24.9.14

Carta a Dilma Rousseff

Prezada Dilma Rousseff,

Ainda guardo comigo meu broche do PT: não aquele de plástico barato, lançado depois, mas o antigo, o de alumínio, possivelmente cioso de sua origem metalúrgica.

Não que eu tenha me filiado ao PT. Jamais fui filiado a partido algum. Um acesso de bom senso, coisa rara porém providencial num adolescente de 17 anos, impediu que me filiasse, em 1979, ao PCB.

E se em 1981, ao entrar na Universidade, eu ainda tinha alguma veleidade política, ela dissipou-se por completo assim que participei de minha primeira (e última) reunião do diretório acadêmico do curso de História. Era óbvio que nenhuma daquelas pessoas tinha qualquer potencialidade para produzir o "novo homem" que era objeto de meu interesse. E nessa época eu já sabia que uma sociedade nova só poderia surgir a partir do surgimento de um novo homem – e não o inverso.

Hoje, ao saber que figuras ilustres da nossa direita foram filiadas ao PT ou militaram no PCB durante anos a fio, não posso impedir-me de sentir certo orgulho pela precocidade de minha visão. Esse afastamento prematuro poupou-me da decepção. Sequer tive tempo ou envolvimento suficientes para tornar-me ressentido com a esquerda. Simplesmente deixei-a atrás de mim, e a uma distância considerável, guiado por essa mesma disciplina que você crê ser inútil para os nossos jovens: a Filosofia.

Entretanto, enquanto eu me esforçava para me orientar no pensamento, continuava existindo, lá fora, a política, a pequena e mesquinha política de todos os dias. Havia que votar e eu, durante anos, votei na esquerda achando que fazia o que era correto. Muitos desses votos foram para o PT.

Seus quase quatro anos de mandato, entretanto, bastaram para me convencer de que votar no PT é um enorme equívoco.

Suas decisões econômicas foram desastrosas. Mas o que realmente me embrulha o estômago é a miopia de sua visão política. Para você existem "amigos" e "inimigos"; seus amigos, por mais estúpidos que sejam, são os "bons"; e seus "inimigos" são a perene encarnação do mal absoluto. Há o preto e o branco: não há matizes, não há tons de cinza, não há acertos e erros pontuais. Nesse sentido, fazer uma campanha canalha contra Marina Silva ou condenar os Estados Unidos quando estes jogam bombas em cima de genocidas faz parte de uma única e mesma estratégia. Não me espanta que você ache a Filosofia inútil. Tudo o que você sabe fazer é firmar posições, ou seja, marcar territórios. Não lhe interessam os jogos do pensamento; só os jogos do poder.

E por falar em "preto e branco", suas declarações sobre a "elite branca" (precedidas, é bem verdade, pelas declarações de Lula sobre a "gente branca de olhos azuis") me fazem lembrar das palavras do filósofo: "Não freqüentar ninguém que esteja implicado nessa burla despudorada das raças."

Só que quem usa sapatos Louis Vuitton é você. Pensando bem, faz todo o sentido do mundo. E eu, que talvez ainda não tenha me curado de minha burrice esquerdista, vou votar em Marina Silva para presidente. Com todos os tons de cinza que isso implica.


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