6.7.14

(Ainda) algumas palavras sobre futebol

Depois do que aconteceu ontem com Neymar, é impossível não pensar nas palavras de Nietzsche: é preciso defender os fortes contra os fracos. Quem são os fortes? São aqueles que se caracterizam pelo excesso: excesso de entendimento, de sensibilidade, de criatividade. Se Neymar é um forte, não é por excesso de músculos, e muito menos por excesso de dinheiro ou poder: qualquer retardado pode acumular músculos, dinheiro e poder, e nem por isso se tornará jamais um forte. Neymar é um forte em razão de seu excesso de talento, pela regularidade com que franqueia a tênue linha que separa o futebol como simples esporte do futebol como obra de arte.

E quem seriam os fracos? Em primeiro lugar, eu diria que quem troca o entendimento pela idéia fixa, a sensibilidade pela Lei e a criatividade pela segurança é um fraco. E, em segundo lugar, eu diria que aquele que se ressente com o excesso do forte é um fraco. O fraco é aquele que, ao invés de aprimorar sua própria força, visa destruir e/ou limitar a força do outro.

Ora, se é assim, é preciso impor limites aos fracos. Penso que é desse ponto de vista que se pode pensar de maneira positiva a Lei: como um limite imposto pela sociedade aos insensíveis, aos ressentidos, aos fracos de cabeça, aos obcecados por idéias fixas. (Talvez seja até possível dizer que todos os crimes – desde os passionais, motivados pelo ódio ou pelo ciúme, até os crimes cometidos em função de dinheiro, poder ou ideologia – resultam da obsessão por idéias fixas.)

Assim, quando um árbitro de futebol como Carlos Velasco Carballo se omite e deixa de aplicar a lei (ou, no caso do futebol, as regras), os fracos festejam e os fortes padecem.

* * * 

No jogo de ontem a seleção brasileira jogou duro, mas não de forma desleal. Tanto é assim que nenhum (mas nem unzinho só) jogador colombiano deixou a partida por contusão. Quanto à joelhada de Zúñiga em Neymar, não basta ver o corte que os canais de TV repetiram à exaustão. É preciso recuar alguns segundos e mostrar o lance desde o início. Neymar e Zúñiga estão parados; e quando a bola vem na direção de Neymar, Zúñiga dá um pique curto e mete o joelho nas costas do craque. Não tenho o vídeo do lance inteiro para mostrar aqui. Mas as duas imagens abaixo falam por si mesmas. 


 (clique nas imagens para ampliá-las)


Abaixo, a falta de Zúñiga em Hulk: cartão vermelho?

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Mais um exemplo do fair play colombiano;
Cuadrado esquece a redonda e vai direto no corpo do Neymar:

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A imprensa colombiana está dizendo que o Brasil comprou a arbitragem. Deve ser por isso que, neste lance, o juizão marcou uma falta perigosíssima, na entrada da área, contra o Brasil:

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Só que nem falta foi. O colombiano sequer foi tocado. E se houve "pé alto", foi pé alto dos dois jogadores. Mas o colombiano fez cena e o juiz entrou na dele.

Mas se a imprensa colombiana é livre para dizer o que quiser, o mesmo vale para a imprensa brasileira. Ricardo Boechat, "âncora" do telejornal da Bandeirantes, disse neste sábado que não viu maldade na entrada de Zúñiga sobre Neymar.

É o tipo de coisa que me faz coçar a cabeça. Como é que um cara que não sabe interpretar nem mesmo um acontecimento tão simples quanto esse vira "âncora" de jornal? Se depender de mim, Boechat será titular na lateral esquerda da seleção brasileira de âncoras de cabecinha fraca. Com o Boris "Sai Daqui Gari" Casoy na lateral direita, claro. Não ofenda nossa inteligência, Boechat!

* * *

Ao não substituir Neymar, Felipão perdeu uma preciosa oportunidade de antecipar-se aos acontecimentos. Se o craque tinha cartão amarelo e não estava jogando bem, e se a partida estava cada vez mais tomando uma feição latino-americana, substituir Neymar seria uma jogada mais decisiva do que um pênalti. Aliás, eu esqueci de mencionar isso ontem, mas até o Galvão Buenísimo acabou mencionando essa possibilidade a certa altura do segundo tempo. Bem depois de mim, claro. E se até o Galvão chegou a pensar nisso, por que não o Felipão? Mas agora não adianta chorar o leite derramado.

* * *

Ok, o juiz espanhol apitou muito mal, mas... E a FIFA? Ah, a FIFA... Mesmo sem receber para isso, vou indicar aqui a solução para essa vergonha dos cartões economizados. Primeira fase (fase de grupos): vale a regra atual. Dois cartões amarelos suspendem o jogador para o próximo jogo. Segunda fase (das oitavas à final): os cartões amarelos não acumulam. O cartão vermelho, claro, sempre suspenderá o jogador para o próximo jogo, seja em que fase for. Pronto! Os árbitros poderão distribuir cartões normalmente de acordo com as regras e zelar pelo bom futebol. Uma variação possível (e muito interessante) seria prolongar o efeito dos cartões amarelos da primeira fase, como se faz hoje, mas apenas para os jogos das oitavas. Assim, quem tomasse dois amarelos em dois dos três primeiros jogos da primeira fase seria punido com a suspensão. Mas nos três últimos jogos não haveria acumulação de cartões amarelos. Com esse sistema e com uma atuação rigorosa dos árbitros, que teriam apenas de ter coragem de dar os cartões apropriados sempre que isso fosse necessário, a deslealdade estaria sob controle.

É claro que a solução ideal passa pelo controle externo da arbitragem com a análise das jogadas pelo vídeo. Mas enquanto isso não chega, vale qualquer coisa para garantir mais lisura nos jogos.

* * *

Os argentinos estão especialmente tristes com a contusão de Neymar. E não é cinismo! É que eles sabem que, na hipótese de conquistarem o título sobre o Brasil na final, os brasileiros terão, eternidade afora, uma desculpa de peso para diminuir os méritos da vitória argentina. Afinal, o Brasil perdeu de forma trágica seu principal jogador e o duelo Messi versus Neymar não irá mais acontecer. Dos uruguaios, então, nem se fala. Aos poucos eles irão perceber que o maracanazo foi também a cagada do século. Estudem a história da Copa de 1950 e vocês entenderão de que estou falando.

Mas será que Brasil e Argentina chegarão mesmo à final? Como tem acontecido até aqui (com exceção do jogo contra Camarões), o Brasil terá um jogo bem mais difícil pela frente. E se o Brasil não bater a boa seleção da Alemanha, a Argentina também não baterá. O campeão sairá do jogo entre Brasil e Alemanha. É uma final antecipada.

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