19.5.09

a cultura e a morte (fim)

Na verdade não é o fim, mas o começo, ou ainda o início do começo. O ensaio terá provavelmente esse mesmo nome, a cultura e a morte, mas está sendo escrito offline e bem devagar.

O texto que se segue é o prefácio - a princípio já sob sua forma definitiva. Ele entra de sola e promete muito; nada, no entanto, que eu não possa cumprir. Foram as minhas pesquisas sobre o risco que (não me perguntem como) me levaram ao tema da cultura, e desse modo é possível dizer que a coisa toda já está fermentando há redondos dez anos. Por falar nisso, que instituição é essa na qual é impossível ficar dez anos remoendo um tema? Além de pensar, ainda temos que pensar rápido? Esse tipo de produtividade me parece uma coisa boa para automóveis, celulares e todas essas coisinhas produzidas nas linhas de montagem. É bastante provável que hoje eu tivesse vergonha de voltar à Academia.

Lembrem-se, este é apenas o prefácio. Entrar de sola parece-me uma boa estratégia, algo como pegar o leitor pelo gasganete, mas é evidente que depois o tom será outro. O pensamento é feito de desacelerações e acelerações, suspensões e precipitações. E agora chega, senão eu vou acabar escrevendo o prefácio do prefácio.


A cultura e a morte (prefácio)

Não é preciso ser genial para perceber que, apesar de todas as conquistas realizadas pelo homem, algo de essencial perdeu-se pelo caminho. Reunimos todas as condições necessárias para fazer da vida algo de intenso, e mesmo sublime, porém tudo o que conseguimos foi fazer dela algo pequeno, miserável e sem sentido. Ao invés de nos esforçarmos para resolver nossos verdadeiros problemas, não cessamos de sufocar a nós mesmos e aos demais com falsos problemas de toda ordem. Ao invés de viver e deixar viver, ou melhor ainda, ao invés de viver e de intensificar a vida ao nosso redor, dedicamo-nos com todas as nossas forças a limitar as nossas próprias possibilidades e as de outrem. Poderíamos viver como deuses, porém somos os mais sofredores dos animais.

O que fizemos (e o que deixamos de fazer) para chegar a esse ponto? Os diagnósticos se multiplicam, e com eles os profetas de uma nova ordem política, moral ou religiosa; porém toda novidade, aqui, já nasceu velha demais, e parece não haver alternativa entre mergulhar no cinismo ou nos apegar a esses restos de passado como náufragos abraçados a velhas tábuas. Estamos tão desorientados que nem mesmo sabemos por onde começar. E não se trata de falta de informação ou de conhecimento; pois ainda que nossa ignorância seja imensa, nunca a informação e o próprio conhecimento foram tão fartos e minuciosos como em nossa época. Mesmo assim, temos uma enorme dificuldade para enxergar o óbvio. Tal como o ar que respiramos, o óbvio nos cerca por todos os lados e nos permite viver, porém não nos damos conta de sua existência a não ser quando ele nos falta. A diferença é que sabemos imediatamente quando o ar nos falta, ao passo que não temos a menor pista acerca do que nos falta e cuja ausência sufoca nossa vida nas sociedades modernas.

Assim, este ensaio é dedicado ao óbvio, ou pelo menos ao óbvio que diz respeito ao fenômeno humano e à vida em sociedade. Sua ambição não é pequena; ele se quer capaz, à força de mostrar o óbvio, de suscitar novas possibilidades de vida. No entanto, não há nele nenhuma panacéia: nenhuma fórmula mágica, nenhuma palavra de ordem (ou de consolo), nenhuma sabedoria transcendental, nenhuma utopia, nenhuma doutrina moral ou religiosa, nenhuma nova e revolucionária proposta de organização social. E é bom que seja assim, pois já tivemos todas essas coisas em número suficiente, porém nenhuma delas - para dizer o mínimo - jamais nos impediu de mutilar e amesquinhar a vida. Mas saber de antemão que este ensaio não se prestará a ser brandido nas esquinas por pregadores de qualquer espécie é, com efeito, minha única satisfação ao escrevê-lo; de resto, o que eu sinto é vergonha. Dizer o óbvio é sempre, em alguma medida, vergonhoso. E se me for permitido sonhar algum futuro para este livro, meu desejo é que ele produza seus efeitos e desapareça; e que os homens do futuro, caso venham a tomar conhecimento dele, se perguntem como pudemos chegar a esse ponto, ao ponto de esquecer o óbvio e de forçar alguém a dizê-lo com todas as letras.

8 Comentários:

Blogger fred girauta disse...

será o óbvio tão óbvio?

3 de junho de 2009 14:46  
Blogger Francisco Fuchs disse...

Rapaz, que frio, que dor nas costas! Será a idade chegando? Hoje posso fazer qualquer coisa menos ficar sentado no pc. A resposta, então, terá que ser breve.

Cada qual tem o óbvio que merece?

Saudades.

3 de junho de 2009 17:41  
Blogger virgínia além mar- peixe voador disse...

carissimo amigo Francisco estou contente que venha nos brindar com teu pensamento amadurecido. Gostei do Prefácio, tua escrita é uma dança belas e singular.
Aguardo pelos capítulos
abraço da tua leitora e amiga virgínia

24 de junho de 2009 22:55  
Blogger virgínia além mar- peixe voador disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

24 de junho de 2009 22:55  
Blogger Francisco Fuchs disse...

Virgínia, minha amiga, obrigado pela presença sempre tão gentil e atenta. Um grande abraço também saudoso e um tanto anarquista.

26 de junho de 2009 06:33  
Blogger celia barros disse...

Olá Francisco, não nos conhecemos, mas de vez enquanto venho bisbilhotar aqui à procura de novos trechos de "A cultura e a morte" que encontrei pela primeira vez no Triagem. Vinha atrás de uma palavra e encontro sempre outras.

Agora, o óbvio, que ainda esta semana me passou pela boca, vem cair encharcado no meu colo. Molhou tudo.

Mas daqui para a frente parece que vou ter que esperar sentada, enquanto não sai o resto...

abraços, Célia

28 de junho de 2009 13:39  
Anonymous chico fux disse...

Olá, Célia, tudo bom?

Que surpresa bacana...

Eu realmente lamento fazê-la esperar, mas já não dava para fazer a coisa aqui, em picotes.

Obrigado pelo eco. Espero fazer com que sua espera valha a pena.

Um abraço,
Francisco

29 de junho de 2009 21:18  
Blogger marcia disse...

muito bom! bjim

15 de agosto de 2009 15:22  

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