25.3.19

A origem da palavra "chiclete"

Segundo uma das lendas urbanas difundidas na Internet, a palavra "chiclete" deriva da marca comercial "Chiclets". O processo de formação do nome (metonímia) teria sido o mesmo que, no Brasil, deu à fotocópia ou cópia reprográfica o nome de "xerox" e à lâmina de barbear o nome de "gilete".

The evening world. New York, July 12, 1905, Evening Edition, Image 11
(Fonte: The Library of Congress)

Por causa dessa lenda urbana, muita gente acredita que a única designação "correta" da coisa seria goma de mascar. A lenda difundiu-se e já foi até publicada em livro. O problema é que, como veremos, a palavra "chiclete" deriva da palavra náuatle tziktli.

A fonte dessa informação é o livro Historia general de las cosas de Nueva España, de Bernardino de Sahagún, publicado pela primeira vez em 1590. Na língua dos astecas, tziktli (espanhol chicle) significa "coisa grudenta". A goma de mascar era amplamente utilizada na sociedade asteca e, muito provavelmente, nas sociedades que a antecederam. Entre os astecas, apenas as moças solteiras podiam marcar chicletes. As mulheres casadas, as viúvas e os homens não podiam mascá-los, ao menos em público; em privado, porém, os chicletes eram mascados livremente. Esse tabu, que, curiosamente, permaneceu vivo durante séculos, deriva do fato que o chiclete (já naquele tempo) era usado para mascarar o mau hálito, sendo associado às mulheres públicas, ou seja, à prostituição.(1)

Percebe-se que há um abismo de diferença entre a formação das palavras xerox, gilete e chiclete. O substantivo comum "gilete" deriva do nome próprio de seu inventor, o americano King Camp Gillette. As palavras "xerox" e "xerografia" foram forjadas a partir do grego antigo – ξηρός (seco), γραφή (escrita) – e remetem, portanto, a uma época na qual (provavelmente) ninguém sequer sonhava em fabricar máquinas fotocopiadoras. Nesses dois casos houve, sem sobra de dúvida, derivação por metonímia: a marca comercial tornou-se substantivo comum (xerox, gilete) e verbo (xerocar).

Adams California Fruit Chewing Gum ad painted from a photograph of Ruth Roland.
Page 84 of the September 1919 Shadowlands. (Fonte: Wikipedia)

A palavra Chiclets, por sua vez, teve origem num substantivo comum, o espanhol chicle. Thomas Adams, fundador da American Chicle Company (grifo meu), só conheceu o chiclete porque trabalhou como secretário de um político mexicano que costumava mascar uma goma natural, talvez a mesmíssima goma usada pelos astecas. Esse político, que se chamava Antonio López de Santa Anna, tentou ele mesmo, embora sem sucesso, comercializar o chicle em larga escala.

Assim, apenas é possível dizer que a palavra "chiclete" formou-se a partir da marca comercial "Chiclets" se virarmos as costas a várias (muitas) centenas de anos de história. Se é certo dizer que foi graças ao americano Thomas Adams que começamos a mascar chicletes (e a usar a palavra chiclete), é historicamente incorreto ignorar que o chiclete é uma invenção de antigas civilizações mesoamericanas e que a palavra Chiclets deriva do espanhol chicle, que deriva, por sua vez, do náuatle tziktli. Não, não foram os americanos que inventaram o chiclete; eles não inventaram nem a coisa, nem a palavra; e não, não há razão para dar à palavra "chiclete" um tratamento diferente daquele recebido pela palavra "chocolate", outra invenção da civilização mesoamericana que se espalhou pelo mundo inteiro com seu nome original apenas ligeiramente modificado.


(1) SAHAGÚN, Fray Bernardino de. El México Antiguo (Edición de Jose Luis Martinez). Caracas, Ayacucho, 1981, p. 113.


18.3.19

Welcome to the machine


Em 25 anos na capital, Marcello morou em alguns dos melhores endereços da cidade, como a Asa Sul. Introvertido, nunca foi de fazer amigos. Em depoimentos à polícia, alegou ter sofrido bullying na escola e, desde cedo, odiar mulheres. Detestava ser derrotado em qualquer brincadeira para uma oponente do gênero feminino. De pele branca, também nunca gostou de negros, LGBTs, nordestinos e políticos e militantes de esquerda.


Nunca um órgão de imprensa sério publicaria: "Nordestino, Fulano nunca gostou de LGBT's." Afinal, se Fulano é homofóbico, isso nada tem a ver com sua condição de nordestino.

Do mesmo modo, um jornalista sério jamais escreveria: "Gay, Beltrano nunca gostou de negros". Afinal, se Beltrano é racista, isso nada tem a ver com sua condição de LGBT.

Mais um exemplo? O que vocês diriam se lessem: "De pele negra, Sicrano nunca gostou de judeus"? Não ficariam imediatamente indignados, e não apenas com o desprezível anti-semitismo de Sicrano, mas com a odiosa alusão à cor de sua pele?

O mesmo não se aplica, infelizmente, aos chamados "brancos". Nesse caso, a cor da pele é mencionada, passando a valer como um princípio explicativo. O sujeito não é homofóbico, racista e sexista porque tem vários parafusos a menos, mas porque é branco. É precisamente isso que a redação do texto citado sugere. "De pele branca, também nunca gostou..."

Haverá algum propósito nessa manifestação pública de racismo? Não creio. Haverá alguma justificativa jornalística? Também não, pois o leitor já conhecia a cor da pele do indivíduo, que aparece na foto que ilustra a matéria.

Não há propósito nem justificativa, mas sempre haverá conseqüências. É muito difícil mensurar o ódio que uma manifestação de racismo publicada em um grande meio de comunicação é capaz de criar. E que razão teríamos para brincar com essas coisas, ainda mais num momento como este?

Esse é o tipo de manifestação que se espera ver numa rede social racista, misógina e homofóbica como a que foi criada pelo cidadão brasiliense que foi objeto da matéria. Vê-la publicada no site do Correio Braziliense, que, se não me equivoco, é o jornal mais importante da capital do país, dá uma dimensão verdadeiramente nacional à terrível mensagem que acreditávamos estar confinada à Dark web:

"A máquina de ódio continua a operar."


15.3.19

Pode-se dizer que, em última instância, estamos todos circulando em torno de um ralo?

Há coisas que eu não entendo no Brasil.

Se são onze os ministros do STF e sete os ministros do TSE, é claro que estes últimos possuem, considerados individualmente, maior poder decisório. Dito de outro modo, um voto entre sete é mais decisivo do que um voto entre onze. No limite, se a decisão coubesse a apenas um ministro, este decidiria sozinho, ou seja, monocraticamente.

Assim, como três dos sete ministros que compõem o TSE são escolhidos entre os onze que compõem o STF, o ministro do STF que vota por um incremento de competência do TSE está, automaticamente, votando pelo incremento de seu próprio poder.

Quando o poder executivo faz algo semelhante a isso, dá uma confusão dos diabos.

eXTReMe Tracker