites etários que acham apropriados para seus espetáculos.

Anterior:
Arte e liberdade de expressão (primeira parte)

7.10.17

Arte e liberdade de expressão (primeira parte)

Latin America, however, has a distinct identity which differ­entiates it from the West. Although an offspring of European civilization, Latin America has evolved along every different path from Europe and North America. It has had a corporatist, authoritarian culture, which Europe had to a much lesser degree and North America not at all. (1)

Não é surpreendente que, numa sociedade autoritária como a nossa (2), os debates sobre a liberdade de expressão (e seus limites) sejam freqüentes. Por óbvio, o autoritarismo não é apenas brasileiro. O que é brasileiro por excelência (é o que se tem dito, acertadamente ou não, ao longo de décadas) é a valorização do "jeitinho" e da "malandragem". Se esse diagnóstico estiver correto, estaria explicado o fato de que, no Brasil, a honestidade (ou mesmo a coerência) intelectual não chega, por assim dizer, a constituir um problema: pois mesmo os nossos artistas, que supostamente teriam de defender intransigentemente a liberdade de expressão, a atacam quando julgam conveniente fazê-lo. (3)

Não há nada mais fácil do que defender a liberdade de expressão. É bem verdade que teremos de fazer algum esforço para encontrar quem defenda a liberdade de expressão alheia; mas sempre que a nossa liberdade é ameaçada, fazemos manifestos e discursos inflamados com aquele ardor que apenas a boa consciência dos justos inflama.

E, no entanto, mesmo os mais ardorosos defensores da liberdade de expressão reconhecem que ela não pode vigorar absolutamente sem limites. Seu mau uso (calúnia, difamação) é punido pela lei. Ideologias que pregam a submissão e/ou o extermínio de uma parcela da humanidade são passíveis de banimento. Doutrinas que pregam a revogação (e não a mera limitação) da liberdade de expressão tendem a não ser toleradas, sobretudo porque as sociedade modernas possuem meios de controle que possibilitariam abolir de fato (e talvez para sempre) a liberdade de expressão. (4)

Longe de enfraquecê-la, a imposição de certos limites fortalece a liberdade de expressão. Nesse sentido, a proibição ou censura das ideologias totalitárias que gostariam de conformar toda a humanidade a uma única doutrina e a um único modelo de "homem", embora possa parecer paradoxal, é totalmente coerente: a liberdade não pode preservar-se senão abolindo aquilo que exterminaria a própria liberdade.

Como entender, nesse contexto, a chamada classificação indicativa? A meu ver, ela é uma das mais benignas formas de impor limites à liberdade de expressão. Antes de mais nada, ela não interfere no processo de criação. Eu faço aquilo que bem entendo, e é apenas no momento de publicar (de tornar pública) minha criação que irei me preocupar se ela é inadequada para alguma faixa etária. Ela tampouco interfere na fruição da obra, que é livre desde que os limites mínimos de idade sejam respeitados.

Estou falando de algo que conheço, pois eu mesmo já fiz classificação indicativa quando traduzi e legendei, em 10 abril de 2015, o vídeo "Housewife 25". Além de solicitar a restrição de idade no YouTube, eu ainda lhe dei um título que disfarça seu conteúdo; pois, como sabemos, qualquer um pode burlar facilmente as restrições do Google. Fiz tudo isso porque o tema não é de fácil compreensão nem mesmo para um adulto, muito menos para uma criança ou adolescente. Esse vídeo teve, nestes dois anos e meio, apenas 39 acessos; mas esse é um preço que eu pago alegremente para me assegurar de que fiz todo o possível para ocultá-lo de quem poderia acabar entendendo tudo errado.

Não custa notar que eu não chamaria esses cuidados de "autocensura", pois só haveria autocensura se eu deixasse de traduzir ou "suavizasse" algum diálogo do vídeo. Nada disso houve. Houve apenas, quando da publicação, um certo cuidado que todos os pais e mães entenderão. Só para que fique bem claro, eu já não tenho esse mesmo cuidado ao publicar um poema neste blogue, ainda que o referido poema seja, nas palavras de uma leitora, "tão direto que nem chega a doer". O meio, a linguagem, a plataforma, tudo é diferente. Ser responsável e ser carola são duas coisas inteiramente distintas.

(continua)


Vídeo: Housewife 25

NOTAS

(1) HUNTINGTON, Samuel P. The Clash of Civilizations and the Remaking of World Order. Simon and Schuster, New York, 1996, p. 46.
(2) Tendência para o autoritarismo é alta no Brasil, diz estudo (Folha de SP)
(3) A privacidade e as biografias não autorizadas.
(4) Filmes como "V de Vingança" induzem à crença ingênua de que um regime totalitário plenamente estabelecido poderia ser derrotado pela mera ação heróica de forças internas. Um totalitarismo em escala planetária só poderia ser derrotado por sua própria inépcia ou estupidez, mas essa é uma hipótese com a qual não podemos nos dar ao luxo de contar.

3.10.17

A (comprovada) ineficácia do não

Ao ficar sabendo que o programa de prevenção a drogas do governo federal elevou o uso de álcool entre estudantes (é isso mesmo: elevou, ao invés de diminuir), o último sentimento que eu poderia ter experimentado é o de surpresa: venho falando desse tema há pelo menos dez anos. Quem porventura leu o texto "A ineficácia do não", de 2014, sabe a que me refiro. Voltarei ao assunto apenas para destacar alguns pontos mencionados nas fontes que consultei.

O primeiro deles diz respeito ao caráter "importado" do programa. É claro que os resultados desse tipo de iniciativa teriam de ser diferentes na Europa e no Brasil. Lá as crianças têm com que se ocupar: elas lêem, desenham, tocam instrumentos musicais. Aqui elas mal conseguem alfabetizar-se, mas isso não as impedirá de encontrar algo que preencha esse formidável vazio.(1)

Outro ponto que chama a atenção nos textos publicados pela imprensa pode ser resumido nesta declaração: "Não dá para destruir essa história sem colocar nada no lugar. O modelo original era bom. Algo aconteceu na implantação."

Onde é que eu já ouvi um argumento semelhante? Por que "não daria" para destruir uma "história" que custou (em 16 cidades) 9,4 milhões de reais e acabou aumentando em 30% o número de jovens que tomaram álcool pela primeira vez? Porque a idéia é... "boa"? Porque deu certo na Europa? Porque se mudarmos certos detalhes em sua "implantação", finalmente dará certo?

Por último, mas não menos importante, "os pesquisadores afirmam que, no Brasil, o consumo de álcool por adolescentes é considerado aceitável, porque normalmente a substância não é considerada uma droga."

Ora, esse dado, por si só, mostra que os adultos é que deveriam ser educados a respeito dos perigos do consumo de álcool por adolescentes. Afinal, se pesquisas oficiais do governo já revelaram que o álcool é que é a verdadeira "porta de entrada" da garotada para as drogas, e se a ciência revela que o consumo precoce de álcool é altamente prejudicial, que estamos esperando para fazer uma campanha dirigida para os adultos? Pois os adultos que são vítimas da guerra de desinformação (e acreditam que a maconha é a "porta de entrada" para as drogas) são os mesmos que fazem vista grossa ao consumo de álcool pelos jovens.

* * *
Diante desse quadro (a qualidade de nosso ensino é uma catástrofe, as campanhas "educativas" são contraproducentes), a proposta de proibição da publicidade de qualquer tipo de bebida alcoólica (inclusive a cerveja) é muito mais pertinente do que supõem algumas vãs filosofias. Mas eu admito que essa proibição teria de ser acompanhada, preferencialmente, por uma campanha de esclarecimento dirigida ao público adulto.

Por fim, depois de banir a propaganda dos estados alterados de consciência, poderíamos tranqüilamente liberar a maconha e aplicar os impostos arrecadados com ela em saúde e educação.

* * *
E agora, leitor? Serei eu um liberal, ou talvez um esquerdista, já que defendo a liberação da maconha? Ou serei, talvez, um antiliberal, e mesmo um conservador, já que proponho o fim da publicidade do álcool?

Na verdade, sou apenas alguém tentando equacionar um problema complexo com os dados de que disponho. Meus seis ou sete leitores neste fim de mundo virtual não precisam se preocupar: nada do que estou dizendo irá acontecer. Os lobbies do tráfico, da publicidade e da educação não permitirão.

A propósito: não sou e nunca fui "contra" sexo, drogas e música fácil. Sou simplesmente a favor de aventuras mais difíceis, mais sutis e mais perigosas.

______________

(1) Na verdade, não há vazio: há, isso sim, um formidável poder de afetar e de ser afetado que será (necessariamente) preenchido por afecções e afetos. Se não somos, nós mesmos, suficientemente artistas, filósofos e cientistas para encantar nossas crianças com as aventuras do pensamento (e da vida potente que o pensamento suscita), quem poderá condená-las por trilhar os mesmos caminhos já trilhados pelas gerações anteriores: sexo, drogas e música fácil?


Fontes

A ineficácia do não (2014)

Programa de prevenção a drogas do governo federal elevou uso de álcool entre estudantes (O Globo)

‘Não dá para apenas importar um programa’, diz Zila Sanchez (O Globo)

Programa tenta reduzir drogas entre jovens, mas consumo de álcool cresce (Folha de SP)

Programa preventivo #tamojunto e os desafios da educação no Brasil (documento PDF)

27.9.17

com brasileiro não há quem possa

A partir da decisão tomada hoje pelo Supremo Tribunal Federal sobre o ensino religioso confessional em escolas públicas, os brasileiros começarão a pagar, em breve, os salários de milhares de novos professores cujas aulas, no entanto, poderão ser gazeteadas à vontade.

Ao que parece, tudo que importa no Brasil de hoje é semear os conflitos de amanhã: desde que isso seja feito, é claro, com o máximo de ineficiência e de desperdício de dinheiro público.



Fontes:

STF mantém aval para aula de religião vinculada a crença em escola pública (FSP)
Se ciência estiver certa sobre crianças, Brasil está cometendo erro grave (FSP)

membrana

a vida
é um abraço.


18.9.17

um ato falho

Num artigo d'O Globo sobre a formação de preço do (caro) iPhone X, o economista Samy Dana menciona fatores que poderíamos dividir em "objetivos" e "subjetivos". Grosso modo, os fatores objetivos seriam a soma daquilo que o autor chama de "custo de produção" (matérias primas, energia, instalações, mão de obra) e do investimento em pesquisa e desenvolvimento; e os fatores subjetivos poderiam ser resumidos na "percepção de valor", ou seja, no quanto as pessoas estariam dispostas a pagar por aquele produto.
"Além do custo de produção, na hora de estabelecer os preços as empresas devem considerar o valor da propriedade intelectual, os gastos em pesquisa e desenvolvimento e a percepção de valor — ou seja, quanto as pessoas estão dispostas a pagar. No caso dos aparelhos da Apple, este último item ocupa um grande espaço na equação e é o que faz do iPhone um caso interessante de preço."
Curiosamente, ao analisar a formação de preço de um quadro, Dana parece não levar em conta um fator que, para a indústria, é tão importante: pesquisa e desenvolvimento.
"Se pensarmos pelo custo de produção, um quadro nada mais é do que tela e tinta. Porém, não é esse o fator determinante no preço de uma obra. Contam mais outros fatores, como o preço de outras telas do mesmo artista e de seus contemporâneos, assim como sua reputação e a raridade das obras. No fim das contas, quem mandará na equação é a percepção de valor do comprador — ou seja, o quanto ele está disposto a pagar."

É como se o investimento em "pesquisa e desenvolvimento", referido explicitamente no caso do iPhone, simplesmente não existisse no caso das artes plásticas. Como se não fossem necessários vários anos de esforço, seja para o aprendizado da pintura, seja para a formação de um círculo de amizades que faculte ao artista o acesso ao circuito do Mercado de Arte. Pode acontecer que o artista consiga fazer ambas as coisas? Sim, mas é bastante raro, pois trilhar qualquer dos dois caminhos exige um grande investimento de tempo e dedicação. Não se aprende a fazer arte num dia, e não basta um dia para a formação de uma rede de amigos.

Assim, Dana foi duplamente injusto: com os artistas que se esforçam para fazer arte, e com os artistas que fazem prosperar o milionário Mercado de Arte. Evidentemente, ele não merece ser crucificado por tão pouco: quase um ato falho. Mas, num país como o nosso, onde o homem médio ainda pensa que arte é coisa de vagabundo, trata-se de um ato falho pra lá de significativo.

14.9.17

a coisa mais bem distribuída do mundo

Sou filho dos anos sessenta, durante os quais vivi minha infância, e (talvez erroneamente) atribuo a essa circunstância minha repulsa em relação a qualquer tipo de autoritarismo. É por isso que o único Deus em que eu poderia acreditar é o spinozista, um Deus que produz (dança?) mas não "governa".

No entanto, mesmo quem detesta o autoritarismo é forçado a consentir com o exercício (em diversos níveis) da autoridade; e até os punks deveriam admitir que adoram a polícia quando esta intervém para impedir que sejam assassinados pelos membros de outras tribos (nada) urbanas. Como diria Spinoza, quem é incapaz de compreender precisa obedecer. Sem o uso da autoridade (da coerção), nenhum crime seria punido e pouquíssimas crianças fariam o dever de casa (se é que chegariam a freqüentar uma escola).

Todo o problema, portanto, reside em usar com sabedoria aquela imprescindível dose de autoridade sem a qual seria impossível administrar um campo social.

E é nesse ponto que nós, brasileiros, falhamos sistematicamente. Somos talvez o único povo do mundo (sim, esta frase é um puro golpe de retórica, mas periga conter alguma verdade) capaz de combinar, a um só tempo, o autoritarismo mais jeca e a mais lassa falta de autoridade.

Deixarei que o leitor decida por si mesmo os casos particulares de "autoritarismo jeca" e de "falta de autoridade" que seriam capazes de ilustrar a frase acima.


* * *

Acabou. Esta postagem acabou. As coisas que poderão ser lidas a seguir são apenas anotações à margem, feitas a lápis, em torno do que acabou de ser dito. 


* * *

Vivemos numa democracia e uma simples classificação indicativa seria suficiente para calar qualquer polêmica relativa à exposição "Queermuseu". Essa será, por sinal, a linha de defesa da HBO no episódio da exibição diurna de "A festa da salsicha": a de que a classificação etária foi devidamente estabelecida. Os direitos dos artistas terminam onde começam os direitos dos pais e vice-versa. Nem os artistas têm o direito de propor "qualquer obra" para "qualquer faixa etária", nem os pais têm o direito de impor censura à obra de qualquer artista – desde que este não faça uma apologia ao nazismo, não é mesmo? Isso não é difícil de entender. Infelizmente, o autoritarismo, nestas bandas, é a coisa mais bem distribuída do mundo.

* * *

E por falar em nazismo... Chega a ser cômico: todo mundo resolveu mencionar a exposição de "arte degenerada", realizada sob o regime comandado por Hitler, mas ninguém, ninguém mesmo, parece lembrar-se (ou tem coragem de lembrar-se) das perseguições realizadas pelo realismo socialista. Um bom antídoto ao esquecimento é o sóbrio e comovente Afterimage, testamento cinematográfico do diretor polonês Andrzej Wajda.

* * * 


Se a rede de TV mais poderosa do país pode homenagear traficantes em horário nobre, por que estudantes do Pedro II são passíveis de punição por se referirem ao tema na escola?

* * *

Eu bem que gostaria de saber se aqueles que são tão ferrenhamente contra a proibição da publicidade de cerveja não seriam, por acaso, os mesmos que são a favor da proibição da maconha. Pois a cultura dos estados alterados de consciência é uma só, meus amores.

* * *

Diante da intensificação dos violentos ataques e ameaças às religiões afro-brasileiras, todos deveriam estar urrando de indignação. Como explicar, em meio a uma tagarelice incessante, esse silêncio criminoso? Como? Será que o silêncio se explica... pela própria tagarelice? No me lo puedo creer.

5.9.17

febeapá 2: the libertarians (again!)

Um dos argumentos mais usados na guerra de desinformação a respeito de drogas ilegais cita a maconha como "porta de entrada" para o mundo das drogas. Quem diz isso jamais se deu ao trabalho de consultar as pesquisas oficiais a respeito do consumo de drogas entre os jovens estudantes brasileiros. A "porta de entrada" para os estados alterados de consciência é, na verdade, o álcool.

Uma dessas pessoas desinformadas é Luiz Felipe Pondé. Contrário à proibição da propaganda de álcool nos meios de comunicação e fiel ao princípio que norteia o pensamento das pessoas que não pensam (aplicar universalmente uma regra sem pesar, um a um, os casos particulares), o filósofo da Folha de São Paulo não demonstra a menor vergonha de, em público, desfiar um parágrafo inteiro de falácias.
"Daqui a pouco se proibirá a publicidade de carros (causam acidentes), aviões (caem), batom (dá vontade de beijar a boca das mulheres e isso pode ser anti-higiênico), churrascaria (colesterol), café (causa ansiedade), xampus (os cabelos reais nunca são tão lindos quantos os das propagandas), bolas de futebol (os meninos podem cair e quebrar a perna), livros (existem livros que propõem coisas absurdas), telefonia celular (já se fala em pessoas viciadas em celulares), televisão (crianças podem ver coisas erradas na televisão), computadores (a internet é incontrolável), turismo (pessoas podem pegar infecção intestinal viajando), água (pode estar contaminada), metrô (pode descarrilar), ônibus (capotam)... A lista é cansativa, como tudo que brota da alma dos idiotas do bem quando resolvem salvar o mundo de nós mesmos."
A lista não é somente cansativa: é falaciosa. E a falácia consiste em pintar quem pensa diferente do colunista como um retardado que, apenas porque defende a proibição da propaganda de álcool, seria capaz de defender a proibição da propaganda de absolutamente tudo que existe.

Ninguém poderá dizer que eu não compreendo o ponto de vista "libertário" de Pondé. Eu o compreendo tão bem que escrevi, aqui mesmo, e há não muito tempo, o texto "O formol nosso de cada dia". Mas uma das coisas que me diferenciam do colunista é que eu faço um esforço para pensar cada problema por si mesmo, e faço esse esforço correndo (alegremente) o risco de não ter um "princípio" geral que dirija meu pensamento.

Eu estava programando mais duas postagens para a série "febeapá", uma dirigida contra os conservadores, outra dirigida contra a esquerda. Mas os menores abismos são os mais difíceis de transpor, e eis que estou escrevendo (novamente) para criticar um "libertário".

Vocês acham que nossos estudantes de 11, 12, 13 anos bebem uísque? É claro que não. Eles bebem é cerveja. Por meio da cerveja, eles entendem plenamente o que é um estado alterado da consciência. As outras drogas entrarão na vida deles por mero raciocínio analógico: de um barato a outro. E não é preciso ser o rei do pensamento estratégico para perceber que, no atual contexto educacional brasileiro, esse consumo precoce é bastante problemático.

É claro que quem trabalha num meio de comunicação qualquer jamais sonhará em contrariar seu patrão, que por sua vez jamais aceitaria abrir mão da receita que a glamorosa propaganda de cerveja proporciona. Tudo isso é compreensível. O que me espanta é a impotência e o servilismo daqueles que, se quisessem, poderiam estar pensando (e não aplicando princípios às cegas). Mas é claro que, aqui, eu talvez esteja sendo otimista demais.



30.8.17

O desertor (uma breve análise de texto)

Ninguém chama um canadense que vai morar na Espanha, ou um uruguaio que vai morar na França, de "desertor". Mesmo que nunca mais retornem a seus países de origem, eles serão chamados de "imigrantes".

"Desertor" é um termo pejorativo: diz-se desertor, segundo o Houaiss, do militar que é culpado de deserção, e também do indivíduo que "abandona suas convicções, seu compromisso ou a causa de que era defensor". Sinônimo: trânsfuga.

Mas se é assim, por que a Folha de São Paulo insiste em chamar alguém que não é militar, mas professor universitário, de "desertor"?




Nesse caso, se achássemos que o termo "imigrante" não descreve com exatidão o status do professor Kim no país que o acolheu, teríamos à disposição termos como "fugitivo", "dissidente" ou mesmo "refugiado". Aliás, os termos "fuga" e "fugitivo" foram utilizados na reportagem (uma vez cada), bem como o termo "dissidentes" (também uma única vez).

Mas o repórter deu preferência e destaque aos termos "desertor" e "desertores", que, ao todo, são mencionados cinco vezes (no título e no corpo da matéria). E, ao usar esses termos sem nenhuma parcimônia (a reportagem tem menos de duas páginas de texto), ele demonstra claramente seu alinhamento com o regime norte-coreano, aquele mesmo que se compraz em ameaçar o mundo com uma terceira guerra mundial e (segundo a denúncia do professor Kim) lucra anualmente 3 bilhões de dólares praticando extorsão digital.

Ao que tudo indica, nossos amigos sul-coreanos são um tanto ingênuos: o repórter, que logo no início da matéria dá pistas sobre a dissimulada localização do escritório da ONG fundada pelo professor Kim (que até hoje "diz receber" amáveis presentes de seu país de origem, como facas e machados), viajou a convite do Ministério da Cultura, Esporte e Turismo da Coréia... do Sul.

24.8.17

Do consumo como instrumento de reivindicação política

Há quem pense que apenas uma revolução "francesa", ou seja, sangrenta, seria capaz de sacudir o status quo da política politicalha brasileira.

Grande bobagem.

Certa vez pensei numa solução que, na época, era irrealizável, mas que hoje, na era das redes sociais, me parece um pouco mais plausível.

O que faz o Estado quando quer educar o cidadão? Mexe no seu bolso, aplicando multas.

E o que pode fazer o cidadão para educar o Estado? Mexer no seu bolso, ou melhor, no bolso daqueles grupos que sustentam a economia e, portanto, o Estado e os políticos.

Como? Com depredações? É claro que não. Basta combinar nas redes sociais: enquanto o corrupto "X" ou "Y" estiver no exercício de seu cargo, ninguém, no país inteiro, comprará um único carro. Ou um único refrigerante. Ou ambos. Poderia ser feita uma lista de vários produtos, mais ou menos supérfluos, dos quais (ou de cuja troca) não seria tão difícil assim abrir mão por uma, duas, três semanas.

Essa queda de braço seria invariavelmente ganha pelos cidadãos-consumidores. A pressão dos empresários sobre os políticos seria enorme, e estes se veriam forçados a encontrar rapidamente um meio legal de defenestrar os alvos da "operação".

Obviamente, a eficácia desse tipo de ação dependeria, em proporção direta, da intensidade da indignação popular em face de "X" ou "Y". Mas, naqueles raros casos em que houvesse algo próximo a uma unanimidade, veríamos quem é o rabo e quem é o cachorro.


18.8.17

Nietzsche, Marx e Freud

Tendo Spinoza como precursor, Nietzsche, Marx e Freud questionaram a soberania da consciência. Se quisermos considerar o plano da vida (e não apenas o plano do homem), podemos acrescentar Darwin a essa lista.

Entre eles, o "caso" mais complexo é o de Nietzsche. Feita a ressalva, ponhamos esse pormenor "entre parênteses" e tomemos apenas o que esses pensadores têm em comum: a descoberta de uma dimensão inconsciente. Essa descoberta prolongou-se no estruturalismo, que renovou a lingüística, a antropologia e a psicanálise.

Farei aqui umas poucas perguntas, a título de provocação. Se o neurótico é um joguete de seu inconsciente, "quem" decide ir ao psicanalista ou, ao contrário, decide continuar repetindo seu sintoma?

Se o explorado é um joguete de um determinado modo de produção e de uma determinada estrutura de classes, "quem" decide entrar para o partidão, ou, ao contrário, assumir a defesa da ordem existente?

Se o homem é um produto da aliança das forças reativas com a vontade de nada, "quem" logra produzir a transmutação (aliança das forças ativas e da vontade afirmativa) para superar o homem?

Se, como querem Deleuze e Guattari, o inconsciente é produtivo (e não, como em Freud, uma peça de teatro), "quem" dirige a produção?

O que está em questão aqui é o velho e sempre renovado (mas também sempre questionado) conceito de liberdade. Nada aqui é simples ou fácil, pois é preciso dar um passo à frente (e não um passo atrás, reabilitando a velha consciência soberana). Mas algo me diz que, sem reintroduzir (ainda uma vez) os conceitos de liberdade e de responsabilidade no jogo filosófico, não teremos sequer uma chance de evitar o desastre.

* * *

Dizer que "a sociedade cria monstros" é negar a liberdade dos indivíduos que compõem a sociedade em questão, é subtrair deles qualquer responsabilidade que poderiam ter na produção de si mesmos, é retirar-lhes todos os resquícios de dignidade.

Se esse raciocínio é, por princípio, ruim, suas conseqüências são ainda piores. Afinal, se é "a sociedade" que "cria monstros", então bastará mudar a sociedade para, automaticamente, produzir um novo homem. Não seria essa a essência do totalitarismo? 

Nunca faltarão ideólogos, sejam eles de esquerda, de direita ou do que quiserem, para dizer que as boas regras de seus livrinhos criarão uma nova sociedade, que por sua vez criará um homem novo. Não podemos impedir o surgimento desse tipo de coisa. Mas está em nosso poder deixarmos de ser  retardados que preferem atribuir a outrem a responsabilidade pelo seu próprio retardamento.


4.8.17

Crise política 4: considerações finais?

Numa postagem anterior eu listei algumas sugestões para uma reforma política: parlamentarismo, voto distrital, fim do voto obrigatório, candidaturas independentes, austeridade das campanhas (debate de idéias em vez de espetáculo), criação de fóruns virtuais com participação livre dos cidadãos. Faltou mencionar, entre outras coisas, a volta de uma cláusula de barreira e o fim do foro privilegiado.

O sistema proporcional, que faz com que ilustres desconhecidos, mesmo tendo recebido pouquíssimos votos, sejam eleitos para os órgãos legislativos, tem como único objetivo assegurar o poder das quadrilhas. No fundo, o beneficiário do voto não é o candidato, mas a quadrilha. Como tantas outras coisas neste país, esse sistema foi feito para não dar certo. A não ser, é claro, para os interessados de sempre. O mesmo se aplica ao foro privilegiado.

A situação brasileira é tão grave que às vezes me passam pela cabeça idéias estranhas. Por exemplo, escolas para políticos. Disciplinas? Noções essenciais de economia, direito, administração pública e... política. Ética ou Filosofia? Seria pedir demais. O Brasil não está preparado para tanta sofisticação.

Não estou dizendo algo autoritário do tipo "apenas gente com diploma deveria concorrer". Ao contrário, estou propondo que todos os postulantes a cargos públicos, seja qual for sua formação escolar ou acadêmica, tenham de se submeter a cursos básicos de preparação para o exercício do cargo. Candidatos com diploma de nível superior, ou mesmo pós-graduação, também teriam de fazer o curso. Valeria para todos. Talvez fosse possível abrir algumas exceções: por exemplo, isentar da disciplina de Economia os formados em Economia, e assim por diante.

Assim, a massa de candidatos estaria um pouquinho mais nivelada e preparada para o debate legislativo e para a prática da administração pública. Afinal, se todas as profissões exigem algum tipo de formação, como pode ser que políticos possam legislar e tomar decisões que afetam a vida de milhões sem qualquer tipo de preparação prévia?

Políticos que rejeitassem uma proposta como essa já me pareceriam suspeitos de antemão. Se eles não estiverem dispostos a dar ouvidos a uns poucos professores pelo breve período, digamos, de um ano, não seria legítimo perguntar se eles realmente estariam dispostos, posteriormente, a dar ouvidos aos seus eleitores?

O amigo leitor poderá fazer questão de lembrar-me de que não é preciso cursinho para aprender a conspirar, roubar e mentir, e que, portanto, políticos não precisam aprender coisa nenhuma.

Eu provavelmente responderia que oito anos de inelegibilidade são muito pouco, e que não deveria haver uma segunda chance.

E depois ficaria em silêncio. É cada idéia besta...

22.7.17

Muy amigo

Ainda que com as melhores intenções, o simpático senador (e ex-presidente) do Uruguai José 'Pepe' Mujica acabou de enterrar de vez o futuro político de Lula.

Numa entrevista ao BBC Brasil, Mujica declarou (de forma inteiramente espontânea) o seguinte:
Olha, eu mantenho minha fé no Lula. Eu o conheço há muitos anos. O acusam por um sítio. Uma vez estive no sítio e é muito simples, com uma casinha.
Como dizemos aqui no Brasil, quem tem um amigo desses não precisa de inimigos.


13.7.17

O formol nosso de cada dia

As litografias de uma artista que conheço começaram a apresentar mofo. Seu professor de desenho, aliás um dos maiores artistas brasileiros, recomendou-lhe, do alto de seus 87 anos, um tratamento com formol embebido em papel manteiga ou vegetal. Depois de secas, essas folhas serão colocadas em cima dos trabalhos comprometidos e abafadas com plástico ou num lugar fechado. Problema resolvido.

Só que não. Mesmo em casas especializadas na venda de produtos químicos, a venda de formol é proibida para pessoas físicas, em razão, ao que eu ouvi dizer, da atividade de algumas cabeleireiras malucas que o usam nas cabeças de suas clientes.

E agora? E agora nada. É muito fácil comprar formol na ilegalidade, e tanto é assim que as tais cabeleireiras continuam a trabalhar com ele.

O problema é que, ao invés de concentrar-se o armazenamento da substância, que é realmente perigosa, em alguns poucos pontos de venda profissionais, temos agora centenas ou talvez milhares de vendedores clandestinos que armazenam o produto em suas casas. O risco é enorme, sobretudo para crianças e animais domésticos. Como muitas dessas vendas acontecem online, carteiros e porteiros também passam a correr riscos.

Se a venda fosse simplesmente regulamentada (por exemplo, com a identificação dos compradores), a situação seria outra. Mas não. É preciso proibir. E, com a proibição, surge uma nova oportunidade de negócio.

Assim "cuida" o Estado de seus pobres cidadãos, que, em vez de receberem educação, são mantidos num perpétuo estado de menoridade, sempre sendo protegidos de si mesmos. E a coisa termina assim: ao invés de diminuir-se o risco, faz-se com que ele seja aumentado; aqueles que precisam do produto para fins legítimos caem na clandestinidade; aqueles que o usam para fins ilegítimos não sofrem nenhum óbice em sua atividade; e as obras de arte continuam mofadas, sofrendo danos progressivos, enquanto os artistas não encontram um traficante que lhes venda a substância proibida.

12.7.17

Nem acima, nem abaixo

De acordo com a nota oficial do PT a respeito da condenação de Lula no processo do triplex, "Lula não está acima da lei, tampouco abaixo dela."

Não foi um erro de digitação. A frase também é apresentada em inglês (Lula is not above the law, either below it) e espanhol (Lula no está por encima de la ley, tampoco abajo de ella.)

Se Lula não está acima, mas também não está abaixo da lei, onde está Lula? Estará ele no mesmo plano da lei?

A megalomania do populismo latino-americano nunca pára de me surpreender.


6.7.17

Crise política 3: duas (improváveis) propostas

O parlamentarismo, o voto distrital, o fim do voto obrigatório e as candidaturas independentes são algumas das propostas atuais para uma reforma política no Brasil. O problema é que a deterioração da situação brasileira exige propostas radicalmente inovadoras e, por isso mesmo, pouco convencionais.

A primeira delas seria a erradicação da influência do dinheiro na campanha eleitoral. Transformar a campanha num austero debate de idéias e propostas seria uma forma de despir o rei e toda a sua corte. Já vimos no que dá encarar a política como um espetáculo. As campanhas devem assemelhar-se a reuniões de condomínio, e não a superproduções de Hollywood. Em vez de publicitários vendendo candidatos, teríamos os próprios candidatos vendendo aquilo que interessa: suas idéias e propostas. Qual seria o lugar privilegiado para uma campanha seca como essa? A Internet, claro. Seria chato? Sem dúvida. Mas é exatamente por isso que não há reunião de condomínio (ou eleições) todo dia.

A segunda proposta seria a criação de um grande fórum de debates na Internet onde qualquer cidadão poderia sugerir mudanças na legislação e soluções para problemas da esfera pública. Já existe uma iniciativa semelhante no Senado, mas ela não pode nem mesmo ser comparada a um autêntico fórum de debates. Um fórum daria, para além da representação, voz ao cidadão qualquer, e seria uma bela ferramenta para aprimorar e aprofundar a democracia. Apenas as forças mais ferrenhamente antidemocráticas (à direita e à esquerda) se posicionariam contra uma iniciativa como essa. Estados e municípios poderiam manter seus próprios fóruns; o custo dessas assembléias virtuais seria irrisório.

Terão essas jabuticabas alguma chance de prosperar? Duvido muito. Estamos eternamente condenados ao subdesenvolvimento? Se depender de nossa classe política, sim.

9.6.17

Três fundos de tela pretos para Android

É um tanto surpreendente verificar que poucos desenvolvedores de websites sabem produzir imagens otimizadas, isto é, arquivos de imagem com os menores tamanhos possíveis. É mais fácil encontrar um ministro do TSE com coragem suficiente para votar de acordo com as provas do que um site com imagens otimizadas ao máximo.

Este site sobre o sistema Android, por exemplo, que é informativo e bem desenhado, oferece um papel de parede preto (1920x1080 pixels) em um arquivo de 43.536 bytes. O arquivo é pequeno, sem dúvida, mas o fato é que se pode produzir um arquivo idêntico (igualmente preto e com as mesmas dimensões em pixels) 125 vezes menor.

Como você já sabe, o papel de parede preto, além de bacanudo, economiza bateria, especialmente em celulares mais modernos. E não há nenhuma necessidade de que o tamanho do arquivo seja minúsculo: basta que seja preto e seja salvo em formato PNG. Mas se é possível produzi-lo em escala microscópica... Por que não?

Fiz três fundos de tela pretos de dimensões (em pixels) variadas, que estão disponíveis abaixo. Se um deles servir para o seu celular, é só baixar e usar. Se seu celular usa fundo de tela com dimensões diferentes, use o Paint do Windows (ou um programa melhor, como o paint.net ou o Gimp) para fazer o seu. O arquivo não ficará minúsculo como aqueles que estou oferecendo aqui, mas ficará pequeno o bastante. Repetindo, basta que seja preto e seja salvo em formato PNG.

Clique sobre as imagens e depois salve-as em seu dispositivo.





8.6.17

Ossos do ofício

Governantes não podem ter uma espada de Dâmocles permanentemente suspensa sobre eles, alegou um dos ministros do TSE.

O problema é que isso contradiz a realidade que a própria anedota ilustra. Governantes sempre tiveram uma espada suspensa sobre seus pescoços, e não é mau que continue a ser assim em regimes democráticos.

Neste momento, um dos membros do tribunal está, do alto de seus cabelos brancos, questionando a validade das delações premiadas.

Vou ali fazer um papel de parede para o celular de minha mulher e depois eu volto.


P.S. - Como bem resumiu outro membro há alguns minutos, o que se apresenta no processo é indecoroso e ilegal, mas daí a considerar probatórias as provas e proferir uma condenação, há todo um Brasil de distância. Que outros cuidem disso.

7.6.17

pequenas intervenções (digitais, porém não menos) urbanas +1

6.6.17

pequenas intervenções (digitais, porém não menos) urbanas

5.6.17

Crise política 2: o impasse

Agora que o cerco à operação Lava Jato ganhou contornos oficiais e que a blindagem da corrupção está ganhando novas e coriáceas camadas, é bastante difícil prever até que ponto as quadrilhas no poder serão afetadas. Tudo indica que, a despeito das baixas e até da queda de alguns medalhões, as quadrilhas irão sobreviver, e com elas a velha política da "Nova República". Espero, é claro, estar enganado; mas o esperar, neste caso, exprime mais uma "torcida" do que propriamente uma esperança.

Se não há solução fora da política, e se os encarregados de providenciar soluções (por exemplo, uma reforma política) são os políticos, ou seja, justamente aqueles que precisam desesperadamente que as soluções lhes sejam benfazejas em detrimento do resto da sociedade, estamos, nitidamente, num impasse.

Como sair desse impasse? Pedir que quadrilhas não se comportem como quadrilhas está fora de questão. Assim, é preciso impedi-las de tomar decisões que mantenham seus próprios privilégios. Mas como impedir que políticos conduzam as necessárias reformas sem, com isso, recair em autoritarismos?
 

1.6.17

Crise política 1: o double-bind

Obras superfaturadas e aditivos sem fim, financiamentos fraudulentos, perdões de dívidas e multas de empresas privadas, desvios gigantescos em empresas estatais e fundos de pensão, legislações capciosas elaboradas em causa própria, hermenêuticas casuísticas, negociatas de toda ordem: agora sabemos, se já não sabíamos, como se tem feito política no Brasil.

Diante desse quadro espantoso, é impossível deixar de perguntar: será que as várias quadrilhas que estiveram conduzindo o país desse modo deixariam de cometer justamente o crime perfeito, impossível de ser auditado e investigado, o "crime dos crimes" que garantiria a manutenção dessas mesmas quadrilhas no poder?

Não é teoria da conspiração. É, diante das atuais circunstâncias, uma dúvida mais do que razoável. A rigor, um sistema de votação como o nosso sequer deveria existir. E não existe mesmo: a não ser aqui.

É demasiadamente irônico que, justamente no momento em que aprendemos tanto sobre o funcionamento comezinho da política brasileira, intelectuais e meios de comunicação estejam repetindo incessantemente que não há solução fora da política. É mais ou menos como dizer que precisamos confiar no nosso sistema eleitoral e ao mesmo tempo nos mandarem (sim, mandarem) votar nas máquinas de votação menos confiáveis do mundo. É difícil não chegar à conclusão de que os brasileiros estão sendo vítimas de double-bind.


P.S. Mais de um mês depois da publicação desta postagem, foi publicado na Folha de São Paulo este artigo de Ronaldo Lemos: "Segurança de urna digital acende luz amarela no Brasil". 

27.5.17

groboroba 2

Agro é teco
Agro é prop
Agro entrudo



 

Ver também: Groboroba

24.5.17

Uma brevíssima aula de Brasil



1. Economia

No sistema republicano brasileiro, tudo corre bem quando a baba escorre pela boca de cada publicano e ninguém fica sem o seu. 

2. Política

Em havendo desavença, no entanto, tudo desanda em briga de foice; e sempre aparece alguém para apagar a luz.

3. Direito

A Constituição brasileira é boa, mas apenas em teoria. Quando é preciso usá-la, sempre se muda, en passant, uma coisinha aqui, outra ali.

4. Cultura

Uma vez que a culpa é sempre do outro, nada tenho a fazer por mim mesmo, e não tendo nada a fazer por mim, muito menos terei a fazer pelo outro. Que, por sinal, é sempre o culpado. Da capo.

23.5.17

Este áudio foi editado?

Um teste para leigos. Você é capaz de detectar os cortes mesmo não tendo acesso ao equipamento de gravação?



NOTA: Não sou a favor do governo Temer, que por sinal está com os dias contados. 
Sou contra quem editou o áudio e contra os "gênios" da nossa imprensa que acham que adulterar uma prova é uma bobagem de somenos importância.

O dedo na ferida


Ricardo Molina
(clique para ampliar)

Eu estava disposto a trabalhar um pouco mais para mostrar, neste vídeo, alguns dos trechos do áudio da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer que acredito terem sido editados, mas a iminente análise da Polícia Federal tornou esse esforço não só desnecessário, mas inapropriado. No mais, Ricardo Molina endossou minha análise ao mencionar exatamente o mesmo problema que eu havia detectado em minha primeira postagem sobre o tema. Com isso, encerra-se o que eu tinha a dizer sobre o aspecto técnico da questão.

Mas ainda há muito a dizer sobre os aspectos político e jurídico. Muita gente (que eu não posso qualificar senão como francamente burra) tem dito que "não importa" se o áudio foi editado ou não.

Mas é claro que importa. Pois se o áudio foi editado, não se faz necessário prender apenas os mais de 1.800 bandidos contabilizados nas delações, mas também, e antes de mais nada, os bandidos responsáveis pela adulteração do arquivo, sejam eles quem forem.

Se está difícil entender isso, então será preciso reconhecer que o Brasil acabou.

22.5.17

O áudio de Joesley Batista e Michel Temer

Mostrando simultaneamente o espectro e a forma de onda (audio spectrum and audio waveform), este vídeo permite avaliar visualmente o áudio gravado por Joesley Batista em sua conversa com o presidente Michel Temer:

https://www.youtube.com/watch?v=KzqK98lHDa4

Se possível, veja o vídeo em HD.

Aqui há outro vídeo que fiz para comparar o ataque em alguns trechos da nona sinfonia de Beethoven e da gravação de Joesley Batista:

https://www.youtube.com/watch?v=lW9RF9b1uwo

Por fim, acabei descobrindo que existem (ao menos) duas versões desse áudio circulando na Rede. Uma delas, veiculada pela EBC / Agência Brasil, é a versão MP3 com a qual trabalhei nestes últimos dois dias e que pode ser escutada ou baixada na página da EBC / Agência Brasil:



A outra pode ser obtida num link existente no laudo (em PDF) emitido pelo perito contratado pela Folha de São Paulo:



Aparentemente, esta segunda versão só ficará disponível no endereço acima por mais três dias. O arquivo, que possui extensão WAV, ocasionou algumas dificuldades técnicas sobre as quais não vou me estender aqui, mas pôde ser convertido diretamente para o formato FLAC.

Os dois arquivos, como se pode ver nas imagens do programa iZotope, possuem características de áudio diferentes, ainda que tenham sido fornecidos por fontes supostamente oficiais: o arquivo examinado pelo perito da Folha teria sido encaminhado "a pedido do STF", e o outro foi e continua sendo veiculado pela Agência Brasil, que pertence ao governo.

Não me parece que estejamos diante de (mais) uma tentativa de manipulação, mas eu teria de analisar com mais calma, e comparar, as duas fontes. Seja como for, é estranho que absolutamente ninguém da imprensa tenha descoberto e mencionado essa disparidade de fontes em um áudio cuja autenticidade está, justamente, sendo objeto de disputa.

20.5.17

Uma amostra da edição do áudio na conversa de Temer

Não sou perito em áudio, mas já digitalizei vários LPs (fazendo limpeza "manual" de ruídos) e já editei inúmeras músicas; é uma espécie de hobby.

Assim, não custa nada deixar aqui uma pequena amostra visual da edição do áudio gravado por Joesley Batista. Há dois cortes na imagem abaixo, e o corte na parte central da imagem não deixa margem para dúvidas: o áudio foi editado, e não me parece que um "defeito do equipamento" pudesse produzir esse resultado.¹ Não há duração no ataque; o som entra de maneira totalmente abrupta (linha vertical), o que, a meu ver, é muito insólito. Ainda a meu ver, a edição é grosseira e, cá entre nós, até eu teria feito um trabalho melhor.

Não gosto de Temer, não votei em Temer e não estou defendendo seu governo. Mas também não dá para ficar calado diante de "peritos" capazes de afirmar que a edição do áudio é um detalhe sem importância. Se a questão é para "peritos", me perdoem, mas eu sou mais a minha perícia.


(clique para ampliar)


Fonte do áudio: EBC / Agência Brasil

¹ Nota de 22/05/2017 (texto publicado hoje no jornal O Globo):

"O perito André Morrison, um dos diretores da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais, disse que a análise sobre o pen drive é importante, mas não é essencial para a conclusão da perícia que os colegas estão fazendo sobre a autenticidade do áudio. Morrison fala com a autoridade de ex-chefe do setor responsável pela perícia de audiovisual do INC.

- Mesmo sem o gravador (o pen drive) é possível fazer a perícia. O gravador seria importante para dizer se determinado evento acústico (ruídos, falhas nos sons, etc) se devem ou não a características naturais do equipamento. Mas a perícia sobre o gravador não é fundamental - afirmou."



eXTReMe Tracker